Exclusivo i/The New York Times
Quanto pagaria por uma noite de sono reparador?
por Lesley Alderman, Publicado em 30 de Junho de 2009
A privação de sono é um problema bem real para milhões de pessoas. Mas pode tratar-se com disciplina e alguns truques
Se os vendedores de sono levarem a sua avante, terá de pagar uma quantia considerável por uma boa noite. O sono é uma indústria de 23,9 mil milhões de dólares (17 mil milhões de euros), se contarmos com componentes tão diversas como colchões, máquinas produtoras de ruído branco e soporíferos. Segundo a Marketdata Enterprises, empresa de estudos de mercado de Tampa (Florida), duplicou os lucros na última década.
Prevê-se que só o mercado dos remédios contra a insónia cresça 78%, atingindo quase 3,9 mil milhões de dólares em 2012. As farmacêuticas apressam-se a lançar no mercado novos remédios para competirem com marcas bem conhecidas nos Estados Unidos, como a Lunesta, a Sonata e a Ambien CR. Há mesmo um novo evento, o Big Sleep Show, organizado pela National Sleep Foundation, para a promoção de produtos indutores de sono e de vários serviços destinados ao público fatigado. Realiza-se várias vezes por ano e o próximo está agendado para Agosto, em Dallas .
O sono, ou a falta dele, é um grave problema para milhões. A National Sleep Foundation, que recebe apoios financeiros de empresas farmacêuticas, calcula que, nos EUA, 20% das pessoas dorme menos de seis horas por noite (contra 13% há oito anos). A percentagem de felizardos que dormem oito ou mais horas desceu para 28% (38% há oito anos).
A privação crónica de sono produz mais do que simples cansaço. Pode ser causa de depressões, tensão alta e fraca produtividade, no trabalho e fora dele. Se o problema for insónia pura - e não apneia ou outra sintomatologia médica - há soluções inteligentes e acessíveis. Eis os métodos mais económicos para conseguir o sono necessário, bem como o que deve evitar a todo o custo.
Receitas grátis Provavelmente já ouviu falar do que deve e não deve fazer para dormir, mas vale a pena recordar estas receitas.
Se tem passado noites em claro, não ingira cafeína a partir das duas da tarde e à noite evite beber mais de um copo de vinho ou de outra bebida alcoólica.Guarde as actividades causadoras de ansiedade, como discussões com os filhos ou uma análise da sua situação financeira, para as primeiras horas do dia. Deite-se meia hora antes do momento em que deseja apagar a luz e leia um livro calmante. Nada de televisão, telemóvel ou diversões electrónicas na hora anterior a deitar-se: essas actividades tendem a ser estimulantes e não calmantes. Faça exercício regularmente e reduza o nível geral de tensão na sua vida. (Grátis, sim. Fácil? Nem sempre.)
Para mais sugestões, visite o site (www.sleepeducation.com) da American Academy of Sleep Medicine. Não gaste dinheiro em valeriana ou em colchões sofisticados. Não está provado que ervas ou colchões especiais combatam a insónia crónica.
Quanto aos medicamentos vendidos sem receita médica que contêm anti-histamínicos indutores de sono funcionam bem por uma noite ou duas, e mais nada. Geralmente, não funcionam no longo prazo e têm efeitos secundários desagradáveis, como secura bucal e apatia, diz Alex Chediak, antigo presidente da American Academy of Sleep Medicine e professor de Medicina na Universidade de Miami.
Procure um especialista Acima de tudo, se não consegue dormir, consulte um médico. Se tem um caso ligeiro de insónia, vá ao médico de família; mas se não consegue dormir bem há meses e se sente cansado na maioria dos dias, o conselho de Chediak é que consulte um médico do sono certificado.
Nos EUA, os médicos com essa certificação - cerca de 3500 - passaram um rigoroso exame e têm profundos conhecimentos de medicina do sono. O seu médico de família pode recomendar-lhe um especialista.
