José Gil
O “medo de existir” foi enxertado com outros medos. A esperança vem da inércia, diz o filósofo e Prémio Vergílio Ferreira 2012
Dia 1 estará na Universidade de Évora a receber o Prémio Vergílio Ferreira. Costuma preparar-se especialmente para momentos como este?
Não, pergunto se estão à espera que fale e por quanto tempo. Disseram-me que isso era comigo. Vou ter um esquema que irei seguir e mais nada. Não há nada especial, excepto que o prémio é muito prestigioso e que me gratifica muito.
Deu a sua última aula em 2010. Tem regressado à sua faculdade?
Sim, estou num centro da Universidade Nova como investigador, mas não é uma profissão. Supostamente animo uma equipa de investigação do Instituto de Filosofia da Linguagem. Vou tendo contactos com a universidade e sobretudo com os alunos.
De qualquer das formas, dizia na sua última lição que não ia deixar de dar aulas, uma vez que continua a pensar.
Sim, e o ano passado fiz um curso livre durante seis meses, que é uma possibilidade que a Universidade Nova me oferece. Escolhe-se um tema e propõe-se, fora de todos os departamentos. Este ano talvez faça outro.
O curso foi sobre...?
O título era Filosofia do Corpo. Era o resultado de uma série de investigações que vou fazendo agora.
Há sempre uma afinidade com a sua área nos cursos que escolhe?
Sim, há sempre uma afinidade. Este título, por exemplo, a Filosofia do Corpo, cobre imensas outras áreas e domínios. Dou uma importância especial à estética no meu trabalho, mas como a exploração do corpo irradia sobre múltiplos domínios científicos que permitem uma reflexão filosófica de um certo tipo, vou trabalhando esses domínios também. A antropologia, que me interessa sempre, a psicanálise também.
Recupera também as matemáticas, que chegou a cursar?
Não, excepto um domínio extremamente estrito das matemáticas, da geometria, que procuro trabalhar, mas não propriamente a filosofia da matemática.
Tentava perceber em que medida essa bagagem costuma ser convocada ou não para as suas reflexões.
A matemática ficou na gaveta. Estava a tirar uma licenciatura em Matemática, que não acabei, e tenho imensa pena.
Gostava de ter retomado?
Agora é um bocado tarde, mas tenho pena de não ter acabado a licenciatura e de certa maneira de não ter seguido mesmo a matemática. Havia campos que me interessavam particularmente. E depois a matemática, é preciso dizê-lo, é muito bonita. Tem afinidades com a estética, com o corpo, com tudo. Apesar de ser para muitos um bicho-de-sete-cabeças, maltratada até. É muito maltratada. Estou convencido que é por causa da pedagogia da matemática. Já fiz essa experiência. Se há miúdos que deixam de gostar de matemática, que bloqueiam a sua aprendizagem muito cedo, isso é devido a vários factores, um dos quais é a maneira como se enuncia o que se pede num problema. E depois, é claro, há uma relação muito especial com o professor.
Foi uma escolha evidente na altura?
Sim, foi evidente. Eu era bom aluno a Matemática no liceu e gostava de fazer muita coisa. Comecei a estudar para fazer o 7.o ano nessa época, actual 12.o, em Arquitectura, que era diferente das Letras e das Ciências. Mas gostava da Matemática, que para mim tinha uma facilidade extraordinária, que era o facto de pegar na ponta de um fio e ir até onde pudesse sem ter de estar a retomar, memorizando. Há uma memória interna do raciocínio matemático que me facilitava as coisas.
Qual é o momento em que descobre a filosofia, se é que há uma descoberta?
Isto já foi há muito tempo. Na época em que a maioria dos jovens que tinham ideias políticas, que eram anti-salazaristas, eram apanhados pelo marxismo, depois o marxismo era a filosofia.
Também se deixou apanhar?
Também me deixei apanhar, felizmente durou muito pouco tempo, mas a filosofia e o gosto pela filosofia ficou. Quando fui para França, verifiquei que podia com o meu 7.o ano de Ciências, passar imediatamente para Filosofia, sem ter de fazer exames. E foi isso que me determinou. Não hesitei em ir para Filosofia.
De certa forma acaba por ser motivado pelas circunstâncias?
Não foi circunstancial. Circunstancial, sim, foi a circunstância que proporcionava essa possibilidade. Se tivesse tido tempo, porque o tempo exigido pelo estudo da Matemática em França ocupava toda a vida de um estudante, teria continuado em Matemática.
