Jorge Cruz
António Pedro SantosUm novo álbum para se “pôr no sítio” que passa por Aveiro e Lobito, onde escrevia canções para os títulos de Boy George
Foi um demorado parto por cesariana, este da fotografia. Número de cigarros: três, a conta que a chapa perfeita fez numa rua do Bairro Alto. Semi intoxicação forçada de nicotina pela manhã que não derrubou Jorge Cruz. O “tipo que faz canções” lança “Barra 90”. E segue em frente sem medo de se queimar em manobras de risco.
Olhando para a extensa biografia que escreveu no Facebook podíamos estar a falar de alguém com uns 60 anos?
A biografia é uma brincadeira com essas voltas e reviravoltas. Há uma coisa ou outra que está mais embelezada ou a puxar mais para a piada. Eu sinto por exemplo que já fui mais velho do que sou hoje, aí há uns dez anos. Temos que deixar quase morrer certas partes de nós. Isso dá uma sensação de velhice, se calhar. Mas praticamente tudo ali é profundamente verdadeiro.
Portanto, a história da ginástica, da pesca, ou dos cubanos não são invenção de velhote.
Quando cheguei ao Lobito fui para um clube que era o Ferroviário do Lobito mas não me aguentei lá mais de duas semanas. Não era vida para mim. Havia uns tipos que para aquecer faziam o pino e davam a volta à sala. Aquilo era mesmo a sério e o professor era um ex-campeão mundial. Então passava o tempo na pesca com o meu pai. A cena dos militares cubanos é que na baía do Lobito há uma restinga e do outro lado havia um morro onde o lado socialista do MPLA tinha cubanos a observar as entradas da barra.
Porque vão para Angola?
O meu pai foi fazer cooperação. É dessas pessoas que viveu com intensidade o PREC. No início dos anos 80 muita gente estava triste com a forma como as coisas estavam a avançar, imediatamente antes de entrarmos na Comunidade Europeia. Neste momento se calhar estamos na cauda dessa história recente. Então surgiu-lhe essa oportunidade e havia essa grande paixão por Angola. Tinha jogado lá à bola e tudo.
Foi treinador, certo?
Na verdade é arquitecto e engenheiro mas o futebol é a grande paixão. Jogou no Futebol Clube do Porto e no Beira Mar, depois em clubes pequenos em Angola e quando eu estava a crescer ele era basicamente treinador. Trabalhava durante o dia e mal o via. À noite treinava. Tudo em clubes à volta de Aveiro.
Como foi trocar a Barra de Aveiro por Angola aos 10 anos?
Um choque brutal. Andava num colégio de freiras. No primeiro dia de aulas em Angola fugi e fiz seis quilómetros a correr sozinho, com a malta atrás de mim. Cheguei a casa e pedi para não ir mais à escola mas claro que voltei e foi uma experiência fantástica.
E o retorno a Portugal?
Aí a vida mudou um bocadinho. Os meus primeiros dez anos de vida foram estáveis, vivíamos numa zona pacata, a família toda junta. Depois foi um espírito mais aventureiro, daqui para ali. Senti uma necessidade de criar as minhas próprias raízes, porque as coisas não estavam tão estáveis.
Teve que criar raízes portáteis?
Sim, pensar que tudo é possível, que podes estar em qualquer lado, criar o teu próprio sítio. É curioso falarmos sobre isso porque essas questões têm bastante a ver com este disco. Foi precisamente em Angola que descobri as canções. Até aos 8, 9 anos, apaixonei-me pela música, foi o boom da MTV. Não que a tivéssemos, mas víamos os telediscos pela primeira vez nos programas do Álvaro Costa. Foi a primeira vez que vi o Boy George. Saiu o disco do Mick Jagger, o “Purple Rain” do Prince. Era um mundo mágico. Quando fui para Angola não tinha nada. Estava já motivado e não tinha acesso.
O que se ouvia lá?
Na rádio ouvia-se os Kassav, os Tubarões, um bocadinho de Lionel Richie e Michael Jackson. Era música dançável, de farra. Tinhas o recolher obrigatório. Quando a malta ia para casa de alguém numa festa dessas tinha que lá ficar até de manhã. Nós miúdos ficávamos a dançar e adormecíamos lá num canto. Então a minha avó mandava as TV Guia para a minha mãe, uma vez por mês, e aquilo tinha o top disco. Foi aí que comecei a fazer canções. Só conhecia os títulos e então inventava as melodias.
