São mais de cem as obras em exposição nas Galerias Perve, uma visita à vida de um dos mestres do surrealismo português
O mestre Cruzeiro Seixas definiu-se em tempos como “um homem que pinta e não um pintor”. Conta agora 91 anos e prefere não dar entrevistas, mas tem um legado artístico que fala por ele. Foi um dos pais do movimento surrealista português e um dos mais produtivos artistas da sua geração. Muita da sua obra está agora disponível para visita nas Galerias Perve, em Alfama e Alcântara, numa exposição antológica que é inaugurada amanhã e que versa também sobre a vida do autor nascido na Amadora.
Carlos Cabral Nunes, curador de arte das galerias, traçou-nos o perfil da exposição. “É uma visão de carácter antológico num período que vai desde 1940 a 2010. Consideramos que é um dos autores mais fundamentais e determinantes da arte portuguesa, para compreender não só o surrealismo como tudo o que vem depois.” Cruzeiro Seixas nunca foi um autor convencional nem pisou lugares-comuns. Fundou o antigrupo Os Surrealistas, em conjunto com o seu grande amigo Mário Cesariny, escreveu manifestos e folhas volantes, correu o mundo ao serviço da marinha mercante e ainda revolucionou o Museu Nacional Angolano. Mas foi pela arte de dar pinceladas surrealistas que ficou reconhecido: “Ele é sobretudo um poeta visual, um homem da pintura, mas é um poeta que se expressa de múltiplas formas, pelo desenho ou pela escrita, até porque se dedicou muito às letras.” A exposição decorre em simultâneo em Alfama e Alcântara, e foi pensada para que estes dois pólos se complementem: “Em Alfama está presente a ortodoxia da produção artística de Cruzeiro Seixas, em Alcântara pode ver-se uma lógica mais ligada ao experimentalismo que tão bem fez ao longo da vida.”
Para alimentar ainda mais a mostra estão disponíveis produções que fogem ao traço mais comum do artista. Carlos Cabral Nunes exemplifica: “Temos algumas obras que antecedem a primeira exposição surrealista portuguesa, de 1949, há uma de 1938 de um período neo--realista, e pinturas que surpreendem pelo uso da cor. Ele que tem uma ortodoxia plástica com muito a ver com o claro-escuro, utiliza por vezes cores muito vivas e alegres, que contrastam com a densidade normal da sua produção plástica.” Mas há ainda marcas emblemáticas, como a pintura à pena e com tinta-da-china, que o ajudaram a definir como génio. Um génio que actualmente “está bem de saúde, mas acaba por ter limitações visuais que interferem na construção pictórica de uma obra. Já não produz a obra que gostaria de realizar”.
Apesar das mais de cem obras presentes no local, o curador das Galerias Perve considera que “uma só galeria não poderia expor plenamente a obra dele” e que “a academia visual e os museus têm de prestar uma maior atenção a este autor, para que seja possível fazer justiça a tudo o que Seixas deixou”.



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