A filosofia permitia mais tempo livre que a sistematização que a matemática recomenda?
A matemática para mim nunca foi vista como um sistema. Mas é verdade que a filosofia permitia mais tempo. Sabe, sempre tive um vai e vem entre matemática e filosofia. Sei que devo à matemática uma exigência de rigor que se tornou natural na filosofia.
Que contraria a ideia romântica da filosofia como algo meio etéreo, como se pensar fosse quase um exotismo?
Pois, eu sei, há até lendas antigas sobre a distracção do filósofo. Mas isso é uma ideia quase falsa, porque o que afinal um pensamento filosófico de um grande pensador quer é, entre outras coisas, poder pensar e poder abrir o campo do mais concreto que há. Dizendo mesmo que aquilo que os homens comuns pensam não é o que é o mais concreto.
É possível chegar facilmente a esses homens comuns ou há um fosso inevitável entre o pensador e o homem comum?
Há sempre uma distância, mas a filosofia é tão difícil na sua prática e no seu pensamento como a física nuclear. Olhe, quem diz isto é por exemplo René Thom, um grande matemático. Lembro-me de um texto onde diz que ler textos de Parménides é tão difícil como entender topologia.
Até que ponto a filosofia pode ser popular?
Aí há dois planos. O do pensamento do concreto e o da transmissão de um pensamento filosófico ao homem comum. O pensamento do concreto, como do abstracto, se quiser, faz parte da prática filosófica, que é tão rigorosa e exigente como um ramo da física. Para isso temos de nos arrancar a esse nível empírico comum, e isso é muito difícil. Pensar a esse nível de rigor, de imanência na própria existência, não é um jogo. Isto do pensar filosoficamente é um pensar vida também. Não quer dizer que se viva uma vida filosófica, mas tem-se uma vida em que os conceitos não são um divertimento.
Não surgem por acaso. Não são um acaso, a tal coisa etérea que se pode ter. Não, implicam a sua existência. Tomar a sério as suas ideias, viver as suas ideias. E para isso é preciso pôr vida nas suas ideias. Há aqueles professores que ensinam Filosofia como se ensina uma matéria científica que tem a ver com um aspecto do objecto escolhido e a vida está separada de tudo isto. É preciso que a filosofia, quando pensa esse concreto, pense também na vida.
Depois então a vocação para comunicar essa vida?
É isso mesmo. É o outro aspecto. Como transmitir, que é toda uma arte. Tudo depende do professor, da forma como se vive a experiência filosófica, e viver a experiência filosófica é comunicar ele próprio, dentro dele e fora dele, com o que não é pensado filosoficamente, e portanto articular. Como é que vou mostrar, em estética, por exemplo, que o artista para criar precisa de ser atraído por um caos? E um caos de quê? De pensamento, de forma, de sensações? Uma pessoa comum, que nunca pensou nestas coisas, não pensa que é preciso um caos para pintar um quadro, uma vertigem por um acontecimento qualquer.
Na questão da identidade colectiva defende que, para eliminarmos o bloqueio da identidade, deveríamos concentrar-nos em ser primeiro homens e depois portugueses. Pondo a questão de outra forma, qual é o peso dessa experiência enquanto homem na experiência filosófica?
Isso é um pensamento difícil. O que é um homem enquanto homem? É um pensamento que encontra em muita gente. Lembro-me de um texto do Fernando Pessoa em que ele dizia isso mesmo. Acorda de manhã, sente-se a andar nas ruas de Lisboa ainda como se nada estivesse vestido, tem a sensação de uma certa nudez, as coisas são o que elas são mesmo, sem a mentira das palavras, dos adjectivos. Diz uma frase: “Ver a realidade como Deus o vê.”
Pegando na herança de Pessoa. Estamos mais numa fase “devir eu” ou “devir outro”, como trata o professor?
Só devenho eu devindo outros. Isso é uma banalidade que se experimenta com essa atenção de que falou. Se tivermos atenção nas mudanças de sensações que temos, verificamos que somos diferentes. Numa hora mudamos. Se operarmos sobre cada um desses blocos de diferentes humores, ou de projecção de pensamentos, criamos personagens. Temos a vocação de viver na banalidade quotidiana a heteronímia de Pessoa, que é uma operação complicadíssima.
Um desdobramento que pode ser muito desconcertante.
