Desbrava mares, sobe muros, canta, dança e ri-se do medo. E explica a fórmula
d. r.Aprenda a não ser piegas numa jornada entre um país em crise de felicidade e um imaginário cheio de desafios, no Teatro D. Maria II, em Lisboa
Desbrava mares, sobe muros, canta, dança e ri-se do medo. E explica a fórmula
d. r.
João Mota encena a sua primeira peça desde que pegou na batuta da direcção artística do Teatro Nacional D. Maria II em Novembro do ano passado. No palco vivem-se “As Aventuras de João sem Medo”, a última adaptação de um original literário de José Gomes Ferreira, que fala da jornada de um João armado em valente. Na trama, o herói salta o muro fronteiriço do país de Chora-Que-Logo-Bebes e entra num subconsciente surrealista de fabulação, onde enfrenta monstros que no fundo são medos, ataques à liberdade e verdadeiras ameaças à felicidade individual e colectiva.
No palco estão quatro actores e duas actrizes que interpretam à vez a personagem João sem Medo, de forma a mostrar que o ser ousado e corajoso pode viver em toda a gente. Alexandre Lopes, Hugo Franco, Marco Paiva, Mia Farr, Miguel Sermão e Tânia Alves dão ainda vida às metáforas que reproduzem o conformismo, o medo de errar e os obstáculos que o herói enfrenta na sua demanda de aventura e felicidade.
O encenador garante uma adaptação nova de uma obra com “uma poética e uma filosofia muito próprias” e, apesar de o original datar de 1933, aquando da aprovação da Constituição fundadora do Estado Novo, mantém-se actual porque “todos temos medo, mas vivemos numa sociedade em que é proibido tê-lo e é proibido errar”.
A peça segue um caminho de viagem porque “é nas viagens que mais aprendemos”, diz João Mota. E o João sem Medo, esse herói que não tem idade nem identidade específica, vai aprender, perder e ganhar, enquanto trilha o “caminho da felicidade”.
A representação tem muitos laivos experimentalistas, é dinâmica e brinca ao faz--de-conta, recorrendo não só à versatilidade e à expressividade corporal dos actores, mas também a um jogo de luzes e a um ambiente sonoro bem trabalhado. Há traços do teatro kabuki japonês, existe uma componente interessante de dramatismo expressionista e tudo isto dinamiza a hora e meia de espectáculo, sem complicar a percepção da mensagem.
A peça foi pensada para crianças e jovens, mas, devido à abundância metafórica e elevada carga simbólica, também é adequada a um público adulto.
João Mota anda nas lides da cultura há muitas décadas e, para fazer frente à anunciada crise que corta subsídios por tabela, recita uma frase que foi slogan no Maio de 68: “A imaginação ao poder. Se não há dinheiro tem de se imaginar, não se pode é morrer de fome.” Acrescenta que para desenvolver o teatro “há que aliar o mundo da razão à educação do ser sensível e é urgente trabalhar a juventude e a infância. É preciso humildade para se saber que sozinhos não aprendemos nada”.
Confessa-se “tímido”, mas não tem vergonha de explicar que ao teatro é necessária uma ideia de evolução e experimentação constantes, devido à rapidez do consumo urbano e à metamorfose social e cultural que há na sociedade. “Podemos estar a improvisar fechados numa sala durante seis ou sete meses, mas quando apresentamos aconteceram muitas coisas e o público já não é o mesmo. É preciso saber ouvir e estar atento. E não ter medo.” “As Aventuras de João sem Medo” estão em exibição até 21 de Abril para dar razão a Charlie Chaplin: “A vida é maravilhosa se não se tiver medo dela.”


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