Multiproteínas mas com sabedoria nas doses
Uma prova de endurance dividida por outras mais curtas – nada que chegue aos quatro minutos, que não há resistência que aguente. Gente inteligente, estes Field Music. Declaram o amor pelas coisas progressivas, pelo virtuosismo instrumental, pelo som em camadas (uma mais uma mais uma) e transformam essa mania em canções pop, daquelas que se consomem a qualquer refeição sem que precisemos de perceber uma história maior, feita de personagens místicas ou de heróis de uma solidão redentora. Nada disso. São apenas ingleses que ouviram discos a mais, gente com pancada pela matemática da obra de arte, preocupada de facto com perceber as marcas dos instrumentos dos seus heróis, as progressões de acordes que fizeram a história e o funcionamento complexo de um metrónomo. “Plumb” não tem respeito por tempo ou ritmo, muda o que quer quando quer, surpreende e exige atenção. Curioso: não é difícil concedê-la.
Um homem na cidade: histórias de desamores vizinhos
Sem meias medidas, Pedro Esteves faz carreira de longo curso logo ao primeiro álbum. É como diz a sabedoria: isto quando há algo para dizer é melhor fazê-lo sem pensar muito no assunto. Mas neste disco Pedro faz as duas coisas: conta todas as histórias que tinha guardadas mas só depois de as repensar quantas vezes pôde. Tinha de ser. Aprendeu a cantar contos especiais de gente normal com quem o fez antes com perfeição (Fausto ou Sérgio Godinho no topo da lista, mais a linhagem brasileira Jobim-Buarque logo de seguida) e, assim sendo, sabe que a forma como se relata uma história é para lá de importante – ainda que, pelo caminho, Pedro Esteves tropece aqui e ali na vontade de dizer muito num espaço tão elegante. A direcção musical do pianista Filipe Raposo tratou do corte e costura de boas medidas, mas o samba de violão e seus familiares são exigentes e acabam por roubar espaço a outras melancolias que aqui caberiam.
Como os outros antes dele mas fora de tempo
Paul McCartney é um herói rock’n’roll. Que raio faz ele metido num piano bar para tipos endinheirados, com cerveja a preço de whisky? Está a recordar as canções que lhe fizeram a cabeça em miúdo (mais dois originais, um deles com Stevie Wonder, mas no mesmo registo). Tem a seu favor a bênção rara de fazer quase tudo bem, mas por vezes não basta a qualidade da mão-de-obra. McCartney chega-se a uma melodia e torna-a sua, sempre o fez, e neste “Kisses on the Bottom” fê-lo com as melodias que o acompanharam antes de ser um dos Fabs. Porque depois, enquanto Beatle, revolucionou a pop e disse aos standards que ficassem no seu lugar. Ao mesmo tempo, sempre foi o mais conservador dos quatro e regressar às origens não surpreende. Mas é impossível não reparar que a voz que usa não é a sua, que muitas vezes soa mais a “quem me dera ser o Nat King Cole”. E se há coisa que não serve a McCartney é o rótulo de wannabe.



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