Um médico do sono começa por despistar qualquer patologia - como problemas de tiróide ou depressão, que exige tratamento ministrado por outro tipo de especialista. Se tiver insónia primária, uma doença por direito próprio, é provável que o seu médico comece a tratá-lo imediatamente.
Experimente um genérico O seu médico pode receitar-lhe um medicamento dito hipnótico, para o ajudar a dormir à noite. Não deixe de perguntar se existe um genérico. muito mais barato do que os medicamentos de marca. Se o seu principal problema for adormecer, um hipnótico é muito eficaz e actua rapidamente, diz Chediak. Mas se o seu problema for acordar cedo demais, ele poderá recomendar uma droga de maior duração.
Se a insónia for crónica, ou seja, se durar há meses, o médico pode também recomendar terapia cognitivo-comportamental ou CBT (do inglês).
Esta terapia destina-se a ajudar os pacientes a mudarem comportamentos e pensamentos impeditivos de uma boa noite de sono. Os seus defensores dizem ser notavelmente eficaz e, depois de aprendida, é muito possível nunca mais ter de gastar um centavo em remédios.
Controle a mente A parte cognitiva do processo ensina a modificar pensamentos causadores de ansiedade que interferem na capacidade de dormir, diz Gregg Jacobs, doutorado em Medicina Comportamental e especialista em insónias do Sleep Disorders Center do UMass Memorial Medical Center de Worcester (Massachusetts).
Há quem fique acordado, preocupado, a pensar: "Tenho de dormir oito horas ou amanhã estou um caco." A maioria das pessoas, no entanto, passa muito bem com sete horas de sono, diz.
A parte comportamental incide sobre as acções que prejudicam a capacidade de dormir, como passar tempo demais na cama ou não fazer qualquer exercício durante o dia.
"A CBT deve ser a terapia de primeira linha nos casos de insónia crónica", afirma John Winkelman, director clínico do Sleep Health Center de Brigham e do Women's Hospital de Boston, e que tem agido como consultor de vários laboratórios farmacêuticos. "É fabulosa!"
São geralmente necessárias quatro ou cinco sessões, num período de seis semanas, para se aprender a terapia e colher os benefícios. Um estudo publicado na edição de 20 de Maio do "The Journal of the American Medical Association" analisou a eficácia da terapia comportamental isoladamente e em conjugação com a administração de um hipnótico.
O estudo concluiu que os pacientes que seguiram a terapia e tomaram o hipnótico obtiveram melhores resultados durante as primeiras seis semanas. Mas no limiar dos seis meses, aqueles que tinham recorrido apenas à terapia comportamental registaram melhores progressos.
"No curto prazo, a medicação ajuda", diz o principal autor do estudo, Charles Morin, professor de Psicologia da Universidade Laval, no Québec. "Mas, no longo prazo, as pessoas precisam de alterar os hábitos de sono - que é o que a CBT as ajuda a fazer."
O seu médico do sono poderá acompanhá-lo na terapia ou indicar-lhe um psicólogo formado em medicina comportamental do sono. Se a sua seguradora cobrir as visitas - nem todas o fazem - só terá de suportar uma comparticipação. Caso contrário, poderá ter de pagar 100 a 150 dólares por sessão.
Pode também aprender terapia cognitivo-comportamental online, em www.cbtforinsomnia.com, mediante uma inscrição de 25 dólares. O programa foi concebido por Jacobs, do Sleep Disorders Center.
Embora a terapia presencial seja normalmente preferível, um estudo publicado na actual edição da revista "Sleep" concluiu que 81% dos 118 pacientes que recorreram à terapia cognitivo--comportamental online registaram uma melhoria do sono, e 35% deles disseram que o seu sono tinha melhorado substancialmente.
Acima de tudo, não desista Fale com o seu médico antes de experimentar um programa de terapia cognitivo-comportamental online. Pode não servir para pessoas com determinadas patologias, como por exemplo depressão, ansiedade ou bipolaridade.
Mas acima de tudo, "não há desperdício maior do que não fazer nada", garante John Winkelman. "O custo de viver com insónias pode ser muito superior ao custo de se tratar definitivamente", conclui.
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