Centenas de portugueses enganados em esquema financeiro
por Inês Cardoso, Publicado em 02 de Julho de 2009
Firma fictícia usava o nome Forex, mercado de transacção de divisas, para enganar clientes
Um verbo sedutor: ganhe. Colado a números fabulosos e a uma marca credível - Forex, o mercado de divisas. Uma empresa com morada fictícia na Suíça prometia juros de 36% ao mês e comissões por cada investidor angariado. Dez mil euros poderiam converter-se em 640 mil no espaço de um ano. Em poucos meses, a empresa que operava através da internet desapareceu e estima-se que tenham sido enganados mais de 200 portugueses, que investiram montantes superiores a um milhão de euros. O nome era credível, a empresa não: o Forex existe há décadas e há vários bancos a operarem neste mercado.
O Departamento Central de Investigação e Acção Penal (DCIAP) e a Polícia Judiciária estão a investigar o caso, mas entretanto as queixas continuam a surgir. Não se conhece ainda a real dimensão da enorme burla. "Os pormenores do negócio passavam sempre de amigo para amigo. E a gente ia na onda", resume em poucas palavras F. N., empresária lesada em 26 mil euros.
Nos últimos meses, houve pessoas que depositaram dinheiro, confiantes no milagre da multiplicação, que se foram encontrando através de fóruns e nas audições na PJ. José Miguel assegura que conhece 150 a 200 casos. Porém, salienta que muitas pessoas ainda não apresentaram queixa nas autoridades. "Algumas têm vergonha, outras ainda estão a estudar a melhor estratégia e a ouvir conselhos de advogados", justifica.
Morada em Genebra A Forex LLC apresentava-se com uma morada na Suíça e uma "central de suporte exclusiva para Portugal". Mensagens espalhadas por fóruns de investimentos faziam a primeira divulgação. Os interessados eram convidados a participar em sessões de esclarecimento online. Faziam depósitos em contas bancárias indicadas por telefone ou email e observavam os rendimentos crescentes no backoffice.
O Forex (Foreign Exchange) está associado ao câmbio de divisas e as empresas fictícias que usam o nome Forex para emprestar credibilidade a esquemas fraudulentos são, segundo um advogado especializado em mercados de capitais, "cíclicos a nível internacional". São, em primeiro lugar, um caso de polícia. E num segundo momento, "um problema de supervisão". É mais uma dor de cabeça para os reguladores: empresas fictícias que prometem retorno garantido mas operam apenas na internet.
O Banco de Portugal e a Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM) têm algumas linhas de responsabilidade cruzadas, dependendo dos produtos comercializados. O Banco de Portugal surge na primeira linha, mas a CMVM supervisiona empresas que transaccionam instrumentos financeiros. Fontes da CMVM e do Banco de Portugal afirmaram não ter informação disponível sobre este caso em concreto.
Segundo fonte da PJ, a empresa é fictícia e "a informação guardada pelos clientes é muito incipiente". São essencialmente emails trocados com o alegado representante da empresa em Portugal e registos de contas bancárias em instituições como o Big e o BPI.
As vítimas admitem que faziam depósitos "cegos" em contas que lhes eram indicadas e que poucas perguntas fizeram sobre a actividade da empresa. As sessões de esclarecimento eram feitas online e um dos alegados responsáveis pelas transacções, Júlio César da Silva, não terá sido visto por ninguém. "Falávamos através do Messenger", conta José Luís. "Hoje em dia tenho pesadelos. Como pude acreditar nisto?"
Casos no Brasil Custa a acreditar, mas José Luís não está sozinho. Os valores perdidos são muito variáveis e oscilam entre meros 500 euros e 202 mil. A maioria dos depósitos foi feita entre Setembro e Dezembro do ano passado. Pouco depois começaram a chegar denúncias junto da PJ e dos serviços do Ministério Público. Há registo de queixas em Lisboa, Leiria, Coimbra, Faro, Seixal e Aveiro e casos conhecidos no Brasil. O Departamento Central de Investigação e Acção Penal não esclarece se há ligações a órgãos de polícia internacionais nem dá pormenores sobre o montante estimado dos prejuízos. Confirma apenas que corre um inquérito sujeito a segredo de justiça. Para tentarem reaver o dinheiro, algumas pessoas lesadas deslocaram-se à Suíça. A morada dada para a empresa, em Genebra, não existe. O número de telefone que contactavam na altura dos investimentos (e que dizem que fazia atendimento em português do Brasil) continua activo. O i fez a tentativa de contacto e esbarrou numa mensagem imperceptível, com pelo menos uma palavra em japonês: "Arigato." Com Alexandre Soares
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