“El Laberint de La Memòria” nasceu como encomenda e acabou como disco de estimação. A tradição da música espanhola em improviso
Agustí Fernández não precisava de nada disto. Não lhe fazia falta nenhuma meter-se no meio dos trabalhos que envolvem a gravação de um álbum a solo. Este espanhol tem vozes de peso nisto do jazz do seu lado, a elogiar-lhe os dotes avant-garde, a capacidade de improviso e o conhecimento sobre o piano do século XX. Pelo meio de todo este aparato técnico e teórico, o músico ainda ganha pontos extra pelas colaborações que vai assinando com Evan Parker ou o trio que forma com John Edwards e Mark Sanders. E tudo isto são lá razões para ficar quieto enquanto se espera por aviões, antes de subir ao palco ou quando o quotidiano doméstico emperrou de vez? Fernández achou que não e aceitou a proposta de João Santos, da editora portuguesa Mbari, para uma revisão da tradição musical espanhola ao piano, com “El Laberint de la Memòria”.
“Este não é o disco certo para mim, não é bem aquilo que devia estar a fazer”, pensou Agustí antes de se perder entre audições de pouca ciência. O músico melómano investigou o que tinha de investigar com um par de headphones como melhor companhia. “Precisei de tempo para decidir o que ia fazer e qual o método a seguir. Pelo meio bateram-me à porta algumas tragédias familiares e canalizar tempo e atenção tornou-se muito difícil.” A aritmética final contou dois anos para desenhar este labirinto, ou seja, espaço suficiente para perceber como dar a volta às questões que lhe tiravam o sono. Por menos óbvio que pareça, o segredo esteve sempre no hábito, na disciplina, a começar pelos dedos: “Fui à obra de gente como Isaac Albéniz, Frederic Mompou e Manuel de Falla e fiz disso a minha banda sonora. A ouvir mas nem sempre a escutar.”
Então a verdade é que tudo isto nasceu em jeito punk erudito, um do it yourself esclarecido e com legendas em todos os diálogos complexos. Agustí usou a escola que o formou – “na realidade, o que se ouve neste disco é improviso, pelo menos 90%, de certeza” – para agir como um aluno assim-assim que termina os deveres no recreio enquanto espera pelo segundo toque. Em caso de dúvida, nada como seguir o instinto e tudo o que vai sempre nos bolsos do artista, que não precise de consultas extracurriculares. Esperar que o dilema se resolva a si próprio na hora do aperto. Agustí explica o resultado: “Esta música passou pela minha infância e ao regressar deixa ecos. Não é coisa de poesia, é mesmo verdade, uma espécie de déja vu. Teve esse efeito em mim como tinha tido em muitos outros antes. E a cada nova passagem é atingida pelas referências de quem a recupera. Dei por mim a regressar a Maiorca ao piano, a lembrar-me de episódios menos óbvios...” Que é como quem diz, este disco veio em defesa de alguns lugares comuns da função psicológica da música: “É como diz a tradição, o melhor é deixar tudo isto invadir corpo e mente e ver no que dá.”
Isso, resultados. “El Laberint de la Memòria” é um drama apresentado como inevitabilidade simpática, é a melancolia e a tristeza servidos como um cocktail de cores bem escolhidas. Álcool, pois claro, para pôr calma na urgência que é ser inovador de mãos e olhos presos às teclas, todos os dias. Mas Agustí tira as manias de drama queen a afirmações como estas e simplifica a questão: “Sou um pianista profissional, sabes? O meu trabalho é tocar o piano o melhor que posso.” Claro que sim. E do lado de cá agradecemos a entrega, que deu num exercício de piano solo que não quer ser banda sonora de coisa nenhuma. Nasceu para ser prima donna, para ter as vistas à sua volta, de atenções postas nos detalhes e nas contracurvas. “Apesar das dificuldades, este disco esteve sempre à minha volta. Isto nasceu da tradição espanhola, bolas, tinha que deixar as dúvidas e enfrentar a coisa de frente. Começou como encomenda mas acabou por se transformar em algo muito pessoal.” Vai na volta, Agustí Fernández até precisava deste disco.



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