Óbito
Morreu a mulher que revolucionou a dança
por Clara Silva e Vanda Marques, Publicado em 01 de Julho de 2009
Dentro de um mês Pina Bausch faria 69 anos. Há cinco dias soube que tinha cancro, há dois apresentou o seu último espectáculo
Nunca falou em reforma nem pensava em abrandar o ritmo. Com 68 anos, dizia que assim que terminava uma obra começava outra. "O que fiz está feito. A cada nova obra sinto-me uma principiante", afirmou Pina Bausch ao "Sydney Morning Herald".
A coreógrafa alemã que revolucionou a dança soube que tinha cancro quinta--feira, dia 25. No domingo seguinte continuava em cena com a sua companhia na ópera da cidade de Wuppertal. "Sou uma pessoa que nunca desiste", costumava dizer. Mas nada fazia antever que a sua persistência fosse derrubada tão rapidamente. Dois dias depois, a porta- -voz do Tanztheater, Ursula Popp, comunicava a morte inesperada de Pina Bausch.
Considerada uma das figuras mais marcantes da dança moderna e contemporânea, Pina Bausch rompeu com o ballet clássico e criou um estilo de teatro-dança. "Pina Bausch abriu um caminho à dança, tornando-a mais expressiva e com uma linguagem muito teatral. É um dos gigantes do século 20", diz Rui Horta, coreógrafo. Apesar da forte herança clássica, a alemã queria criar algo novo.
As suas produções eram de tal forma originais que criaram um novo paradigma e influenciaram o teatro europeu. Nunca antes alguém tinha juntado tanta excentricidade à dança: números de circo, música popular, clássica e free jazz, ginástica, cenários exuberantes e efeitos visuais nunca antes vistos. Quem pensaria encher um palco com uma montanha de seis metros de cravos? Ou dançar num palco inundado de água? O universo de Pina Bausch era isso e muito mais.
Cravos e cães "Muitas pessoas saíam dos espectáculos a chorar", conta Jorge Salavisa, director artístico do Teatro São Luiz. "O que se passava era muito envolvente." Salavisa recorda uma das suas peças preferidas, "Cravos", que Bausch trouxe a Lisboa em 2005: "Lembro-me que o palco estava coberto de cravos e que em cena estavam quatro cães da GNR." Os cães também representavam. "Tinham de ladrar e chorar conforme as ordens. Mas até eles se emocionavam com o espectáculo. Estavam inquietos, gemiam e o ladrar era diferente."
Nem sempre as salas estavam preparadas para tanta ousadia. Jorge Salavisa queria trazer a peça "Palermo Palermo" a Portugal, mas o palco do São Luiz não estava preparado em 2005. "Durante o espectáculo caía uma parede greco--romana, mas o nosso palco não ia aguentar." Agora que estava tudo a postos, Salavisa preparava-se para trazer a companhia de Bausch em 2011.
Mas se hoje em dia o público aclama as coreografias de Pina Bausch, nem sempre foi assim. Muitas vezes, o que acontecia no palco não correspondia ao que constava no programa e as peças eram de tal forma vanguardistas que eram encaradas como absurdas. O público vaiava os bailarinos e saía da sala, sem se esquecer de bater com a porta. Bausch chegou até a receber chamadas anónimas com ameaças do público chocado. "As obras são muito emocionais. Tento dormir e não consigo. Penso de mais", disse à revista "Culture Kiosque". Talvez por isso saísse à noite para descomprimir, como conta Jorge Salavisa. "Pina era uma mulher muito boémia. Quando estava em Portugal íamos para os fados até às tantas. Dormia muito pouco, mas no dia seguintes estava fresquíssima."
Reflexão e modernidade Tal como Bertold Brecht, Bausch queria que os espectadores reflectissem com as suas peças. As coreografias que fazia eram psicológicas e rompiam com o passado. Não havia hierarquia entre solistas e corpo de dança e até a relação entre homem e mulher era diferente. No ballet clássico, o homem, no papel de príncipe, por exemplo, levanta a princesa sem grande dificuldade. Mas nas peças de Pina os encontros entre homens e mulheres chegam a ser cómicos, por vezes trágicos. Outra diferença é que as coreografias eram baseadas nas experiências de vida dos bailarinos e muitas vezes feitas em conjunto. Talvez por isso Pina descrevesse a sua obra como uma linguagem para descrever a vida. "Não estou interessada em como as pessoas se movem, mas no que as move", afirmou.
Dizia-se que os seus olhos azuis profundos e ar frágil faziam com que todos se apaixonassem por ela. Bailarinos incluídos. "Trabalhar para a Pina? Isso é como entrar num culto", disse Sylvie Guillem, uma das suas bailarinas. Rui Horta destaca essa interactividade com os bailarinos e a noção de individualidade presente nas coreografias. "O legado de Pina Bausch é uma profunda crença na noção do indivíduo, nas suas diferenças e naquilo que os une."
Infância A filha de August e Anita Bausch, donos de um modesto café e de um pequeno hotel na cidade de Solingen, nunca pensou chegar tão longe. Tal como as outras meninas da cidade, Pina Bausch inscreveu-se no ballet, mas foi aos 14 anos que se tornou claro que era esse o caminho que queria seguir. Começou a estudar Dança na Escola de Folkwang, em Essen, onde conheceu o coreógrafo Kurt Jooss, que considerou um segundo pai. Depois de terminar os estudos partiu para Nova Iorque, onde estudou na Juilliard School of Music, e começou a trabalhar. Integrou o New American Ballet e mais tarde o Metropolitan Opera Ballet. É quando regressa à Alemanha que cria a sua primeira coreografia, "Fragment", na companhia Folkwang, de Kurt Jooss. O talento de Pina Bausch é cada vez mais evidente e em 1969 assume o cargo de directora artística da Folkwang, em conjunto com o de bailarina e de coreógrafa. Quatro anos depois torna-se directora da companhia Tanztheater Wuppertal, onde ainda hoje trabalhava e com a qual mudou a dança. "Acho que a companhia não vai continuar. A presença dela era muito forte", diz Jorge Salavisa.
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