Entrevista a Nassim Taleb
"O verdadeiro Madoff é o sistema financeiro"
por Luís Reis Ribeiro, Publicado em 24 de Junho de 2009
Taleb diz que crises haverá sempre, mas que se pode trabalhar para evitar grandes impactos no futuro. Destruir o sistema bancário, por exemplo
Corrosivo, stressado, agressivo no discurso, mas cordial. Nassim Teleb, filósofo natural do Líbano, cidadão dos Estados Unidos, já foi corretor de bolsa. Chegou ontem a Lisboa. Falou sobre os males da ordem política e económica mundial. Diz-se conservador, chama nomes aos professores de Harvard, tem pouca fé na humanidade. Diz que ninguém no poder o ouve. Está pessimista porque errar é humano. E cometer erros fatais, como os que levaram a esta crise, também.
Afirmou que não gosta de jornalistas por estarem focados no curto prazo. Mantém a opinião, agora que se tornou uma personagem mediática ?
Sim e acho que ainda é pior. O problema é que os jornalistas só dão uma explicação das coisas: "Isto acontece porque aquilo aconteceu." E os jornalistas julgam que compreendem melhor os argumentos. Quero uma sociedade que resista aos problemas dos especialistas, que resista à falta de conhecimento. O meu jogo é agressivo e não vou jogar o dos jornalistas. Em Davos [no Fórum Económico Mundial] um jornalista perguntou se se podia ter evitado certos eventos [que depois levaram à crise]. Fiquei irado. Quando se fala de uma avalanche não se diz que foi o grão de areia que a causou. Grãos de areia não provocam avalanches. É a estrutura das coisas que provoca os desastres. O sistema em que vivemos é frágil! E vai tornar-se ainda mais frágil. A minha aproximação a estes problemas é drasticamente diferente da dos economistas e analistas. Eles dizem que percebem o que se está a passar. Eu não. Mais: quantos jornalistas previram a crise? Não muitos.
Eu escrevi sobre isso em 2007.
Ok, é uma questão de magnitude. Os jornalistas que o fizeram são uma pequena minoria. Na América: zero. Zero! No "The Wall Street Journal", "The New York Times"? Passei tempos difíceis no "The New York Times". Um dos únicos sítios onde provavelmente viram a crise vir foi no "Financial Times". Portanto, porque hei-de ler hoje o NYT ou o WSJ? Se não conseguiram prever e ver o elefante que tínhamos na sala.
Parece algo optimista. Diz que se fizermos esforço para mudar a atitude perante o conhecimento das coisas, podemos evitar a próxima crise...
Não sou assim tão optimista quanto à natureza humana. A natureza humana é imperfeita. Não nos devemos fiar nela para deixar de fumar, por exemplo. Se for um fumador que quer deixar de fumar e eu ponho à sua frente um maço de cigarros, não será a natureza humana que o vai ajudar a parar. O seu cérebro quer parar de fumar e para tal você evita ter cigarros por perto. Da mesma maneira, não posso evitar que as pessoas ouçam especialistas, nem evitar que as pessoas oiçam ou leiam os jornalistas. Posso é ajudar as pessoas a construir uma sociedade em que os erros não saiam tão caros.
Mais regulação e consenso global nos assuntos financeiros não ajudariam a resolver alguns dos erros cometidos ?
Mais regulação, não. Os reguladores causaram os erros. As pessoas continuam a ouvir as agências de rating e, no entanto, foram elas que destruíram as poupanças dos americanos.
Os bancos centrais continuam a citar essas agências.
Sim, e os bancos centrais também cometeram erros. Bernanke [presidente da Reserva Federal dos Estados Unidos]... Como é que posso confiar nesta gente para me salvar? A regulação causou um aumento na aceitação de risco. Vou confiar nos reguladores para sair disto?
A administração Obama merece a sua confiança?
Confio nas políticas. Não confio nas pessoas que o rodeiam, são completamente incompetentes. Incompetentes! O senhor Summers [conselheiro económico] não viu a crise vir. Promoveu a aceitação de risco que levou à crise. Toda esta gente usa os modelos errados. Summers, que ensina Economia em Harvard, usa os modelos errados. E agora quer salvar-nos? O senhor Geithner [secretário de Estado do Tesouro] tem o mesmo problema. Esteve na Reserva Federal de Nova Iorque. E o que fez ele? Censurou Bob Shiller [professor de Economia], que alertou para as bolhas especulativas. Disse: "Bom, não vamos ser negativos" e removeu o Shiller da administração. E o Ben Bernanke. Eu tirava-lhes o poder. Eram estas as pessoas que comandavam o avião que depois se despenhou. E agora vamos dar-lhes um avião novo? Isto é incomportável. Temos apenas um problema: a fragilidade. Há várias soluções que devem ser tomadas.
