Entrevista
"Voltarei mais cedo do que se pensa"
Publicado em 27 de Junho de 2009
Lobo Xavier antecipa o regresso à política activa no CDS. O país, considera, "está em risco"
Cultiva a subtileza e o humor, é inteligente, civilizado e, como o próprio diz, "compromissório". Explicando a propósito que à excepção de duas ou três coisas essenciais - "a fé, a família, a dignidade" - não vê "a vida a preto e branco".
Com uma cabeça bem arrumada, analisou com lucidez a cena nacional: as direitas e as boas perspectivas que agora se abriram para elas, o afinal "não imbatível José Sócrates" - "tão rapidamente desnorteado como se viu no inacreditável desfecho do caso PT/TVI" - e os motivos do fôlego eleitoral da extrema-esquerda. Quanto ao mais, e eis o que é uma notícia, António Lobo Xavier assume a falta da política. Não esquece que já lá teve uma vida, assistiu às eleições europeias como "um político", confessa que há-de estar disponível para uma intervenção mais activa. Mais cedo do que se pensa.
Seguiu as europeias como cidadão, espectador engagé ou político?
Como político. Nunca perdi a afectividade do CDS. Mesmo distante, considero- -me " da casa". Nunca fui maltratado por nenhuma direcção, pelo contrário. Depois, havia muitas coisas que estavam mal e eu desejava este sinal - embora não acreditasse nele. E assim, descrente, segui as eleições com atenção, como político.
Por que saiu da política activa?
Não é possível ter um certo nível numa profissão como a de advogado ou gestor e ao mesmo tempo ser um político credível. Pode disfarçar-se algum tempo - o que fiz com sacrifício da profissão - mas não foi possível manter as duas coisas.
Conflito de interesses? Falta de tempo?
Sempre tornei claro quais os meus interesses e ainda o faço como comentador. Não consigo falar das coisas sem revelar que tenho interesses e quais são. É possível estar na política apesar disso, é uma questão de tempo e de cabeça. Quando se tem uma certa idade, não se espera de nós 100% do nosso rendimento. A vida profissional é progressiva: a partir de certa altura e com o tipo de responsabilidades que tenho, tornou-se impossível coadunar as duas actividades. Já em 1996, quando saí do Parlamento, era difícil, e daí para cá a vida profissional tornou-se mais complexa e absorvente.
Há aí grande nostalgia face à política?
Há, não devia ser tão impossível. O Parlamento não devia ter regras que tornem tão incompatível a presença de pessoas com uma vida normal, médicos, engenheiros, advogados. Tratou-se de uma deriva populista iniciada por Fernando Nogueira e Manuel Monteiro a que, a partir do fim do cavaquismo, todos os partidos cederam. Devia ser possível não ser impossível que o melhor do país estivesse no Parlamento. Não me sinto o melhor do país, mas tenho experiência e conhecimentos que podiam ser úteis. Sentia-me bem no Parlamento a fazer o que sei: legislação fiscal, orçamental, etc.
Em resumo: a política está tão ancorada em si que um dia poderia voltar.
Acho que sim, por várias razões. As pessoas têm a ideia que Portugal está em risco. Acho que o país corre um risco muito grave...
Qual?
...o da sustentabilidade, do empobrecimento definitivo. Não é possível pregar esse risco e ao mesmo tempo não estar disponível para nada. Por isso tenho de encontrar disponibilidade à custa de alguma coisa, embora em minha casa digam que não posso fazer mais nada. É muito ingrato estar num partido onde sou respeitado como figura importante, tratado com carinho e respeito, e estar sempre indisponível. Há que resolver isso de alguma forma. Portanto, hei-de estar disponível. Voltarei mais cedo do que se pensa.
As pessoas apreciam as suas qualidades intelectuais, políticas e culturais, mas dizem que está dentro e fora, está sem estar. Está consciente disso?
