São amigas e fazem books de bichos de estimação. Fomos assistir a duas sessões e testemunhar a persistência das fotógrafas
É preciso paciência e truques na manga para fotografar bicharada. Há os que não param quietos e os que não percebem nada do que se lhes pede. O cão que fotografaram desta vez pertence à primeira categoria. A alegria de ter pessoas novas em casa foi tanta que Ramone, o cão punk, fez tudo o que pôde para expressar esse sentimento.
Entre saltos, lambidelas e uma espécie de abraço canino, acompanhado por mordidelas ao de leve, tornou a tarefa de fotografar muito difícil. “É preciso não desesperar e ficar à vontade”, explica Adriana Morais, de 23 anos.
De máquina fotográfica em punho, Adriana e Lais Pereira, também de 23 anos, fazem tudo para captar a atenção do bicho. Chamam-no, pegam em brinquedos que ele imediatamente disputa, sentam-se, levantam-se, aproximam as máquinas e disparam. Riem-se quando o cão ensaia um ataque à objectiva e tentam outra vez.
Olha o Passarinho são estas duas amigas, que gostam de fotografia e de animais. “Gostamos tanto deles que nem os comemos, somos vegetarianas”, brincam.
Juntas fazem books de animais de estimação em sessões de uma hora, temáticas ou “descomplicadas”. A primeira pode ser sobre o que o dono quiser: Dia dos Namorados, Natal, Páscoa, ano novo chinês, e o preço depende dos gastos na produção. Mas pode ficar com postais originais para enviar aos amigos e à família. A sessão descomplicada custa 90€ e inclui um álbum personalizado com dez fotografias e um CD com as mesmas fotografias para poder imprimir e espalhar pela casa ou, quem sabe, pelo escritório.
A ideia surgiu graças a um primo de Adriana: “Ele tem um cão e leva-o ao psicólogo. Pensámos que se há quem faça isto também deve haver quem queira um book do seu animal de estimação.”
Adriana e Lais estudaram juntas na Faculdade de Belas-Artes, na vertente Multimédia e Fotografia, e ambas têm gatas. Uma delas já foi estrela por um dia e pode ser vista no site www.olhaopassarinho.info, rodeada de corações românticos a propósito do dia de S. Valentim ou de gorro e camisola de Pai Natal, com um ar absolutamente natural. Pelo menos, aparentemente. Parece que na verdade não achou muita piada à brincadeira, mas perdoou a dona, Adriana, rapidamente.
Para Lais, o animal mais difícil de fotografar, na sua curta experiência, uma vez que o Olha o Passarinho só está oficialmente a funcionar desde o início desta semana, foi um coelho. “Não parava quieto e não percebia ordens. E depois não se interessava por nada em especial.” Um bocado de cartão salvou o momento e captou a atenção do bicho.
As duas amigas deslocam-se à casa do animal que será fotografado, mas, especialmente com cães, preferem fotografar ao ar livre, num jardim ou num parque, para que possam apanhar momentos mais divertidos. Com o Ramone não foi possível porque desataria a correr e aí é que nunca mais ficava sossegado. “Nunca tínhamos apanhado um cão tão enérgico. Se voltar a acontecer, vamos pedir aos donos que os cansem antes, que os levem a correr um bocado”, desabafam, meio a brincar meio a sério. Provavelmente bem a sério, olhando para o bicho eléctrico com molas nas patas.
Depois da difícil tarefa de captar o melhor lado de Ramone, que, se pudesse, tinha engolido as duas fotógrafas de uma só vez para nunca mais se separar delas, foi a vez de Split e Banana. Ou Banana e Split. Duas gatas irmãs de personalidades completamente diferentes. Uma gosta de toda a gente e autoriza festas a torto e a direito. A outra corre a enfiar-se debaixo da cama como se a vida dependesse disso e não há chamamento nem brincadeira que a arranque de lá. Assim que entraram na casa aproveitaram o facto de Banana, a difícil, estar deitada na cama dos donos, de olhos muito intrigados perante tanta gente. Depois de alguns disparos e de uma aproximação mais insinuante da objectiva da máquina, desapareceu-nos da vista.
Split, a simpática, ia-se roçando de perna em perna e cheirando as malas pousadas no chão, enfiando a cabeça lá dentro, actividade que, segundo consta, gosta muito de praticar. Com esta a sessão foi mais fácil. Split é uma estrela felina que se deitou no chão, brincou e perseguiu bolinhas de papel de prata. No entanto, para que fizesse o que Adriana e Lais queriam foi preciso paciência.
Adriana deitou-se no chão de máquina preparada enquanto Lais tentava convencer a gata a entrar num túnel de tecido, subornando-a com uma bolinha. Foi preciso fazer barulho com o papel, com o túnel, falar com ela, pedir muito até ela se dignar a entrar lá dentro, não sem antes roçar o focinho à entrada, como quem ameaça. Mas a paciência compensou e em menos de nada Split entrou no túnel, deixando apenas o rabo de fora, e avançou sem medo para a saída. Os disparos sucessivos da máquina não assustaram esta gata com absoluta star quality, que se deixou pegar ao colo pelas duas fotógrafas, que de vez em quando lhe faziam festas e lhe chamavam “miúda”.
O próximo trabalho de Lais e Adriana já está marcado: fazer um book de dois porquinhos-da-índia, um presente de uma irmã a outra. Brevemente irão também fotografar cavalos, certamente mais sossegados que o cão Ramone e menos tímidos que a gata Banana. Se tiver um animal esquisito, não se preocupe, elas fotografam tudo. Até pinguins.



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