Ah, sim, quando é levado a um extremo, ou, por outra, a sério. É ameaçador de uma consistência do nosso próprio pensamento, do nosso self, e aí bordejamos qualquer coisa como a loucura.
Tem acompanhado os nossos passos. O “medo de existir” sofreu alguma alteração?
O medo mudou, ao mesmo tempo que esse medo continua, um medo fundamental.
Quase genético?
Felizmente não é genético, mas há um outro medo que se espalha, que tem a ver com a situação actual. Um medo de mudar, de perder segurança. Todos nós temos amigos que perderam empregos, que tinham uma carreira quando a catástrofe desabou, que emigraram ou estão prestes a emigrar. É um medo que depende talvez mais do exterior que do interior. O medo de existir é uma espécie de bloqueio de forças, de vida, em nós, que vinha de longe, e que se manifestava na maneira como somos, não expressivos; na maneira como nos aconchegamos, como não sabemos a força do desejo.
Como desconhecemos a própria violência e receamos o escândalo?
Absolutamente. Não queremos conflitos de nenhuma ordem. Como se vivêssemos num casulo. Enquanto a existência é perigo, é risco, e temos de o enfrentar para sermos nós. Recusar o conflito faz parte desse medo de existir. Agora temos outros, concretos, que se manifestam imediatamente, e que se agravam em nós portugueses por causa desse medo de existir. Porque se enxertam nesse medo de existir. Um medo de não poder ter um futuro, um futuro banal, a que as pessoas têm imediatamente direito, como constituir uma família.
São medos demasiado prementes para se pensar no tal medo identitário?
Claro, mas tem a ver também com esse medo essencial. Não o liberta, não o quebra. Uma das percepções possíveis que se pode ter da maneira como este governo está a governar, da governação Passos Coelho, é precisamente através do medo. A contenção, a austeridade, a pressão é tão grande que não só não há alternativas, mesmo mínimas, locais, para certos domínios deste governo, como o governo quer fazer mais ainda que aquilo a que a troika nos obriga.
Um medo em forma de epidemia.
Absolutamente. Imagine que não há saída se não apertarmos o cinto. Significa que, se abrirmos a torneira, se modificarmos um bocadinho no domínio da saúde ou da educação, isto pode levar imediatamente a uma multiplicação de despesas. Há um medo que seca.
Vivendo nós em medo quase permanente com a ideia de “crise”, como dar-lhe a volta?
Como dar a volta ao medo ou à crise?
A ambos seria perfeito.
Não sei como dar-lhe a volta, mas a crise não é portuguesa, como toda a gente sabe. É europeia, senão global. Sobre a crise europeia as coisas vão mal. Não se vê uma saída. Os últimos números que falam do PIB de vários países são para desesperar. Não se vê nem na zona euro nem na organização europeia um futuro. Do que se fala constantemente é da possível desagregação da zona euro, da possível desagregação da UE. Só se fala nisto. Depois há o outro discurso, de que temos de afirmar a Europa. Através de quê, quando tudo vai no sentido contrário?
Dizia esta semana Eduardo Lourenço que não acredita que Portugal venha a “morrer realmente”, apesar da tentação do pessimismo. Alimenta alguma esperança?
Não tenho um outro factor racional que me diga que haverá uma reviravolta nesta linha. Vejo as dificuldades maiores. A solução seria a unificação política da Europa, mas mesmo com um estado federal, diferente, não vejo que seja possível. A esperança vem da inércia, porque não acreditamos que possa haver uma catástrofe na Europa.
Faria falta uma catástrofe?
Não, não. Isso parece-me bastante perigoso. Faz-me lembrar os discursos antes da Segunda Guerra Mundial, em que se dizia que precisávamos era de uma boa guerra para purificar. Não precisamos de boa guerra nenhuma, a guerra só é má, e agora sobretudo. Simplesmente em relação à Europa estamos na mesma situação que temos relativamente à nossa própria morte. Sabemos que vamos morrer, mas não acreditamos. Não é possível, porque viver é auto-suficiente por si. A Europa é a mesma coisa. Se aqui estamos, como é possível que desaparecesse?
Mas pode sentir que se encaminha para um certo suicídio?
O suicídio de quem?
A Europa não é uma pessoa, são colectividades coesas ou menos coesas, numa realidade que não se formou ainda. Estou a falar da Europa dos estados-nação, não da Europa que está por detrás disso tudo, que nos forma, a Europa de uma cultura e de uma terra que é muito mais rica que a Europa política e dos estados, que não tem fronteiras definidas.
