Thiago Pethit
António Pedro SantosA “Avenida Paulista” sobe hoje ao palco do Teatro São Luiz. Falámos com Thiago Pethit, um dos protagonistas deste novo fôlego da pop brasileira. O cartaz inclui também Tulipa Ruiz, Mariana Aydar e Raf Vilar
O sotaque vem de São Paulo, carregado e descansado nas terminações. Thiago Pethit, 28 anos, decidiu que queria ser actor de teatro aos nove e cumpriu a sentença a que se condenou. A criança de gostares velhos, livros difíceis e filmes antigos redescobre-se aos 23, quando, por acidente, se vê numa festa de músicos e gente das cantigas onde não conhecia ninguém. Pethit rasga o universo brechtiano e entrega-se à música sem esperar. O cantor pertence à Avenida Paulista, geração de jovens brasileiros que rompe com o antigo e se renova. A vida deu voltas, mas Thiago Pethit não deixa de levar para o palco o teatro de cabaret, vaudeville de anos velhos, fazendo lembrar Tom Waits ou Leonard Cohen, com uma linguagem própria. Thiago Pethit sobe hoje ao palco do Teatro São Luiz ao lado de outros artistas da Avenida Paulista: Raf Vilar, Tulipa Ruiz e Mariana Aydar.
Foi por causa do teatro que descobriu a música tarde?
Os meus avós paternos são actores e directores de teatro. Actuaram no Sul do Brasil, Curitiba, onde viviam, durante anos. ao mesmo tempo que tinham profissões paralelas. A minha avó era professora e o meu avô tinha uma tipografia. Quando tinha nove anos eles foram para São Paulo, onde eu morava, para fazer uma peça. Era com muitos velhinhos, mas entrava uma criança. Fiz os testes e fui seleccionado. Fazia de filho de um médico que ficava preso num asilo durante um fim-de-semana. Aí descobri que queria fazer teatro. Estudei e trabalhei com teatro. Dos nove aos 24.
Porque é que atirou essa carreira para trás das costas?
Nessa época, em 2007, tinha muitos amigos que trabalhavam com música. A Tie, uma dessas amigas, tinha um show, com uma performance de cabaret francês. Por causa do teatro ela me convidou para dirigir esse espectáculo. Fiquei dirigindo três meses, depois virei personagem. Esse personagem começou a cantar e a compor com eles. A partir de uma altura já era eu mesmo compondo e brincando de cantar e não um personagem. E de repente tudo aquilo falou mais alto que os anos que tinha como actor de teatro.
Actualmente trabalha com alguns desses amigos?
A Tulipa [Ruiz] eu conheci de uma forma muito engraçada. Tenho amigos que são de Recife e moram em São Paulo e uma amiga dessa turma me disse uma noite para ir na festa na casa de uma menina chamada Tulipa. Eu fui sozinho e quando lá cheguei vi que não estava ninguém dessa turma de Recife. A Tulipa, que eu não conhecia, abriu a porta. Fui de penetra! Vocês falam penetra aqui, né? Fui sem ser convidado mas fiquei muito amigo dessas pessoas. A Tulipa, Tie e muitos outros com quem trabalho hoje.
Então foi essa festa que o levou a conhecer a Tie e, por sua vez, a dirigir o show onde descobriu que o que queria era música.
É, foi uma noite abençoada na minha vida. Saí do teatro nessa época e fui estudar Canto e Composição de Tango no Conservatório de Música de Buenos Aires, Argentina. Não sabia bem ao que ia. Era uma experiência, tanto que juntei a saída do teatro à saída do meu país. Queria descobrir coisas novas.
Passado um ano regressa ao Brasil e grava um EP. Buenos Aires foi a confirmação de que queria mesmo ser músico?
Quando regressei a São Paulo foi com essa certeza e comecei a tentar descobrir o que seria isso de trabalhar com música. Porque não sabia como seria cantar ou compor. Voltei querendo descobrir o que queria fazer. E embora tivesse todos esses amigos tinha passado um ano fora, né? Então, de algum jeito, me senti meio solitário para me agrupar com eles e tentar criar junto. Então decidi fazer um EP. A minha ideia era compor, cantar e arranjar essas músicas à minha maneira, do jeito que conseguisse. Não sabia nada sobre isso.
