Os objectos da relação entre Lenore Doolan e Harold Morris, um casal fictício, deram um livro e uma exposição em Cascais
Um esquilo empalhado, uma T-shirt dos Battles, duas estatuetas de poodles, um conjunto de peúgas, bilhetes em talões de compras, um pacote de sementes e uma pá de jardinagem... A tralha que um casal acumula ao longo dos anos parece não ter fim. Lenore Doolan e Harold Morris não foram excepção. Depois de uma relação de quatro anos são muitos e bizarros os objectos que coleccionaram. A questão é: o que fazer com eles? Deitá-los fora? Leiloá-los? Talvez uma boa ideia. A história podia ser verdadeira, mas não passa de ficção. Lenore Doolan e Harold Morris só existem nas páginas do livro de Leanne Shapton, lançado ontem em Portugal.
“Artefactos Importantes e Objectos Pessoais da Colecção de Lenore Doolan e Harold Morris, Incluindo Livros, Roupa e Acessórios” é um romance transformado em catálogo de leilão. Os objectos, quase todos da autora, estão agrupados em 325 lotes – e não lhes falta preço. Leanne Shapton, que além de escritora é ilustradora e já trabalhou como directora de arte no “The New York Times”, teve a ideia do livro depois de ver o catálogo de um leilão com os pertences de Truman Capote. “Através dos objectos e das suas descrições comecei a perceber pequenas histórias e adorei”, conta Shapton, que veio a Portugal para o lançamento do livro. Depois disso, lembrou-se de criar um leilão fictício com os objectos de uma relação já terminada.
Lenore e Harold não existem e quem aparece nas fotografias do livro são amigos da autora. “Eles nem sequer se conheciam”, conta Shapton. “A Sheila [a Lenore do livro] é uma escritora de Toronto e o Paul [o Harold] é designer gráfico. Costumava partilhar um estúdio com eles.” A autora canadiana desafiou os amigos a tirarem as fotos para o livro durante o Verão. São tão realistas que ninguém diria que eram encenadas.
Em algumas vemos o casal mascarado numa festa de Halloween, noutras a ler na cama com uma T-shirt da universidade McGills e noutras a jogar Scrabble em casa. Mas é através das descrições dos objectos e dos bilhetes que trocam – “os únicos e-mails do livro são aqueles que têm indicações de morada, de outra forma não se imprimiriam” – que percebemos a evolução da história do casal até à separação. A linguagem é formal, como se se tratasse mesmo de um catálogo de leilão. “Assim há mais espaço para a imaginação”, explica Shapton.
A autora fala das personagens como se existissem. Lenore tem uma coluna sobre comida no “The New York Times”. “Inspirei-me numa coluna do ‘The Guardian’ chamada ‘How To Bake’, do Dan Lepard”, conta Shapton. “O Hal [abreviatura de Harold] é fotógrafo. Provavelmente alguém que trabalha para a ‘Vanity Fair’ ou para alguma das revistas da Condé Nast.”
Alguns objectos do livro estarão em exposição até 4 de Março no Centro Cultural de Cascais. “Os outros estão no meu estúdio ou foram devolvidos. Por exemplo, a roupa. O meu marido usa o pijama que está no livro”, diz Shapton. Não faltam mensagens em guardanapos com mails fictícios, o filme “Strange Brew”, um “clássico de Natal” no Canadá – a autora nasceu em Toronto – ou cartões de embarque e postais de Veneza – “uma viagem que fiz sozinha”.
Em breve, o livro verá uma adaptação ao cinema com Brad Pitt e Natalie Portman, realizado por Greg Mottola.
A exposição com objectos do livro estará no Centro Cultural de Cascais até 4 de Março. Avenida Rei Humberto II de Itália, Cascais. De terça a domingo, das 10h00 às 18h00. Entrada Livre.



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