Na economia do mar, o surf é dos negócios mais lucrativos

Publicado em 24 de Junho de 2009   
Ernâni Lopes dedica ao surf um capítulo especial no último estudo sobre a economia do mar
Ovar espera centenas de surfistas para a festa de amanhã à noite
A prancha era uma maneira de escapar ao alcoolismo do pai. "Quando comecei esquecia-me de tudo - ia só surfar."Aos 20 anos, Kelly Slater era mais um nas ondas da Florida. 17 anos depois, o currículo inclui nove títulos mundiais, 2 milhões de euros por ano, vários episódios da série Baywatch, concertos com Ben Harper e Pearl Jam, Pamela Anderson e Gisele Bündchen na lista de amores. Mas o melhor surfista de sempre seria um ilustre desconhecido se o surf não tivesse explodido nas últimas duas décadas. Ontem Peniche tornou-se a próxima paragem do campeonato mundial, mas a prova surpresa na praia de Supertubos (texto ao lado) é apenas a ponta do icebergue.

Só em Portugal, as lojas de venda de produtos relacionados com o surf, como a Quiksilver, Billabong e Rip Curl, movimentam entre 30 e 40 milhões de euros por ano. Só a Quicksilver, líder do mercado, facturou em 2008 cerca de 13 milhões de euros e a casa-mãe mais de mil milhões de euros, posicionando-se já como a quinta maior marca de desporto do mundo.

O crescimento do surf nos últimos cinco anos tem sido tão grande que o ex-ministro das Finanças Ernâni Lopes lhe dedica uma parte do seu estudo "Hypercluster da Economia do Mar". No relatório refere o surf como uma actividade náutica com "um elevado crescimento e uma maior procura por parte dos segmentos de elevado nível socio-económico cada vez mais associado a consumos complementares".

No Rip Curl Pro Search - a prova organizada em Outubro no Baleal -, o prize money é de 300 mil euros: 40 mil para o primeiro classificado, 24 mil para o segundo, 14 mil para o terceiro e o mesmo para o quarto. Mas não é aos prémios que os surfistas vão buscar a principal fatia do dinheiro que recebem - é aos patrocínios. Em Portugal, um atleta pode ganhar entre 15 e 30 mil euros por ano das marcas. Miguel Falcão, relações públicas da Quiksilver, explica o crescimento deste negócio nos últimos quatro anos. "O surf saiu da praia. Era muito localizado no surfista. Agora há pais de família e executivos que também usam a nossa roupa." Porém, para Miguel Falcão, não é possível continuar a crescer a este ritmo. "O consumo deve estar a atingir um pico, mas entre os praticantes há ainda margem de crescimento."

O que mudou? Na opinião de Rita Rocha, responsável da Billabong, tudo. "O desporto era um hobby, agora é profissional. Há mais escolas de surf. As marcas cresceram porque o surfware ficou na moda. Deixaram de se usar os calções e as T-shirts básicas. Agora também há streetware, roupa para a noite. Quem não pratica pode usar na mesma porque gosta do lifestyle e da imagem."

José Pais trabalhou durante um ano da direcção de arte dos catálogos da marca de roupa Element e diz que a transformação no estilo se deveu a uma tentativa de agradar ao grande público. "Há uns anos usavam-se coisas mais confortáveis. Agora vão aparecendo os fosforescentes e a cultura do logótipo - faz parte da cultura pop", afirma, explicando que o desporto e as marcas vivem uma relação de simbiose. "O surf não é nada sem a marca por trás, mas a marca também não poderia existir sem um rosto. Não haveria ícones, nem heróis."

Tiago Pires, o Saca, foi o primeiro português a participar no Campeonato do Mundo da ASP, a maior competição internacional de surf. Aos 29 anos não revela quanto ganha com os patrocínios - estima-se que cerca de 30 mil euros - mas vive do apoio das marcas: TMN, Billabong e Red Bull. "Dá para viver bem com o que se ganha, mas é ainda um desporto pequeno a nível monetário", afirma Saca, apesar de o crescimento não trazer só benesses: "Um surfista que queira fazer uma tour mundial completa tem de gastar 60 mil euros." Em 2009, o objectivo é só um: ser mais um entre os melhores.


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