Esse capital ainda é o bem mais precioso no movimento de resistência?
Certamente, agora é preciso é entender a cultura de uma outra maneira. De uma maneira antropológica, a cultura implica relação com todo o território, com toda uma maneira de ser e de viver e de formar uma colectividade.
Quando fala de território, é possível conjugá-lo com a ideia de um tempo movido, por exemplo, pelo imediatismo das redes sociais? Recordo por exemplo a noção de cronopolítica de Paul Virilio, ou de como a gestão do tempo é tão ou mais decisiva hoje que a gestão do espaço.
Com certeza que também. Simplesmente domar o tempo histórico é pretensão de tal maneira ambiciosa... quase limite em relação à finitude do homem. Há qualquer coisa no tempo que se vai acelerando e que nos vai dominando. Quem pensou melhor isso foi, como disse, o Paul Virilio, urbanista francês, e ele não tem solução. Constata que há uma mudança extraordinária na velocidade e no tempo. Ele dizia na brincadeira que ia passar a andar de burro em Paris, porque já não suportava os carros.
Não temos alternativa senão alinhar na engrenagem?
Quem tem o poder pode alguma coisa, mas não pode muito. Um dos problemas dos governos é tempo, um outro tempo, mas é o tempo. Eles não param para pensar, têm de tomar iniciativas, têm de, têm de. Talvez não tenham de. Podem talvez parar.
Recomendar-se-ia um bocadinho da síndrome do Bartlebly?
Pois, mas repare, no Bartleby aquilo é um meio fechado. Ele é empregado num escritório e toda a relação depende do facto de a fórmula “I would prefer not to” condicionar não só o seu patrão, mas também os colegas. Isso é possível porque é um meio fechado. Quando aparecem os oficiais para o porem fora do escritório, põem-no fora. Porque esses guardas não são condicionados por aquilo. Há dois mundos. Ora nós estamos nisso. Há um mundo que não é condicionado por uma resistência, e é esse mundo que tem força, o mundo da política, dos guardas.
Aproveitando a ficção, publicou três narrativas.
Sim, isso é um registo muito mais antigo que a filosofia e tenho possivelmente a sorte de não ser lido por ninguém.
Já no ensaio é um campeão de vendas. Em 2004 bateu “O Código Da Vinci” nos tops.
Sim, mas estou a falar da ficção. A menos que se ache que “O Medo de Existir” era ficção [risos]. Fiz três livros que ninguém lê e aquilo é uma actividade que me interessa muito a mim mas sem repercussão nenhuma. No último [“ao meio dia, os pássaros”], alguém leu; um crítico gostou e achou que o título não tinha a ver com o livro, mas tinha. São pulsões. Escrevo porque há uma pulsão interna muito arcaica que vem da minha infância e que é uma razão estranha, que já passou por muitas vicissitudes, com a escrita, com as letras.
Escreveu desde cedo?
Sim, desde miúdo, em Moçambique. Aos oito anos formou-se de repente uma relação muito estrutural que me condicionou com a escrita. Porque me disseram que um certo tipo de conversas ainda não eram para a minha idade.
O pior que podem dizer a uma criança.
É verdade. E isso transformou-me. Passou a ser o meu espaço. Em Portugal escrevia, depois escrevia em França. A partir de certo momento, aos 24 anos, esse edifício da língua portuguesa ruiu. Tive um sentimento de ruir total e pus--me a escrever em francês. Ora eu nunca dominei o francês como já dominava o português nessa época. Quando voltei a Portugal tive de reconquistar a minha língua e foi um trabalho que não está feito ainda sequer, nem nunca estará, tenho a impressão.
Tendo passado tanto tempo em diferentes sítios, chama casa a algum deles?
Sabe, eu não tenho necessidade de lar porque não nasci num lar. Não nasci num lar porque o que se criou como ideia e realidade de lar em Moçambique, numa ex-colónia portuguesa, é um edifício artificial, construído sobre a ausência de lar, ausência de uma relação natural, que passa pela língua e pelo corpo, com o território. Nós, moçambicanos brancos, nascemos em Moçambique sem lar, mas criámos um, que dizemos ser o mais forte que existe, que é Moçambique. Não tenho nostalgia nenhuma de um lar que nunca tive.



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