Quando confirmou cá o resultado tinha algo a ver?
Nada. Abri ali uma janela. Ao sábado e domingo era uma coisa religiosa, a minha mãe não podia aspirar porque eu estava a passar os tops que davam na televisão, tudo direitinho, e depois tinha o meu próprio top, onde entravam canções minhas.
Este “Barra 90” também é um regresso no tempo.
Acaba por ser um apanhado de dois discos mais um inédito. Ficaram de fora canções de um disco de Super Ego de 2001, porque na verdade responde mais a Diabo na Cruz. Os primeiros discos de Super Ego é que têm esta linguagem mais introspectiva. Depois procurei coisas de fora que valia a pena gravar.
Qual é a sensação de olhar hoje para estes anos 90?
Passando algum tempo podes olhar como uma terceira pessoa. É mais fácil, podes ser implacável na escolha, borrifas-te para os sentimentos de quem escreveu. Como te podes divertir à grande às vezes com os dramas de outra pessoa, que até eras tu. Foi um disco feito com grande humor.
É uma fase arrumada?
Completamente. Hoje dedico-me muito à melodia de inspiração tradicional popular portuguesa. De qualquer forma, ouço muitos discos de música contemporânea, indie, internacional. Foi como se fosse repertório novo que não era. Não teria este tipo de canções para fazer agora.
Porquê?
Acho que na altura fazia canções pequenas e estas canções gravadas desta maneira saíram um bocado da timidez. A piada foi tirá-las daí, como que fazê-las debotar em frente à sociedade, obrigá-las a ficarem envergonhadas frente aos outros.
As actuais são mais confiantes?
Sim, não são tão tímidas, mas mais que isso. São muito mais ambiciosas. Com Diabo na Cruz tocamos para muita gente, no país todo, que é o que nos interessa, e o nosso risco é esse. Fazemos canções para as pessoas estarem aos saltos. Celebram connosco, a qualquer momento largo o microfone e eles começam a cantar. É outra lógica.
Ao estilo punk popular?
A ideia é mesmo essa, abanar o máximo que conseguirmos. Para o próximo disco estou a arriscar estatelar-me e a ser ridículo e, ao mesmo, tempo tentar abraçar um país em chamas, por isso é muito mais arriscado que estas canções escritas no quarto.
Sente-se que cresce no país musical esse gosto pelas raízes?
Era inevitável. O facto de sermos apaixonados por música feita lá fora não quer dizer que a queiramos copiar. Tentamos fazer a nossa cena, aprendendo mais com processo e métodos que com acordes e línguas de outras pessoas. Acho que a malta nova já não tem a vergonha de se apresentar ao serviço. “OK, faço isto, é isto que tenho para dizer.” Não basta tocar e fazer música com bom gosto. Prefiro música com mau gosto que tenha algo para dizer. Se calhar na altura destas canções não havia tanto isso e agora há.
Hoje já tem novas referências?
Uma das razões porque não gosto de ouvir as versões originais destas músicas é porque não havia referências e eu não queria cantar como o Sérgio Godinho ou o Jorge Palma, queria algo mais alternativo, mas também não queria ser o Tim ou os UHF. Hoje já se pode cantar de qualquer maneira.
Mantém alguma ligação ao curso de psicologia?
Nada. Fiz o curso porque na minha geração ainda era preciso o canudo, porque é que havia de ir cantar?
Não era o Boy George.
Pois, nem havia as lojas de roupa certas para ficar parecido.
Alguma razão para o corte de cabelo?
Gosto do sentimento de ser anónimo. Não me sinto nada confortável com engavetarem-me num sítio. Este disco representa bem isso. Não estou nada interessado em ficar só num sítio.
Qual o melhor rótulo para Jorge Cruz?
Um tipo que faz canções.
Há datas para apresentar este álbum?
Não vou fazer nenhum concerto. A minha vida é Diabo na Cruz. Isto é só uma coisa que fiz para me pôr no sítio e ter a certeza que não me ia voltar a repetir. Talvez mais tarde toque estas canções. Agora tenho um assunto por resolver, que é o rock popular português.



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