Pinho ao i: Os corninhos "não eram para Louçã, eram para Bernardino"

por Ana Sá Lopes e Ana Suspiro, Publicado em 03 de Julho de 2009   
Foi a última gafe. O gesto no Parlamento foi um sinal da despedida. Pinho sai, Teixeira dos Santos assume. O governo ainda está em choque
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O gesto de Manuel Pinho para a bancada do PCP valeu-lhe a demissão da pasta da Economia. A governação do Ministro ficou marcada pelo desenvolvimento das energias renováveis. A tentativa de salvar a Qimonda foi um fracasso.
Um ministro de cabeça perdida, uma remodelação feita durante o debate do Estado da Nação. O Parlamento viveu ontem o dia mais insólito dos últimos 20 anos, quando no meio do debate do Estado da Nação, o ministro Manuel Pinho aponta dois corninhos à bancada do PCP. Pouco depois, sai da sala. Um gabinete de crise reúne-se na sala do ministro dos Assuntos Parlamentares: Augusto Santos Silva e Pedro Silva Pereira mantêm uma reunião prolongada com Manuel Pinho. Algum tempo depois, Teixeira dos Santos junta-se ao grupo.

O resto do governo apresenta sinais de evidente estado de choque. O ministro da Economia tinha cometido a sua última gafe: sem que José Sócrates tenha saído do plenário onde se discutia o Estado da Nação, Manuel Pinho demite-se e é substituído por Teixeira dos Santos, o ministro das Finanças que passará a gerir também a Economia. Pinho, que começou por recusar a demissão - "sobretudo enquanto safar postos de trabalho" - acaba por ceder à pressão dos acontecimentos. O primeiro-ministro teve "algumas horas para pensar" e escolheu Teixeira dos Santos.

Uma história insólita, a três meses das eleições, acaba com o ministro que quase desde o primeiro dia foi apontado como remodelável. Ao lado de Mário Lino, Maria de Lurdes Rodrigues e Jaime Silva, Manuel Pinho fazia parte do grupo dos mais contestados pela oposição e pela rua. Era conhecido pelas suas gafes contínuas e intervenções públicas desastradas. A de ontem retirou-o do ministério e produziu mais um abalo violento num governo em fim de estação a quem, depois da derrota das europeias, tudo acontece.

A tarde foi cheia de episódios caricatos, a sucederem-se em turbilhão: inicialmente, quem reivindica ser a vítima do insulto foi o Bloco de Esquerda, uma vez que é quando Francisco Louçã está a falar que o ministro faz o gesto.

Mas os corninhos não se destinavam ao Bloco: a versão é do próprio Manuel Pinho, contada ao i enquanto observava Louçã a desdobrar-se em declarações às TV. "Não eram para ele. Eram para Bernardino Soares, que me chamou mentiroso, por causa das minas de Aljustrel", disse Pinho ao i. Mas lamentou o episódio: "Excedi-me e peço imensa desculpa." A demissão do ministro foi anunciada por José Sócrates logo à saída do debate. "Agradeço publicamente que o ministro tenha compreendido que aquele gesto não podia ter acontecido. Estou convencido de que esse gesto é redimido assim." Mas Sócrates não deixou cair totalmente o ministro "que deu o seu melhor ao serviço do país" e que agora saía do governo vítima de "um acto irreflectido". "A política é uma actividade de uma enorme crueldade", resumiu o primeiro-ministro, suspirando: "Sei bem o que é ouvir críticas injustas."

Percebeu-se que Pinho estava perdido quando o primeiro-ministro pede desculpas à câmara, já depois das 19 horas. "O que aconteceu é injustificável. Bem sei que o senhor ministro já declarou que estava arrependido, mas nada justifica o acto. Quero em nome do governo pedir desculpa ao plenário." Depois, seguiu-se Alberto Martins, o líder parlamentar do PS, que afirmou que o gesto de Pinho era "um acto político lamentável" do qual os socialistas "se distanciavam em absoluto e condenavam". Seguiu-se Jaime Gama, o socialista que preside ao Parlamento: "O que aqui se passou, além de insólito foi lastimável. Não deveria ter ocorrido." Paulo Rangel foi mais longe: condenou o gesto "que revela um estado" que consideram "lamentável por parte dos membros do governo". O filme ainda se torna mais irónico quando, na realidade, o debate do Estado da Nação até estava a correr bem a José Sócrates. Mas a lei de Murphy persegue o primeiro-ministro.

O mandato Pinho Os pacotes de apoio aos sectores mais frágeis e a tentativa de evitar o encerramento de mais fábricas eram agora os principais dossiês nas mãos do ministro da Economia. Apesar do voluntarismo, Manuel Pinho não conseguiu evitar o fecho da Qimonda em plena crise, tal como anos antes não conseguiu travar o encerramento da Opel da Azambuja. Sem boas notícias na frente económica, com o sector exportador a sofrer, Manuel Pinho confrontava-se ainda com o congelamento de alguns dos investimentos estrangeiros captadados anos antes, como o projecto da Repsol em Sines ou a central eléctrica na Figueira da Foz. O ministro que entrou no governo como independente - era administrador do Banco Espírito Santo - sai agora, a três meses das eleições.


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