Educação
Debate: pais devem pagar pelos erros dos filhos na escola?
Publicado em 09 de Julho de 2009
Petição para multar os encarregados de educação chegou ao Parlamento
Esta história começa por acaso: um professor em Viana do Castelo teve um dia difícil, enfrentou "pais que choram porque não têm o que dar aos filhos para comer", e sofreu com uma profissão que, ao "lidar com pessoas e emoções, se torna desgastante e absorvente". Contra tudo isto, Luís Sottomaior Braga, presidente do conselho executivo do agrupamento das escolas de Darque, em Viana do Castelo, e professor de História há quinze anos, decidiu criar uma petição online que pede a "responsabilização efectiva das famílias nos casos de absentismo, abandono e indisciplina escolar."
Nunca imaginou as proporções que o documento ganharia: desde 24 de Março que está online e ao fim de dois dias o site contava já com 2.500 assinaturas. A iniciativa foi ontem discutida em plenário na Assembleia da República, com 13.500 signatários (para ser levada a plenário, uma petição necessita apenas de 4.000 assinantes).
A petição propõe "criar mecanismos administrativos e jurídicos" para responsabilizar os pais: "medidas sancionatórias às famílias negligentes, com multas." Rever, portanto, o Estatuto do Aluno - recentemente alterado pelo governo socialista - que não prevê medidas sancionatórias e, segundo o professor, não está adaptado à realidade.
Para Luís Braga, a multa ou cortes nos benefícios sociais teriam um efeito inibidor por receio das sanções. "Uma das coisas que faz mexer as pessoas é o dinheiro. Daí que fale em multas." E questiona: "Fará sentido uma família que não cumpre o seu dever de ir à escola e de preocupar-se com a educação do filho, ter direito ao abono de família?"
Albino Almeida, da Confederação das Associações de Pais (Confap), lamenta "a génese e as medidas" da petição e espera que a Assembleia da República a "rejeite completamente". "Não é eficaz. Pretende penalizar sem envolver as associações representantes dos pais." Para Albino Almeida a petição é "uma manobra de propaganda bem orquestrada que quer penalizar sem envolver." A penalização "não é caminho" e o presidente da Confap propõe antes "políticas públicas de capacitação parental", ou seja, orientar e apoiar os pais.
"Não nos podemos esquecer que uma em cada cinco crianças é pobre e por isso esta é uma medida demagógica", afirma Albino Almeida. "Queria ver esse professor a aplicar a medida à comunidade cigana..."
O argumento de que as famílias mais pobres não poderiam suportar as multas não demove o professor de Viana do Castelo: "Pais que não dão atenção aos filhos não são uma fatalidade. É preciso fazer algo para mudar isso." "Não estamos contra os pais, não é uma luta de professores contra pais", disse ao i o primeiro signatário da petição.
Uma referência A inspiração de Luís Braga ao redigir a petição vem da sua própria educação. Criado pela avó, professora do primeiro ciclo entre 1926 e 1959, conta que era uma mulher de "dura personalidade" e quando viu que os seus alunos faltavam às aulas levou a GNR à casa deles para os obrigar a ir à escola. Passeava com a avó, já com 80 e muitos anos, quando um senhor "de cabelos brancos nos seus 40" veio a chorar abraçar-se a ela. Era um ex-aluno que fora "obrigado" a frequentar a escola e lhe estava "eternamente" grato. Um tempo em que as faltas escolares eram explicadas pelo trabalho para ajudar a família.
Agressões justificam Ilídio Trindade, coordenador para a mobilização e unidade dos professores, assinou "logo" a petição e diz que é pertinente numa época de "espiral de violência". "Com o historial de agressões verbais e físicas dos últimos tempos justifica-se para evitar que a escola se torne num campo de batalha." E vai mais longe na responsabilização dos pais, admitindo a hipótese de ser criminal. "Se me atirarem com uma cadeira quem responde por isso?"
Ilídio Trindade diz que é de "consensos". "Tem de haver medidas preventivas mas também, e desde já, penalizadoras. Umas para prever e as outras para estancar as situações que a prevenção não consegue resolver.
Discussão no Parlamento Na Assembleia, houve poucas surpresas: PS, BE e PCP discordaram das multas e a oposição à esquerda aproveitou o debate para criticar a política de educação do governo. Só PSD e CDS se mostraram favoráveis à petição. Abel Baptista, deputado do CDS, é o mais ousado: "As sanções não são só multas ou retirada de prestações sociais, podem ser trabalhos comunitários por parte da família e aluno", afirmou ao i. Rosalina Martins, do PS, defende antes que o caminho certo seria conciliar o "empenho das associações de pais, alunos e professores", e sugeriu: "Técnicos de mediação entre escolas e famílias".
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