Quais?
Trabalhar numa forma rápida para converter dívida em capital [acções]. Quando estamos endividados não podemos errar. Temos de ser mais conservadores. Queremos que as pessoas gastem mais, mas muitas não têm trabalho. Queremos que os bancos emprestem mais, mas limitamos a alavancagem e o aumento do risco. É incoerente. Na minha opinião, Geithner vai falhar. O plano vai falhar e gerar hiperinflação.
Mas pode-se concretizar a sua proposta com as pessoas que hoje temos?
Não. Elas fazem parte do sistema.
É preciso educar uma nova geração de pessoas para isso?
Exactamente. Temos de educar pessoas que compreendam este problema. Recebo centenas de emails por dia de pessoas que entendem o problema, só nos EUA. O establishment económico convencional defraudou-nos. Permitiu os derivados, a aceitação de risco. Que saiam do caminho e dêem lugar a outros. Aos europeus, por exemplo! Os europeus compreendem melhor o problema. No Reino Unido, em França também perceberam. No governo dos EUA, em Harvard, Princeton, o que rodeia Obama, está tudo podre até ao osso. Estas pessoas são o equivalente aos médicos na Idade Média: matavam as pessoas para elas pararem de sangrar. E vão matar mais.
Há investimentos seguros?
Não vou dizer como ganhar dinheiro, mas manter o poder de compra. Comprando algumas obrigações indexadas à inflação, obrigações públicas de muito curto prazo, diferentes moedas, algum ouro, um pouco mais de cobre. Muito ouro não porque os bancos centrais têm e quando vendem ou compram destabilizam o mercado. E, claro, alguns futuros de matérias-primas agrícolas. Mas o objectivo desta estratégia é, sobretudo, proteger-nos contra a deflação e contra os efeitos das políticas de combate à deflação que vão levar à hiperinflação.
Petróleo, não?
Algum petróleo, não muito.
É muito crítico em relação à Fed. Como vê o papel do BCE nos últimos anos?
Fizeram os mesmos erros. No entanto esses erros começaram nos EUA - e vocês repetiram. É um erro imitar. Por isso há bancos europeus em pior condição do que os americanos. O BCE estava mais preocupado com a inflação, talvez fosse mais cauteloso, mas devia ter percebido que os bancos suíços estavam a permitir que o risco entrasse no sistema. E deixou a Irlanda fazer o que queria.
A sua filosofia pede o regresso a formas mais básicas. Em todas as actividades?
Sim. Devemos afastar-nos de instrumentos complexos porque um sistema complexo não consegue lidar com instrumentos complexos. Portanto há que manter tudo simples: pouca dívida, nada de alavancagem, pode contrair-se empréstimos, mas para comprar uma casa - não para investir. Não se devia poder pedir empréstimos para investimentos. Não devíamos ter derivados complexos, nem gestão de risco. A matemática do controlo de risco é um disparate. Tenho-o dito há 12 anos: esse método está errado e vai rebentar. Há que eliminar da economia todas as equações porque estão erradas.
O desenvolvimento económico-social pode seguir este caminho de produção, consumo massificados, grandes bancos?
Pode ter-se consumo e produção massificados, mas não o actual sistema financeiro - tem de ser destruído. Não pode haver grandes bancos como o Citibank. O presidente do Citibank recebeu 120 milhões de dólares em prémios e quando o Citibank rebentou, simplesmente pediu desculpa. Estamos a pagar todas as perdas e mais os 120 milhões de dólares e ele não tem de devolver o bónus.
Bernard Madoff foi um bode expiatório?
O verdadeiro Madoff é o sistema financeiro, que debaixo da mesa, aumentou drasticamente a dívida e criou esta quantidade de derivados que não têm razão económica para existir senão fazer dinheiro aos banqueiros. Outro problema é academia Nobel: dar prémios a estes mensageiros destruiu o mundo.
A sua agressividade parece típica: quando a estrutura começa a mudar, vêm estes debates.
Sim, mas temos de mudar rapidamente.
Gostaria de aconselhar Obama?
Sim, mas vou esperar... De qualquer forma, não posso obrigar ninguém a ouvir-me. No ano passado tentei e ninguém quis saber. Então, comprei uma grande posição financeira e fiz um monte de dinheiro. Agora, não me ouvem e eu penso: ou me ouvem e fica tudo bem, ou vou tentar fazer mais dinheiro [nos mercados financeiros].
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