TVI: PT negoceia 30% da Media Capital
por Adriano Nobre e Filipe Cardoso, Publicado em 24 de Junho de 2009
CMVM obrigou a operadora a divulgar informações sobre o negócio avançado pelo i
A Portugal Telecom confirmou ontem na Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM) "a existência de contactos entre o grupo Prisa e a PT" para a compra de uma participação no capital accionista da Media Capital. O comunicado emitido ao início da noite não especifica a participação em causa e refere apenas que estão em cima da mesa "diversos cenários de investimento, incluindo a possível aquisição de uma participação" na Media Capital. O i sabe que o acordo contempla uma posição de 30% na dona da TVI, por valores abaixo dos 150 milhões de euros.
O comunicado surgiu na sequência da notícia ontem avançada pelo i, que considerava a PT perto de fechar o negócio com a Prisa. Esta informação levou a CMVM a pedir esclarecimentos à operadora de Zeinal Bava, que, por ser uma empresa cotada em bolsa, está obrigada a publicitar informação privilegiada. Após esse contacto da CMVM, a PT acatou a decisão de publicar um comunicado com detalhes da operação, por se ter considerado que a informação sobre o negócio é relevante para os investidores e demais accionistas da PT.
Comunicada a existência de negociações, fica a faltar apenas o anúncio do acordo final entre as duas partes, o que deverá acontecer nos próximos dias.
No comunicado, a PT adianta que até ontem "não foi celebrado qualquer acordo". Fora da corrida deverão ficar a Ongoing Investments e a Controlinveste, que também ponderaram avançar para o negócio.
Com este acordo, a PT e a Prisa fecham um processo de negociações que se arrastava há vários meses - e com vantagens para os dois lados: a Prisa consegue finalmente o "parceiro estratégico português" que lhe permite um encaixe financeiro significativo para equilibrar as suas contas; a PT volta a posicionar-se no mercado de media e ganha músculo na área de conteúdos audiovisuais, o que lhe abre novos horizontes na exploração da televisão digital terrestre.
O regresso do Estado aos media privados Além do interesse estratégico da PT em posicionar-se no mercado audiovisual, a entrada da operadora na Media Capital está também a ser interpretada por alguns agentes do mercado como uma forma de o governo - accionista da PT - pressionar a actual linha editorial da informação da TVI. Este cenário teria como passo seguinte, segundo fontes contactadas pelo i, a saída a médio prazo de José Eduardo Moniz da direcção-geral da estação de Queluz.
Confrontado com esta perspectiva, o ministro responsável pela pasta da comunicação social, Augusto Santos Silva, recusou "comentar fontes anónimas". Já o deputado socialista Arons de Carvalho admite recear que a entrada da PT no capital accionista da TVI possa ser interpretada nesse sentido. "Será um boato de campanha como outros que já aconteceram, cheios de falsidades e fantasmas em torno de José Sócrates", lamentou.
Defendendo que "a participação do accionista Estado na PT é minoritária" - e que, por isso, a presença do Estado na TVI será "uma minoria de uma minoria" -, Arons de Carvalho aponta exemplos recentes para demonstrar que o governo não tem qualquer intenção de controlar os órgãos de comunicação social privados. "Houve a mesma suspeita quando Pina Moura foi convidado para presidir à Media Capital e depois foi o que se viu, com um telejornal de sexta-feira que devia envergonhar quem o faz".
Entre os partidos da oposição reina por enquanto uma reserva absoluta nos comentários aos contornos deste negócio. E mais ainda no que se refere ao possível envolvimento do governo neste processo.
No PSD o deputado Agostinho Branquinho recusou "comentar situações que, até ao momento, não passam de um cenário". A posição é idêntica à do Bloco de Esquerda, que garantiu, segundo fonte oficial, estar apenas a "acompanhar com toda a atenção" os desenvolvimentos deste negócio. O deputado do CDS Pedro Mota Soares também recusou comentar o negócio antes de o ver confirmado. No entanto, adiantou que, "em tese, o CDS sempre se preocupou com a presença excessiva do governo na comunicação social".
No PCP, o deputado Bruno Dias defendeu que "a participação accionista do Estado na PT não é relevante", pelo que considerou prematuro antecipar quaisquer cenários sobre possíveis interferências do governo na linha editorial da TVI. "O histórico de actuação da PT mostra que a empresa se posiciona sempre numa perspectiva de lucro, portanto acredito que o que esteja aqui em causa seja o racional de negócio", explicou.
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