Estou e é verdade. Num partido pequeno, em que há dificuldades e angústias, sente-se que eu poderia fazer alguma diferença e colaborar mais, é verdade. O que já não é verdade na profissão. Aí faço tudo a 110%. Mas na política acho até que os militantes do CDS o sentem, vejo que têm uma enorme simpatia e um enorme carinho e eu tenho de ser grato.
Tem notoriedade, abordam-no na rua?
Constantemente. Às vezes perguntam- -me se a notoriedade me prejudica, respondo que nem prejuízo, nem dissabores. Trouxe-me até vantagens.
Por exemplo?
A notoriedade dada pela televisão e por uma experiência política razoavelmente sucedida é positiva nalgumas profissões. Não tenho dúvidas que tendo eu falado de impostos, e as pessoas sabendo que eu sei de impostos pela via política, isso teve um bom efeito na minha advocacia fiscal. Não sou daqueles que dizem que a política foi uma tragédia ou um sacrifício de que ainda estão a recuperar; foi o contrário. Não fui para a política para as obter, mas não sou hipócrita ao ponto de dizer que uma experiência razoavelmente bem-sucedida não me trouxe vantagens profissionais.
E qual foi o motor que proporcionou a escolha da via política?
Filiei-me no CDS com 15 anos e vivi muito o 25 de Abril e o Verão quente de 75. Aspirava muito a ser autónomo, sair de casa, trabalhar. Sabia que queria ser advogado e professor de Direito. Além de sentir que o país estava ameaçado no seu futuro, senti um bocadinho egoisticamente que o meu futuro, em 74/75, estava em causa. Mas a minha presença na política foi em muito devida à devoção que tinha por Freitas do Amaral...
Ainda tem?
Tenho grande simpatia pessoal por ele, sou incapaz de dizer coisas agressivas contra ele, quaisquer que sejam as decisões que tome ou as palavras que diga. Mas depois lembro-me de me comover ao ouvir o Francisco Lucas Pires e da minha grande admiração por Adriano Moreira. Eram eles que me conduziam pela mão e, ao princípio, a liderança contava muito! Depois, na fase do Manuel Monteiro e do Paulo Portas, já fazia parte dos que conduziam. E sempre achei que um partido de direita democrática faz falta à democracia portuguesa. Nunca achei que fosse fácil fazer coisas novas em Portugal, nunca acreditei em novos partidos. Acredito na reforma dos defeitos dos partidos que existem. É muito difícil estar 34 anos num partido, conhecer as pessoas todas, passar pelas suas angústias, êxitos e fracassos e desligar--me disso. Nem vejo isso como possível...
Então começou por haver a referência dos líderes, Freitas, Lucas Pires...
Mais ainda que os líderes - a quem tinha alguma distância, havia muita gente entre mim e eles -, o político que mais cedo acreditou em mim foi o José Gama, presidente da Câmara de Mirandela e deputado ao Parlamento Europeu, que morreu muito cedo. Foi ele que cedo disse, contrariando toda a gente no CDS, que eu tinha de ser dirigente e candidato a deputado, rompendo todas as contrariedades - e havia imensos obstáculos. O CDS é um partido conservador, e um miudeco no princípio dos anos 80, com 22 anos, ser candidato... Não fui eleito mas comecei logo a substituir o José Luís Vilaça. E José Gama sempre me disse que tivesse cuidado com "as praças do meu tempo": os meus inimigos no CDS seriam os da minha idade. Foi um pouco verdade, mas não no caso de Paulo Portas.
Mantém a mesma relação com Portas?
Antes de ele entrar para o CDS já nos dávamos muito bem, participávamos no grupo de Ofir e num movimento liberal que ele inspirou com o António Pinto Leite, o Jorge Bleck... Sempre houve uma boa amizade, e sobretudo a partir do seu regresso ao CDS, em 1997, fizemos uma espécie de pacto de lealdade no trato - não de lealdade no sentido de fidelidade nas coisas políticas. E após estes anos nunca ele o desrespeitou. Fomos francos e leais, nunca fizemos intrigas um contra o outro, nem pessoais, nem políticas. O que é muito raro na política. Às vezes posso não gostar de certas coisas...
