Dois dias de chuva bastaram para aumentar casos de gripe no país

por Rute Araújo, Publicado em 01 de Julho de 2009   
Número de casos dispara. Em Portugal já são 18, cinco confirmados nas últimas 24 horas
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O frio e a chuva são ideais para o vírus da gripe se propagar
O passeio de barco com a namorada estava planeado para quando chegasse de Palma de Maiorca (Espanha). A chuva é que não. Quando entrou em casa vinha ensopado e, no dia seguinte, o jovem de 30 anos acordou com gripe. "A gripe gosta de tempo húmido. Se tivesse estado um dia de sol radioso, provavelmente dava três tossidelas e nem percebia que tinha apanhado H1N1 em Espanha", diz o infecciologista Jaime Nina. Dois dias de chuva - o tempo certo para o vírus se desenvolver - foram suficientes para aumentar o número de casos positivos de gripe A em Portugal. Cinco num só dia, confirmados ontem pelo Ministério da Saúde.

Os portugueses infectados com H1N1 são já 18 numa estatística que, à semelhança do resto do mundo, engrossou nos últimos dias. "É ainda um valor reduzido. Sabíamos que os casos iam aumentar e vai haver muito mais a partir de agora", refere o infecciologista Fernando Maltez. Multiplicam-se as viagens de férias, aumentam os países afectados e cresce a probabilidade de haver mais portugueses com gripe A. Até agora, todos importados, todos pouco severos.

Para o médico, esta evolução não é sinal de uma mudança na estirpe, que a tenha tornado de mais rápida propagação. "O vírus continua a manter as mesmas características que tinha em Abril." "Se a magnitude do vírus é maior, ou seja, se há mais regiões do globo afectadas, o risco de nos chegarem casos cresce. Estávamos à espera disso", refere o director-geral da Saúde, Francisco George, que estará nos próximos dias no México a recolher informação sobre a pandemia.

O Chile e a Argentina, onde os casos dispararam nos últimos dias, são agora os países a seguir para melhor perceber as características do H1N1. O que a Europa tem a seu favor, o calor. A desvantagem da América do Sul, o frio e humidade - condições certas para que o vírus se propague. É ali que será encontrada a chave para melhor desvendar o padrão dos infectados. "Até agora, o conhecimento que temos está muito influenciado pelos EUA e Europa, onde dominam os turistas", explica Jaime Nina. "Ainda não sabemos se o facto de a gripe A afectar mais os jovens é uma característica do vírus ou o artifício estatístico explicado por serem estes os que mais viajam", exemplifica. Se este padrão se mantiver nos dois países sul-americanos, é a confirmação de que o H1N1 é menos contagioso na população mais velha. "Se as pessoas acima dos 40 anos forem mesmo menos afectadas, há uma explicação possível. Há 40 anos circulou um vírus semelhante que as tornou parcialmente imunizadas ao H1N1".

Um estudo do Centro Europeu de Controlo de Doenças mostra que é nas faixas dos dez aos 29 anos que se distribui a maioria dos mais de 8 mil casos registados na Europa. No caso das mortes - ontem Espanha registou a primeira -, os dados mostram uma característica comum: todos tinham outras doenças que os tornavam mais frágeis. "Até agora, a gripe A é igual às outras gripes sazonais. Afecta mais os doentes com patologias associadas", refere Jaime Nina. O especialista salienta que o Chile e Argentina não são os destinos preferidos dos portugueses para passar férias. Quando a gripe chegar ao vizinho Brasil, o número de casos em Portugal vai disparar.

Primeira morte em Espanha Em Espanha, os casos de contágio continuam a aumentar. Mas ontem a ministra da Saúde, Ana Jorge, reafirmou que não há necessidade de medidas adicionais. "Não há nenhuma medida excepcional. Até agora, dizíamos que teríamos de ter atenção em relação às pessoas que viajavam de zonas afectadas. Neste momento, temos de considerar que todos os países são zonas afectadas", pelo que "não há preocupação acrescida em relação a Espanha." Depois do primeiro caso de um doente com resistência ao Tamiflu, na Dinamarca (entretanto recuperado), a governante voltou a apelar aos portugueses para não se automedicarem com antivirais "pois isso pode desencadear resistências e, depois, não temos capacidade para tratar os que precisam". Os quatro novos casos confirmados estão internados no Curry Cabral, em Lisboa.


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