Há revoluções que são tão bem sucedidas que quase instantaneamente se convertem em ortodoxia. Foi o que aconteceu com a revolução keynesiana nos anos 30. Mas a contra-revolução não se fez esperar. E fez-se em nome do rigor (científico) e da liberdade. Isto é, combateu o que considerava ser falso e subtractivo das liberdades. Precisou de uma base, e encontrou-a em Chicago. Precisou de um campeão à moda dos combates medievais, e encontrou-o em Milton Friedman.
A contra-revolução "monetarista" pôs a moeda numa posição de predominância entre os elementos da realidade económica. Friedman apropriou-se da teoria quantitativa da moeda de Irving Fisher, aperfeiçoou-a e utilizou-a como formidável peça de artilharia contra a fortaleza keynesiana. Mas se a revolução keynesiana devia o sucesso à tragédia da Grande Depressão, também competia aos seus adversários ganhar o duelo nesse mesmo terreno. Foi então que Friedman mudou para sempre a interpretação histórica dessa catastrófica crise.
Friedman propôs que as causas económicas da crise dos anos 30 não residiram no recuo autónomo da procura agregada e muito menos no desaparecimento súbito das oportunidades de investimento. Em vez disso, Friedman apontou para a moeda. A Grande Depressão começara, na realidade, com uma "grande contracção", isto é, com uma diminuição drástica e sem precedentes do crescimento da moeda e até da própria base monetária. E a que se deveu tamanho movimento? Para Friedman, cabia às autoridades monetárias americanas a responsabilidade por este tremendo fracasso. A Reserva Federal americana traíra a sua função primordial de garantir a liquidez no sistema bancário e de, em termos mais gerais, satisfazer a procura de moeda.
Tradicionalmente desvalorizada em comparação com os elementos ditos "reais" da economia, a moeda comprovava ser suficientemente poderosa para arrastar tudo consigo para o buraco negro da dissipação. Em linguagem económica, o estudo de Friedman demonstrava que a moeda era muito mais do que um "véu" neutro e transparente da economia; produzia efeitos "reais" que não podiam ser ignorados. A explicitação da relação entre a parte "nominal" da economia e a parte "real" fornecia a equação que estava lamentavelmente ausente do sistema keynesiano.
Por outro lado, esta explicação do grande revés económico dos anos 30 também trazia consequências políticas importantes. É que, contrariamente às queixas da narrativa keynesiana, já não era permitido acusar o capitalismo de padecer de uma doença debilitante.
A teoria quantitativa da moeda tem um corolário muito simples: "A inflação é sempre e por toda a parte um fenómeno monetário." Contudo, a teoria quantitativa da moeda não indicava apenas uma relação entre a quantidade de moeda e o nível geral dos preços. Friedman recomendou que se analisasse com mais atenção a relação entre as variações na quantidade de dinheiro e a trajectória dos ciclos económicos. Não que Keynes tivesse ignorado a teoria quantitativa da moeda. Mas, com razões próprias, desvalorizou-a. Reservou para a política monetária um papel secundário: manter as taxas de juro baixas, com o duplo intuito de incentivar o investimento e reduzir os défices do Estado. Era na política de despesas públicas que tudo se jogava. De resto, nos desígnios de Keynes, a inflação não tinha uma origem monetária; decorria das alterações nas estruturas de custos da economia "real", em particular no custo do trabalho.
Friedman adoptou uma perspectiva bastante diferente. Na sua opinião, as políticas de aumento da despesa e investimento públicos não podiam gerar efeitos expansionistas. Todas essas esperanças que fundavam conceitos como o de "multiplicador" não passavam de ilusões assentes numa desajeitada compreensão dos processos económicos. Se o Estado incorria num défice para financiar investimentos era preciso saber qual a fonte do financiamento. Ou o Estado imprimia mais moeda, e nesse caso era de política monetária que se tratava. Ou contraía dívida, e nesse caso o dinheiro que era introduzido na economia, através do aumento da despesa, era contrabalançado pelo dinheiro que lhe era retirado, através dos empréstimos concedidos ao Estado, e cujo capital já não estaria disponível para financiar despesa privada.
Para averiguar o resultado final destas operações, seria necessário ter em conta as diferenças de comportamento económico e de eficiência dos agentes envolvidos. O que valia por dizer que não existia um efeito de "primeira ordem" de cariz expansionista.