De quê? Sócrates disse que a moção de censura foi um dos seus "expedientes e truques mediáticos". Tem razão?
É evidente que o partido que mais rapidamente se aproveitasse da censura ligada ao voto das europeias teria um trunfo. E nisso ele foi pragmático.
Se liderasse o CDS proporia a moção de censura a três meses das eleições
Foi uma decisão típica dele, um dos lados mais positivos do Paulo Portas...
Estou a perguntar-lhe a si e não a ele...
Não me lembraria. Ele muitas vezes pede--me conselho e devo dizer que, se algum tem de se queixar do outro, é o Paulo, por eu não estar sempre disponível para falar. Mas, se me pedisse conselho, era capaz numa primeira impressão de dizer que não. Porque sou conservador. Mas hoje seria a favor: foi pragmático e oportuno. Porque não haveria de fazê-lo?
E o contrário: porquê fazê-lo?
Porque não nos podemos agarrar à ideia de que, havendo uma maioria, todas as iniciativas da oposição são formais. Assim, não valeria a pena haver Parlamento!
Estou a discutir o timing
Seguiu-se a uma brutal censura ao governo de Sócrates... Estes resultados não significam uma escolha de alternativas e portanto alguém tem de se pôr na pole position para as mostrar. Do ponto de vista do funcionamento de um Parlamento em que acredito, fez sentido.
As europeias mudaram as coisas ou abriram apenas novas pistas políticas?
Fizeram cair alguns mitos e isso é importante na política: o mito de que Sócrates era imbatível, o PSD estava morto e o CDS também. Esses mitos acabaram, as coisas mudaram, há uma esperança.
Uma esperança de quê?
É uma esperança colorida e com marca ideológica. Não sou amorfo nessa matéria. O lado direito da política em Portugal estava muito deprimido, os dois governos anteriores foram negativos em vários aspectos - apesar de individualmente terem pessoas boas -, e o PSD e o CDS estavam com dificuldade em libertar-se disso. O facto de terem crescido ao mesmo tempo é uma coisa nova, estávamos habituados aos vasos comunicantes - o que é profundamente negativo. Os militantes do CDS se calhar vão ficar chocados comigo, mas acho que vale muito pouco o CDS crescer à custa do PSD. Agora, pela primeira vez, PSD e CDS cresceram ao mesmo tempo. Mostrou que é possível mudar e que José Sócrates não é imbatível. Aquele homem, o seu verbo fácil, o tom de determinação, não chegam para as angústias dos portugueses.
O CDS cresceu, mas é o quinto partido com expressão parlamentar!
É muito mau que a esquerda comunista tenha mais de 20% em Portugal. E é uma coisa estranha...
...para ficar, ou funcionará o voto útil em Outubro?
Estas eleições permitem um voto táctico - mais conforme com a vontade ou até com um desabafo - e que depois as coisas se rearranjem nas legislativas. Mas é preciso ver que não há país nenhum da Europa com o qual nos possamos comparar! Como é que isto se explica? Em grande medida pelo envelhecimento da população e pela dependência do Estado, por via dos subsídios ou do funcionalismo público. E isso explica que o PCP seja tão forte, para além das suas características históricas. No BE há uma coreografia de modernidade, progresso, ausência de tabus, que conseguiu tapar o seu núcleo fundamental que é comunista, estatista e totalitário. A maior parte das pessoas que conheço que votam no BE são democratas e antitotalitárias. Mas o que o Louçã quer - ele e a Internacional a que pertence - é um regime comunista estatizado, totalitário, sem as liberdades burguesas e sem contemporaneidade alguma. Enquanto o disfarce não for visível, ou enquanto os partidos não forem capazes de dizer algo aos jovens, às pessoas do mundo actual que gostam da contemporaneidade, artistas, estudantes universitários, professores, essa soma pode aumentar.
Porque preferem "essa" esquerda?