Mas no teatro já cantava.
É, mas como personagem. Eram vozes mais graves ou mais agudas [Thiago resgata as vozes correspondentes para exemplificar]. Eu não tinha minha voz, né? Por isso decidi gravar sete canções, mas a ideia não era ter uma carreira com essas músicas. Era ter material para mostrar para os meus amigos, para que depois surgissem os convites. Ou para cantar numa banda, ou para compor junto com alguém [sorrisos].
E foi isso que aconteceu?
Foi mais um acidente de percurso [risos]. Mostrei a música “Birdhouse” para uma das minhas amigas, que é assessora de imprensa. Na altura ela estava a trabalhar para um concerto de Will Oldham e precisavam de alguém para fazer a abertura desse show. Ela mostrou para o produtor e me chamaram. Aquilo era só um esboço, o que tinha feito para mostrar para os meus amigos virou um trabalho autoral relevante. Aí pensei: ou assumo isso ou me escondo. E hoje estou aqui. Depois arranjei as músicas, descobri o que gostava realmente e descobri a minha voz. Em 2010 lancei o primeiro disco, “Berlim, Texas”. Já era mais lapidado, mais consistente, com a minha linguagem.
A sua música é nua. Diferente da de Raf Vilar, por exemplo.
Peladinha mesmo. Gosto de música crua.
O que é a música popular paulistana (MPP)? A sua?
São Paulo é uma cidade que surgiu na era industrial, no começo do século xx, com estrangeiros, imigrantes. Isso faz, de alguma maneira, que seja a única no Brasil que trata de todas as culturas e não tem uma linguagem própria. Não tem raiz cultural, tem desapego cultural e social. Em São Paulo é fácil renovar a cultura porque você mata o que veio antes. E o que veio antes não é tradição porque nada é nosso de alguma maneira. Eu sinto que a MPP fala disso. Por exemplo, me dou bem com a Tulipa [Ruiz], gravamos juntos, tocamos juntos, temos uma super-relação afectiva, mas o nosso som é diferente, mesmo que em alguns lugares tenha intersecções. Isso é muito São Paulo, a pluralidade.
Mas também gosta do conceito indie-pop, certo?
Gosto porque é universal, não fala de um lugar, é do mundo. E é, principalmente, do conceito virtual. Faço música para a internet. A minha intenção é espalhar música pelo mundo, nesse sentido virtual. Claro que vender discos faz parte, mas não faço só para isso. Faço para a música estar livre, na internet, para todo o mundo ouvir.
E qual é o seu termo pessoal para a definir?
Pop, clássica, universal e contemporânea [risos]. Sinto que a música pop se tornou um grande apanhado de tudo o que veio até ao século xx. O elemento novo não é mais o novo género, é usar todos os géneros.
Tem inquietações musicais?
Várias. Felizmente e infelizmente, porque sempre acabo arcando com algumas consequências disso. Sempre tive gosto pela vanguarda e contracultura. Por aquilo que não é tradicional. Existem milhares de referências e as minhas são mais europeias que brasileiras [tango, valsa e as músicas de cabaret de Kurt Weill e Bertold Brecht]. Isso era uma novidade dentro daquele contexto. Essas são as inquietudes: sempre quero dar um passo à frente. Hoje me sinto dando passos à minha frente, parece que tenho de lutar contra mim mesmo. Quando o que faço hoje virar tradição, quero fazer outra coisa. Sou um paulista puro.
Deslumbrou-se com o mundo da música?
Fui uma criança muito séria, estranha. Comecei a fazer teatro aos nove, via filmes antigos, lia livros difíceis e músicas velhas. Acordei de um coma aos 20 e pouco e descobri que havia pessoas da minha idade que falavam de forma jovial. Sempre fui melancólico, às vezes pessimista. Quando comecei a trabalhar com música foi como acordar, havia internet, as pessoas comunicavam, faziam músicas novas. Nossa Senhora! Foi uma coisa louquíssima para mim. Foi aí que fui na festa na casa da Tulipa [Ruiz].
A Mariana Aydar, que também toca convosco no São Luiz, estava nessa festa?
Conheci a Mariana um pouco depois. Pelo MySpace e depois através da Tulipa. Émais um exemplo de outra vertente da música e da pluralidade de São Paulo.



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