Mas, então, como é que a política monetária exerce efeitos reais sobre a economia? Em primeiro lugar, é preciso perceber que existe um desfasamento temporal entre as variações na quantidade de moeda e o seu efeito no rendimento nominal. Em segundo lugar, tem de se acrescentar que os efeitos "reais" só se verificam se o aumento da moeda não for antecipado pelos agentes. Isto é, só num contexto em que a maioria não conhece, nem prevê, outra coisa senão a relativa estabilidade dos preços é que o aumento da moeda leva ao aumento do produto no curto prazo, e só no curto prazo. Tudo depende da contradição das expectativas dos agentes.
Todavia, para lá do curto prazo as consequências destas manipulações traduzem-se exclusivamente em inflação, e, pior, no agravamento das perturbações na economia. Assim, o que tinha por finalidade estabilizar a economia acabava por desestabilizá-la ainda mais. Tornava-se muito duvidoso que as autoridades monetárias soubessem com exactidão em que momento a intervenção era necessária. Juntando a essa dificuldade o problema dos desfasamentos temporais, impunha-se a conclusão de que as intervenções exacerbariam as flutuações económicas.
Um raciocínio semelhante aplicava-se aos grandes programas de investimento público. Alimentavam a suspeita a improvável capacidade estatal de prever as recessões com assinalável antecedência e a reticência em desistir das obras públicas mesmo quando a economia tivesse menos contrariedades. Pois se se aceitasse que o investimento público curara a recessão, não se iria agora que o crescimento estava em marcha esvaziá-lo com um recuo da despesa. Os programas de grandes obras públicas anunciariam sempre um crescimento do Estado na economia - nos maus e nos bons momentos.
Do ponto de vista puramente económico, a menos que a economia estivesse numa situação de "armadilha de liquidez" - a que Friedman não concedia um estatuto superior ao de "curiosidade teórica" -, o financiamento das obras públicas pressionaria as taxas de juro no sentido ascendente (com ou sem uma política monetária coadjuvante). Isso agravaria o endividamento do Estado e as contas externas, e desencorajaria o investimento privado, encolhendo o "multiplicador" keynesiano. Se, além disso, se assumisse que as expectativas dos agentes eram "racionais", então a taxa "natural" de desemprego não se comoveria nem com políticas monetárias, nem com políticas de investimento público.
Mas por razões políticas e económicas rapidamente a fechou. Keynes, ao avançar uma teoria concentrada em grandes variáveis agregadas, convertera a economia de um país num objecto dócil e perfeitamente manipulável. Embora a abordagem macroeconómica de Friedman pareça conduzir à mesma conclusão, a consideração dos tais desfasamentos temporais e a atenção às subtilezas e equilíbrios que constituem aquilo a que chamamos "mercado" interditou a tentação.
Friedman era um apologista do mercado. Não só da "economia" de mercado, mas do mercado como lugar de troca e de escolha nas mais variadas esferas da actividade humana. Não se tratava apenas de reunir os tradicionais argumentos da superior eficiência das decisões descentralizadas em comparação com as soluções de planeamento. Friedman recuperou dos seus colegas da Escola Austríaca a associação do mercado, e dos preços aí determinados, a um gigantesco sistema de informação. Recuperou ainda a estreita intimidade entre a liberdade política e a liberdade económica. Pegou no capitalismo e democratizou- -o. Mais: apresentou a democratização do capitalismo como um desenvolvimento lógico e histórico que lhe era intrínseco. Daí que o discurso inspirado em Friedman, na tradição longínqua do "populismo" americano, pudesse atrair tanta gente que estava muito longe das cúpulas privilegiadas da sociedade.
O mercado era o contrário do paternalismo, da concentração do poder, do privilégio: era a escolha, era a chamada à responsabilidade de cada um, era a mobilidade social. Era o respeito instantâneo pelos diversos modos de viver e pensar, a rejeição prática das prelecções de uma elite bem-pensante sobre o que as "massas" devem querer ou pensar.
No seu debate com o socialista Galbraith, Friedman virou a mesa do jogo: a voz da esquerda colocava-se a si mesma num pedestal altivo, ao passo que a "voz do capital" se confundia com o burburinho da rua por onde os homens comuns passam todos os dias. Pelo menos até final dos anos 80, esta aparente inversão foi uma penosa fonte de confusão para a esquerda perplexa. Hoje as coisas mudaram. Ou talvez não.
Professor convidado do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica




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