É cultural. A direita não tem um discurso culturalmente atractivo.
Nunca teve ou não tem?
Já teve. Até, se quiser, a direita não democrática. Teve um discurso cultural fortíssimo antes do 25 de Abril e até teve algum depois. Mas agora é raro ver-se qualquer ligação do PSD ou do CDS ao mundo da cultura: têm pouco a dizer ao mundo das artes e ao da ciência.
A direita ou os partidos da direita?
Os partidos. Repare que as pessoas que dirigem grandes pilares da cultura em Portugal não são de esquerda nem de extrema-esquerda. E no entanto não são suspeitas de intolerância, de quererem marcar o seu gosto, agarrar-se às figuras culturais do passado. Os partidos é que nunca souberam ter um discurso para elas. E as juventudes partidárias, com poucas excepções, não estão preparadas para falar às pessoas normais. As minhas filhas acham que as juventudes partidárias são um sítio pouco frequentável onde raramente encontram alguém que lhes diga algo...
A "Quadratura do Círculo" é vista em sua casa?
Moderadamente. Existe um bocadinho a ideia de não venerar a figura paterna para além de certos limites. Mas o que verifico é que há muitas pessoas novas que vêem e se interessam pelo programa. Modéstia à parte, acho que eu e o Pacheco Pereira - que somos o lado à direita na Quadratura - podemos dizer alguma coisa aos jovens. Vamos frequentemente a liceus, universidades, escolas secundárias. A linguagem é uma coisa importante e quando os partidos não têm linguagem para falar a essas pessoas cria-se um muro. Há muita coisa para mudar.
Face aos resultados de 7 de Junho, que recomendaria hoje ao CDS?
Algo que o CDS acabou por fazer: o partido tinha uma estratégia de fechar a porta a qualquer conversa sobre entendimentos pré-eleitorais e pós-eleitorais. E a direcção do CDS sentiu que tinha alguma responsabilidade em dizer-se disponível para soluções de governabilidade dentro do seu espaço, o que foi importante. Seria muito negativo que o CDS não se mostrasse disponível para se coligar com quem quer que seja.
Há a suspeita de que Paulo Portas não desdenharia ajudar o PS numa solução governativa!
O CDS e Paulo Portas em especial sabem que qualquer sinal de que estão alinhados com o PSD facilita a tendência para o voto útil. Eu percebo isso. Outra coisa é fechar-se a porta a soluções governativas no espaço da direita. Ora a realidade encarregou-se, e bem, de fazer com que o CDS rapidamente se adaptasse, consciente da sua responsabilidade. Mas não acho bem que se comece com um discurso triunfalista.
E há?
Existe esse risco, errado por duas razões: tacticamente é negativo e depois desliga os partidos do facto de ainda não terem feito praticamente nada, embora achando que foram escolhidos pelo eleitorado, quando o eleitorado se limitou a rejeitar o que estava. Os partidos à direita precisam de ser dignos da escolha. E o triunfalismo é negativo: evita que trabalhem na formação das listas, na preparação do programa, na afinação do discurso. Tal como as precipitações sobre coligações ou sobre discursos sobre elas. Está visto que os partidos valem mais - pelo menos neste momento - seguindo caminhos separados. São diferentes entre si: eu não sou exactamente igual ao Dr. Balsemão nem penso o mesmo, embora seja muito amigo dele. Talvez pense coisas muito parecidas com Paulo Rangel, mas se atender a outras figuras, já não penso. O CDS e o PSD têm uma composição diferente, embora pertençam ao mesmo espaço e devam tratá-lo com responsabilidade. Moderação, nada de triunfalismos e muito trabalho. Senão, não nos vão escolher.
Abrindo o horizonte e olhando para o espaço à direita do PS, que direitas e que fazer com elas?
