Albert Nobbs
Vestir o sonho e trabalhar por ele
Glenn Close não tem nada a provar no cinema, mas resolveu esmerar-se e assumiu quatro tarefas em “Albert Nobbs”: escreveu o guião, produziu o filme, compôs a balada final e encarnou Mr. Nobbs, um misterioso e invulgar mordomo que afinal é uma mulher. O filme tem lugar numa Dublin da era vitoriana, repleta de traços modernos e classes sociais diversificadas. Num hotel onde convive a fina-flor com uma equipa de empregados, o ambiente é de conto, e é assim que o filme quer ser visto. O mordomo que é mulher sonha ter uma tabacaria de sucesso, mas pelo caminho tropeça nas ambições de um jovem casal que quer ir para a América (Aaron Johnson e Mia Wasikowska) e numa série de estigmas sociais. A caracterização é estupenda, não caindo na androginia que tantas vezes calha nas lides da transformação de género. Também por isso valeu uma nomeação para o Óscar da categoria. O mordomo Albert Nobbs é reservado. Estranho. Vive no limiar da fantasia e atarefa-se para não cair na verdade. E Glenn Close consegue captar tudo isto e dar-lhe uma carga austera e nervosa. Melhor só Jannet McTeer, o Hurbert Page que é nada mais nada menos que um marido e pintor que é mulher, também em fuga da discriminação. Desempenhos cativantes, vindos de um elenco certeiro, que é o que dá a força a este filme honesto e enternecedor.
Dos males que vêm por bem
Há três Valérie Donzelli que se juntam neste filme que quer ser uma explosão de boas emoções (ainda que arranque com um par de ingredientes menos próprios para o acontecimento, um bebé e um tumor cerebral): a realizadora, a actriz e a mulher da vida real, que teve um filho com a doença rara em questão. E foi precisamente com o actor que faz de seu parceiro (Jérémie Elkaïm) que Donzelli viveu a situação aqui adaptada, apesar de entretanto já se terem separado. Valérie e Jérémie são Roméo e Juliette, dois jovens que se encontram, apaixonam e têm um filho. Debatem-se com as coisas normais da ma(pa)ternidade até darem de caras com “o” problema maior. Segue-se a dança de especialista em especialista, os tratamentos e o palavreado médico. Apesar de pairar pela narrativa a palavra doença, com a respectiva dose de lágrimas, gritos, batas brancas e macas de hospital, “Declaração de Guerra” não é melancólico nem sombrio. Atreve-se a trazer rasgos de humor, boa música e uma pontinha de loucura entre adolescência tardia. O senão fica mesmo na rapidez dos acontecimentos, que mal deixa respirar quem os seguem e motiva o atropelar de alguns acontecimentos. A compensar estão os planos inconstantes, as conversas banais e as personagens que parecem apanhadas despercebidas num filme que se confunde com a vida real.
Valha-nos a fotografia que o cavalo não tem culpa
Steven Spielberg pegou no livro infantil de Michael Morpurgo, escrito em 1982, e estraçalhou-o. Transformou-o num desfile de clichés e paternalismo mal disfarçado. Nem as personagens são coerentes. Ted Narracott (Peter Mullan) começa por ser uma personagem cómica, a fazer lembrar Charlot, para rapidamente se transformar num bêbedo taciturno de olhar vazio e poucas falas. É ele que compra Joey, o cavalo, sem que se perceba porquê, já que nunca fica bem esclarecido porque é que o cavalo é tão incrível, para no instante seguinte o querer matar, numa reviravolta idiota. Spielberg passa o filme a dar injecções de moralismo e emoções baratas que tornam a experiência cinematográfica um castigo. Os soldados alemães são maus como as cobras; já os ingleses são cavalheiros honrados. De repente, o realizador muda de ideias e afinal também há alemães bonzinhos. Dois, ao todo. Numa tentativa de tornar as coisas mais leves, porque afinal é um filme para toda a família, há um ganso que dá bicadas a quem se porta mal e observa tudo com atenção, ao melhor estilo “Porquinho Babe”. Só lhe faltou falar. E se Spielberg teve muita vontade de mostrar que a guerra é uma coisa má e devemos ser bonzinhos uns com os outros e com os animais, esqueceu-se de contar algumas partes da história que surgem de repente como factos consumados deixando o espectador perdido. Valha-nos a fotografia.



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