PRIMEIRO PLANO

Tempo de manifestos

por João Rodrigues, Publicado em 29 de Junho de 2009   
Para combater uma crise económica como há muito se não via é necessário utilizar todos os instrumentos
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"Se juntarem dois economistas numa sala, terão sempre duas opiniões, a não ser que um desses economistas seja Keynes; nesse caso terão três opiniões". Vale a pena lembrar esta observação, atribuída a Winston Churchill, que, de forma talvez não intencional, valoriza Keynes. A economia é sempre plural e política. E a economia é demasiado importante para ser deixada apenas aos economistas. Em particular aos que estão habituados a fazer política de direita sem serem desafiados nos seus diagnósticos, prescrições e omissões.
Parece que a crise económica caiu do céu. Esta posição passiva impede a descoberta de soluções para dela sairmos e para reformarmos as estruturas que a geraram. A crise é o resultado das desigualdades, da abertura mal gerida dos mercados e da hegemonia de um sector financeiro com reduzido controlo do poder político. Hoje temos de reconhecer que o crédito é um bem público que tem de ser enquadrado por instituições geridas numa lógica de interesse público e capazes de apoiar o investimento produtivo.
Temos também de reconhecer que os mercados financeiros, na base da especulativa economia de casino criticada por Keynes, devem ser afastados de áreas fundamentais como a segurança social e não devem poder subordinar o sector produtivo às suas lógicas de curto prazo. São questões estruturais que convém não esquecer. Não se pode ignorar igualmente que os desequilíbrios comerciais, com a acumulação de défices e excedentes insustentáveis, só podem ser superados com uma reconfiguração política da globalização.
Entretanto, os encadeamentos perversos da crise não esperam.

 

O colapso da procura privada, interna e externa, e o desemprego de dois dígitos fazem com que só os Estados tenham instrumentos para descobrir uma saída.

 

A intervenção pública no sistema financeiro para desbloquear o crédito e os aumentos dos défices e da dívida pública são inevitáveis neste contexto. Representam, em parte, o esforço para minorar os impactos sociais da crise e para, através do investimento público, idealmente coordenado à escala europeia e global, superar a desconfiança que tolhe o sector privado e assim dinamizar a economia, aproveitando o balanço para mudar alguns dos seus iníquos padrões.
Não usar todos os instrumentos para combater uma crise como nunca vimos outra seria trair as gerações futuras, a quem temos a obrigação de legar uma economia ambiental e socialmente sustentável. Foi por isto que subscrevi o manifesto, lançado no sábado, por uma política económica centrada no emprego.

Economista e co-autor do blogue Ladrões de Bicicletas



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