Embora algo simplista a explicação dos resultados das eleições europeias na Europa esclarece alguma coisa: houve partidos ou coligações à direita que souberam ter uma linguagem, um programa e actos que eliminaram completamente as velhas barreiras entre direita e esquerda. Sarkozy e Angela Merkl não são pessoas que eu admire mas a verdade é que tiveram bons resultados porque conseguiram derrotar a ideia de que a direita é neoliberalismo, causadora da crise, anti-social, desprezadora dos humildes e promotora da exclusão. Ninguém os considerou culpados pela crise, a falta de regulação, a destruição das políticas sociais. Pelo contrário, muitos consideraram que num momento de crise, melhor seria confiar neles do que em aventuras...
Por esse raciocínio o eleitorado português devia confiar em Sócrates...
Do ponto de vista ideológico - tanto quanto Sócrates é ideológico - talvez ele seja alguém de centro-esquerda ou um centrista. Mas o PS não é. A única forma de domar o esquerdismo tendencial do PS foi com um poder indiscutível. É a questão da autoridade: com Soares foi claramente, com Guterres não foi tanto mas houve a autoridade dos votos e de uma vitória que tardava. Com Sócrates foi a autoridade da pessoa. Só que não é possível domar o PS eternamente. Veja este exemplo de crueldade: à excepção de Manuel Alegre, o PS esteve sempre em silêncio mas, mal apareceram os resultados, toda a gente expôs ideias sobre o que se devia fazer e como é que Sócrates devia mudar. Voltando à direita, ela tem dificuldades porque é difícil Manuela Ferreira Leite e Paulo Portas construírem uma teia de confiança nas camadas mais angustiadas da nossa população, dadas as circunstâncias políticas do passado. Manuela Ferreira Leite tem ligação a uma época de austeridade, embora seja óbvio que não comandou governo nenhum - e até se diz que esteve várias vezes para bater a porta. E Paulo Portas também tem.
Um dos piores problemas do país é a governabilidade?
Isso é outro mito... Não acho que o problema seja a ingovernabilidade. Foram as políticas e sobretudo o método de Sócrates que desagradou às pessoas: distância, arrogância, afrontamento. Contrariou, à vez, classes profissionais inteiras. Desse método, ninguém gosta. Não foi por falta de maioria absoluta que as coisas correram mal aos governos anteriores. Foi por falta de credibilidade e de método.
Mas condições como as de Sócrates nunca houve!
Há uma diferença, sim. Sou muito crítico em relação a Durão Barroso e a Santana Lopes, mas reconheço que Sócrates teve condições como ninguém. Só muito recentemente teve problemas com manifestações, antes houvera um clima social supertranquilo. E para haver manifestações de professores, foi preciso agredi-los até ao limite da tolerância. É um problema de método, as pessoas não podem ser tratadas desta forma. Podem ser governadas, mas precisam de exemplo e de líderes com credibilidade. Embora eu esteja a caricaturar, acho que não podemos ter aventureiros e depois desejar pessoas ordeiras e governáveis.
Quem é aqui o aventureiro?
Bem... eu pensei que Sócrates escaparia às coisas que lhe andaram ligadas durante todos estes anos e achei que o país tinha a ideia de que é possível condescender com alguns defeitos, desde que, em matéria de serviço público, haja virtudes razoáveis. Julguei isso, mas o país achou demais. Lamento dizê-lo porque o primeiro-ministro tem qualidades. Mas o trajecto, os casos e as coisas que lhe andam ligadas, justa ou injustamente, são coisas demais para suportarem uma credibilidade na governação. E isso destruiu-o. Acho por exemplo que uma das coisas que o condenou - embora porventura seja injusto envolvê-lo no caso Freeport - foi ter ele reagido como reagiu. Podia ter sido outro modo.
É vítima dele próprio?
É vítima de ter pensado que a sua imagem era indestrutível e que a sua capacidade de comunicação e o reflexo da vontade faziam tudo.
Atribui-lhe qualidades. Quais?
Não duvido que o primeiro-ministro gostaria reformar o país, de lhe mudar as coisas atávicas e negativas, sinto que é um homem com vontade - algo que muitas vezes falta aos líderes. São qualidades e não temos assim tantas pessoas com elas. Falta é mais qualquer coisa....
