Imagine que as duas horas de passadeira e bicicleta que cumpre no ginásio três vezes por semana serviam para mais que manter a boa forma e baixos níveis de stress. Por exemplo, para carregar o telemóvel, o portátil ou o iPod a custo zero e sem emissões de CO2. Tudo com recurso simples a uma bateria inserida nos ténis, num relógio de pulso ou até nas luvas de musculação. Impossível? Nada disso. É a micro-geração ao nível mais básico que existe e foi desenvolvida para o projecto People Powered Places, que a equipa de estudantes portugueses da Universidade Nova de Lisboa trouxe à Imagine Cup da Microsoft, que decorre esta semana no Egipto. Com um investimento de um milhão de euros, a competição tem como tema deste ano usar a tecnologia para resolver os problemas do milénio, tais como obesidade, pobreza ou alterações climáticas.
Apesar de ter sido eliminada logo na primeira ronda com uma apresentação próxima do desastre, a equipa composta por Nuno Dias, Ricardo Ferreira e Gonçalo Castro continua empenhada em transformar o projecto num produto viável. “Vamos amadurecer a tecnologia e depois tentar torná-la realidade”, explica Ricardo Ferreira, revelando ao i que a equipa já contactou a EDP e o ginásio Aquafitness, na Caparica, para avaliar a receptividade da ideia. Ambas se mostraram muito interessadas.
Como funciona então o projecto? A ideia é gerar electricidade com o movimento humano. Usando pequenos aparelhos com acumuladores de energia, qualquer pessoa consegue gerar watts suficientes para carregar os mais variados gadgets caseiros – demorndo cerca de nove horas com a tecnologia actual.
A ideia dos estudantes é adaptar estes aparelhos a material do dia-a-dia, como ténis, pulseiras, braçadeiras e até luvas, e depois usar um software que determina qual o esforço que deve ser feito para gerar, digamos, 5 watts. Daí que os ginásios sejam um dos locais mais apropriados para implementar o produto, já que o movimento contínuo e o esforço acima do normal são os únicos propósitos. De acordo com a ideia dos estudantes portugueses, os ginásios poderiam, no limite, chegar a um ponto de consumo e emissões zero – usando os seus clientes como geradores de energia. Os clientes seriam compensados com descontos na mensalidade correspondentes à sua participação no projecto.
A iniciativa inclui uma rede social, onde os utilizadores destes acumuladores de energia poderiam partilhar experiências e até doar a quem mais necessitasse, injectando electricidade na rede. A EDP faria então os descontos na conta do cliente a quem a energia foi doada, mas avisou a equipa que só com grandes quantidades de energia gerada será possivel a sua participação. No fundo, o projecto coloca nas mãos das pessoas parte da resolução de um problema grave da humanidade: a dependência dos combustíveis fósseis. Os alunos do mestrado em Engenharia Eletrotécnica e de Computadores da Faculdade de Ciência e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa acreditam que é possível.
Lost in translation Sono, mau inglês e nervosismo. Foi esta a mistura explosiva que traíu a equipa que representou Portugal no Imagine Cup e deitou a perder vários meses de trabalho. O péssimo inglês dos três estudantes (um dos quais diz apenas umas palavras da língua), misturado com uma noite em branco e o falhanço das duas ventoinhas que serviriam para a demonstração acabaram 'por ditar a eliminação. Os portugueses não conseguiram responder às perguntas por falta de vocabulário e deram a entender que o foco estava nos aparelhos e não no software, que era a categoria do concurso. Nem as aulas de inglês e apresentação em público que a Microsoft pagou aos alunos deram resultado.Mas Ricardo Ferreira não se mostra desiludido, antes pelo contrário. Admite que a “inexperiência” da equipa e o facto de terem chegado ao Cairo com muito trabalho por fazer contribuíram para a má apresentação, além da falta de sono e o nervosismo. A equipa vai voltar a tentar no próximo ano mas tentará concorrer noutra categoria, como garante Celso Lima, professor mentor do projecto, para quem toda esta experiência foi “fantástica”, mesmo com a eliminação.
Exactamente a mesma sensação revelada por um dos alunos, Nuno Dias, que classificou a participação de “irreal”.
Não admira. Instalados principescamente no Intercontinental City Stars, um dos mais luxuosos complexos turísticos da capital egípcia, os 441 estudantes que se vieram mostrar à Microsoft no Cairo, em especial a Ray Ozzie, o génio que tomou o lugar de Bill Gates em Julho do ano passado, têm todos o mesmo brilho nos olhos.. “Não representamos os 'geeks' formatados, brincava Nuno Dias, aludindo à excitação que tem vibrado nos corredores do evento.Também Amirton Chagas, um dos 22 brasileiros que invadiram o Egipto, fala da competição como a oportunidade de uma vida. “Óptimo, apesar de todo o stress e nervosismo”, conta, sublinhando que as várias equipas brasileiras presentes se ajudaram umas às outras e tornaram a viagem inesquecível. Na verdade, a história dos brasileiros é bem diferente da dos portugueses neste evento. Em seis anos de participação, nunca uma equipa nacional conseguiu ser seleccionada nas categorias de inscrição online. “São mais de cinco mil candidaturas rejeitadas”, salienta Patrícia Fernandes, directora de comunicação da Microsoft Portugal. Os portugueses só conseguem entrar na competição de Software Design, onde há um concurso em cada país. E isso tem que dizer alguma coisa da inovação ao nível universitário em Portugal.
H1N1 atormenta organização do evento A Microsoft Egipto dificilmente voltará a organizar um grande evento para a casa-mãe, depois de todos os problemas causados pelas autoridades egípcias e pela histeria com a gripe A. Tudo começou com a equipa chilena, que testou positivamente ao H1N1 e foi imediatamente recambiada para o Chile, sem hipótese de participação no Imagine Cup. A partir daí, qualquer participante com febre ou má disposição começou a ser enviado para o hospital em quarentena durante 24 horas, sendo que todos os médicos internacionais que a Microsoft quis trazer tiveram os vistos negados. E apesar de todos os casos terem sido negativos, a organização da Microsoft teve de cancelar a visita ao Museu do Cairo e a entrada nas pirâmides de Giza. Além disso, as autoridades rasgaram as permissões de filmagem e reportagem que tinham sido dadas sem qualquer justificação. São poucos os que falam inglês e ainda menos os que confiam nos estrangeiros. Dizia-se, nos bastidores do Imagine Cup, que a Microsoft Egipto “vendeu a imagem de um país que não tem”.




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