Crime

Assaltante do BES ao i:"Continua ser o meu banco"

por Augusto Freitas de Sousa, Publicado em 13 de Julho de 2009   
Foi condenado a 11 anos de cadeia e à expulsão de Portugal. Em exclusivo ao i, Wellington diz-se arrependido
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Wellington Nazaré à entrada do tribunal
Wellington Nazaré pede desculpa aos sequestrados, aos portugueses, brasileiros e ao próprio BES, um banco de que continua a ser cliente. Em entrevista exclusiva ao i, o brasileiro que protagonizou um dos assaltos mais mediáticos de sempre em Lisboa pede desculpa "a todos, à Ana, ao Vasco [sequestrados], a todos os demais que infelizmente ali se deslocaram e, principalmente, aos portugueses e aos brasileiros".

Wellington Nazaré está há um ano - desde Agosto de 2008 - em prisão preventiva. Caso não se verifique recurso, passará a cumprir 11 anos de cadeia, com uma pena acessória de expulsão de Portugal por um período de oito. Em 2013, cumprida metade da pena, pode pedir uma avaliação para obter a liberdade condicional. A decisão vai depender de uma comissão que avalia, entre outros factores, o seu comportamento durante os anos em que esteve preso.

Durante a operação, filmada em directo pelas televisões no dia 7 de Agosto do ano passado, Nilson de Sousa foi morto a tiro pela Polícia. Já Wellington Nazaré, de 24 anos, depois de baleado, viria a ser internado no Hospital de S. José. Quando deixou de correr perigo de vida, foi transferido para o Hospital Prisional de Caxias. Mais tarde, ainda passou por uma ala de alta segurança na cadeia do Linhó - e, por último, foi enviado para o Estabelecimento Prisional de Lisboa (EPL), onde se encontra actualmente.

Relativamente aos 11 anos de pena, Wellington disse ao i que "pelo meu coração, meu arrependimento e futuro, acho 11 anos muito, é muita coisa". No entanto, reconhece que "poderia ter sido bem pior e pegado mais anos". Para o recluso, este caso "afectou-o para sempre". Recorda que foi "baleado quatro vezes na cabeça e na cara". Mais: "dou graças a Deus por estar vivo". Internado numa ala onde convive com presos efectivos e preventivos, o brasileiro não hesita em garantir que "não tem queixas nenhumas" do sistema judicial ou prisional.

Wellington conta que a melhor parte do dia é aquela em que convive com outros prisioneiros, entre a uma e as duas da tarde. Está detido numa ala com mais brasileiros e é em grupo que se mantêm na cadeia. São minoritários e é habitual que se juntem entre compatriotas, numa cadeia maioritariamente ocupada por portugueses. O jovem brasileiro explica que vai conversando, vendo televisão e está a ler um livro.

A única queixa é a dificuldade que tem em adormecer: "Meu problema é ser difícil dormir, muito difícil... por causa do pensamento... as coisas que eu perdi...". O brasileiro garante que "queria muito recuperar três coisas em minha vida: minha dignidade pessoal, o amor de minha família e a oportunidade de ser útil à sociedade". Aposta na capacidade que diz ter para se regenerar: até porque, "como tive uma decisão irreflectida, venho aprendendo muito com as consequências". Wellington adianta: "o que mais quero na vida é mostrar às pessoas quem sou realmente, quero que as pessoas saibam que errei muito mas tenho capacidade de me recuperar e retornar à via do bem, da qual nunca deveria ter-me afastado." Pede que lhe seja dada uma oportunidade para mostrar que só cometeu "um erro muito grave em toda a minha vida, o qual me foi fatal".

Foi a própria acusação do Ministério Público (MP) que concluiu que a operação policial correu mal. Nilson Sousa foi prontamente morto com um tiro no peito de um atirador do Grupo de Operações Especiais (GOE) da PSP, mas o tiro destinado a Wellington não o deteve e, segundo a acusação, ele "continuou a apontar a arma à cabeça do refém". O MP, que ilibou a actuação da PSP, referiu que a morte de Nilson e os ferimentos de Wellington foram "em legítima defesa de terceiro", esgotados "todos os meios alternativos", como o foram as cerca de sete horas de negociação.

Garante-se que a distância e a proximidade dos assaltantes em relação aos reféns, Vasco Mendes e Ana Antunes, justificaram a intenção de matar por parte da polícia, citando normas da PSP onde "é admitido o uso da arma de fogo contra pessoas, se necessário de forma potencialmente letal, em legítima defesa própria ou de terceiros".

Se a defesa não recorrer da decisão do tribunal que condenou Wellington a 11 anos de cadeia (ver texto na pág. 25), a possibilidade mais forte é a de cumprir, pelo menos, dois terços da pena, o que na prática implicaria uma sentença de cerca de 7 anos e meio. Uma outra possibilidade é o cumprimento no Brasil, que tem um regime de execução mais favorável. Segundo o Código Penal brasileiro, "o juiz poderá conceder livramento condicional ao condenado cumprida mais de um terço da pena."


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