A poetisa polaca, que venceu o Nobel da Literatura em 1996, morreu “tranquilamente durante o sono” esta quarta-feira, aos 88 anos, na sua casa em Cracóvia
O talento madrugador valeu-lhe o título de Mozart da Poesia. Quatro anos de idade terão chegado a Szimbroska para começar a escrever. A obra chega aos nossos dias com mais de 250 poemas perguntadores, em busca do sentido das coisas, como declarou no seu discurso em Oslo, quando em 1996 lhe atribuíram o Prémio Nobel. Conhecida pela reserva e timidez, sabe-se menos da polaca que desde 1931 viveu em Cracóvia, nas margens do rio Vístula, que das suas colectâneas marcadas por pontos de interrogação filosóficos sobre a moral e precisões irónicas desenhados com um enorme zelo poético.
Nascida a 2 de Julho de 1923, Wislawa foi empregada dos caminhos de ferro durante a II Guerra Mundial, quando se estreou a fazer ilustrações para livros de texto em inglês. Por essa altura, começa a escrever histórias e ocasionalmente alguns poemas. Estudou língua e literatura polacas e cursou sociologia na universidade. Envolveu-se no meio literário e recebeu a inspiração de Czeslaw Milosz. Publicou pela primeira vez um poema, Szukam slowa (“À procura de uma palavra”)), em 1945, no diário Dziennik Polski. Ao longo dos anos continuaria a publicar em jornais. Abandonou o curso em 1948 e assumiu funções de secretária numa revista. A censura socialista impediu o lançamento do seu livro de estreia um ano depois.
Apesar do crivo, a Szymborska dos primeiros anos mantém-se fiel à ideologia marxista reinante no pós guerra em solo polaco. “Lenine” é um dos poemas incluídos na sua primeira colectânea, “Dlatego zyjemy (That is what we are living for)”. Mais tarde, seguiu o trajecto de outros intelectuais comunistas que se afastaram da linha do partido, mas não cortaria o vínculo com o Partidos dos Trabalhadores antes de 1966. Em 1975, associou-se ao protesto contra a decisão do Partido Comunista Polaco de inscrever na Constituição a cláusula de “aliança eterna” com a União Soviética. Em Maio de 2007 engrossou o coro de vozes que acusaram a a presidência e governo de direita conservadora dos gémeos Lech e Jaroslaw Kaczynski de interferência na autonomia dos tribunais e meios de comunicação social.
Entre 53 e 81 integrou a equipa da revista de crítica literária “Zycie Literackie” (Vida Literária), onde assinava uma coluna. Muitos dos ensaios deste período viriam a ser editados em livro. A última colecção de poemas publicada em vida pela autora, “Dwukropek,” mereceu a distinção de melhor livro de 2006 para os leitores do jornal nacional Gazeta Wyborcza. À poesia – como “Amor à primeira vista”, que levou Krzysztof Kieslowski a filmar “Vermelho” – e aos ensaios, juntam-se várias traduções para polaco.
“Morreu tranquilamente, durante o sono”, anunciou o seu assistente Michael Rusinek, sem que a voz da consciência deixe de militar, como em “Filhos da Época”: “Somos os filhos da época/ e a época é política (...) Poemas apolíticos também são políticos”.



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