Martin Amis
Há 30 anos, o escritor britânico publicou um livro sobre videojogos com prefácio de Steven Spielberg. Na internet chega a custar 150 euros
Há escritores que têm razões para querer que os seus livros permaneçam escondidos no pó de uma estante longínqua. O problema é quando algum crítico literário os descobre na prateleira de uma biblioteca universitária. Foi o que aconteceu com “Invasion of the Space Invaders”, o livro que o escritor britânico Martin Amis tentou esconder – e nem sequer vem mencionado nas 418 páginas da sua biografia, “Martin Amis: The Biography”, de Richard Bradford, publicada em Novembro do ano passado.
Com o subtítulo “An Addict’s Guide to Battle Tactics, Big Scores and the Best Machines”, o livro que Martin Amis lançou em 1982 – no mesmo ano em que escrevia o seu mais conhecido “Money” – é um manual com dicas para os primeiros jogos de arcada. Sim, leu bem. O filho de Kingsley Amis resolveu tirar partido das muitas horas que passava a jogar em máquinas de bares no início dos anos 80. Afinal, pensou ele, não foi tempo perdido.
“Invasion of the Space Invaders” é um livro com conselhos preciosos para vencer alguns dos jogos mais clássicos, como Pac-Man ou Space Invaders – este último, aliás, dá título ao livro. Veja-se este exemplo: “Jogador de Pac-Man, não seja demasiado orgulhoso nem demasiado machista e prosperará no ecrã pontilhado.” Amis, que em 2008 foi considerado pela revista “Time” um dos 50 melhores escritores britânicos desde 1945, dá dicas pormenorizadas aos jogadores, que agora, na era de Angry Birds, podem parecer instruções pré-históricas. “Se corro riscos para devorar o símbolo da fruta no meio do ecrã? Não e você também não devia. Tal como a nave inofensiva de Missile Command [outro clássico da altura], a fruta está lá só para o tentar em missões arrogantes.” Que é como quem diz, para o distrair.
O livro, que faz agora 30 anos, foi redescoberto este mês por Mark O’Connell, um crítico literário do site “The Millions”. O’Connel tinha ouvido falar do manual de jogos de arcada – que há muito saíra de circulação – numa entrevista que Amis deu ao “The Guardian”. O jornalista (talvez a brincar) disse ao escritor que “Invasion of The Space Invaders” tinha sido uma das melhores coisas por ele escritas e era uma pena que o livro tivesse deixado de ser editado. “A expressão na cara dele, com mais pena que satisfação, ainda me incomoda”, escreveu na altura o jornalista.
Mas afinal porque é que Amis não quer que o livro seja impresso? No ensaio do “The Millions”, O’Connell sugere que talvez seja por causa do glossário que o escritor utiliza para descrever a fauna dos salões de jogos dos anos 80. Uma das palavras que usa – e define – é paneleiro (“faggot”). É importante lembrar que o escritor já esteve envolvido em várias polémicas e foi acusado de defender a discriminação contra os muçulmanos.
O que é certo é que o livro está a ganhar estatuto de relíquia. No site da Amazon, os poucos usados que ainda existem custam entre 60 e 150 euros.
O que também lhe dá valor é o prefácio de Steven Spielberg. Sim, o realizador: “Leia este livro e conheça a horrível odisseia do jovem Amis nas arcadas de todo o mundo, antes de você se tornar também um viciado em videojogos.”



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