O que faltou? Substância? Ou foi a forma que se sobrepôs ao fundo?
Foi isso. Há muitas matérias às quais estou ligado por razões profissionais - e sobre as quais não posso falar à vontade - que mostram que de repente, a agenda política e a coreografia tomaram conta da substância. Pode disfarçar-se durante um tempo, mas sempre, não pode.
E agora, Lobo Xavier, o advogado.
Sou advogado, mas grande parte do meu tempo é ocupada como gestor da Sonae.com. E sou administrador não-executivo do BPI e da Mota-Engil. Portanto, não tenho praticamente tempo....
E como vai o seu vinho em Penafiel?
Vai bem. E uma das coisas boas do Portugal novo, é este retorno ao gosto de fazer vinhos com qualidade. A minha produção ainda é pequena, mas tenho a sorte de ter sempre vendido e de ter sido bastante feliz. Comecei a preparar as coisas há 10 anos. Mas verdadeiramente, como produto comercial, com marca e sucesso de vendas, foi talvez há três anos.
É algo que hoje o ocupa e o torna feliz?
Ocupa-me a cabeça e sobretudo há o gosto de ter os melhores produtos hortícolas, um vinho que me satisfaz, uma carne que considero a melhor do mundo! Com a minha vida, era impossível tratar das coisas sem a colaboração da minha mulher e sem o trabalho de um primo que é enólogo e dirige a parte agrícola e a vinícola. E sim, preciso destes escapes para me distrair. A natureza tem esse efeito.
Está lá todos os fins-de-semana?
Todos. Porque também sou presidente da Assembleia Municipal de Penafiel, e dirigente de algumas obras sociais locais...
...e é vice-presidente de Serralves...
Como a Maria João disse há pouco, não tenho os dois pés em lado nenhum! Do lado da contemporaneidade, estou em Serralves, do lado das tradições etnográficas sou dirigente banda de música de Lagares e dirigente da associação cultural dessa freguesia de Figueiras, que se dedica especialmente à igualdade de género e à protecção das vítimas de violência doméstica. E que o Presidente da República já visitou e elogiou e que é uma das coisas que mais acarinho.
Nota-se que está bem consigo próprio.
Tenho pouco tempo, talvez pense que dedico pouco tempo à família, que se tivesse menos coisas para fazer poderia fazer melhor outras, e tenho alguma angústia.
O seu afastamento dos centros de decisão política permitem-lhe hoje uma distância quase senatorial e cultivar de uma certa ironia. Esta consciente que transmite essa imagem?
Por feitio gosto de rir. Em minha casa era assim, cultivava-se muito o humor. E na minha actual casa, também. Às vezes os meus amigos dizem para não me rir ou brincar demais...mas é uma tendência minha! É por isso muito mais fácil para mim ser independente no comentário estando ligado ao CDS, do que para o Pacheco Pereira ser independente estando ligado ao PSD. E o meu partido nunca me perseguiu, nem nunca me tratou mal por causa das minhas heterodoxias
...ao contrário do PSD com Pacheco?
É evidente. Ser independente e dizer o que se pensa tem um preço em termos de tribo. Mas a minha não me hostiliza. Também sou mais moderado, tenho uma linguagem menos afiada, sou mais "compromissório". E quando não estou alinhado ninguém me cobra isso.
Está consciente que o acusam justamente de não se comprometer, as coisas para si nunca são pretas ou brancas...
É verdade que se diz isso e quem o diz, observa muito bem. Não sou fanático nem dogmático. Tenho os meus valores e as coisas em que acredito e não estou disposto a negociá-las. Mas em geral, nas coisas políticas, o compromisso - desde que se esteja de cabeça levantada e que não haja dúvidas sobre os valores - é um acto essencial. À excepção de muito poucos valores, não vejo nada a preto ou a branco na vida.
Que valores ?
A fé, a família, a dignidade...
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