70 anos de carreira celebrados em palco. A actriz de 83 anos está no Teatro São Luiz com “O Cerco a Leninegrado”
Eunice Muñoz, mãe de cinco filhos, já tem 70 anos de carreira como actriz e diz que continua a preferir o teatro à televisão ou ao cinema. Com 83 anos já fez de tudo, mas quer sempre mais um bom texto para trabalhar. Chegou atrasada à conversa com o i porque teve uma emergência com o dentista. Mesmo depois do percalço, não abrandou a conversa que começou na peça em cena no São Luiz, “O Cerco a Leninegrado”, até ao tempo em que trabalhou numa loja de cortiça.
Esta peça assinala os seus 70 anos de carreira. Aqui faz de actriz...
Não é actriz, podem pensar que sim, já que ela tinha vocação, mas na realidade é viúva do empresário daquele teatro fantasma. A minha colega é que faz de actriz. Estas duas mulheres estão unidas com um único pensamento: conseguir que não o deitem abaixo.
É um tema importante nesta época de crise?
É, mas não foi por isso. Sabe, sou uma optimista. Estamos a lutar neste momento pondo aqui um espectáculo. Neste caso, o Celso [Cleto, encenador] é a pessoa que devemos abraçar com mais estima porque é um homem que luta, tem coragem, faz tournées, leva as peças a Madrid. Faz tudo com dificuldades. Não é rico e monta espectáculos interessantes. Portanto, quando aceitei sabia que ia ser um trabalho interessante, visto pelo país inteiro.
Gosta de andar em digressão?
Sim. Conhecem-se diferentes públicos. O mais diferente é o de Trás-os-Montes. É muito atento e silencioso. Até ficamos inquietos, sem saber se estão a gostar. Quando acaba reagem com muito entusiasmo. É diferente do resto do país.
Tem uma longa relação com público, são 70 anos. Tratam-na bem?
Sempre fui bem tratada. Há uma atitude afectuosa comigo. Não apenas do público da minha idade e de meia-idade, mas também do mais jovem. Dá-me uma alegria muito grande um rapazinho ou uma miúda chamarem-me.
Como é que a abordam?
Com uma certa timidez, mas eu ponho-os à vontade. Digo que eu é que estou contente por me chamarem. Isso quer dizer que não parei e que me modernizei.
Nunca pensou em parar?
Estive parada quatro anos. Estava cansada. Representava desde os cinco e tinha 23. Depois regressei, com uma peça que marcou a minha vida, “Joana D’Arc”, e nunca parei a não ser para ter os meus cinco filhos.
Trabalhou onde?
Numa loja de cortiça e fui secretária do director técnico de uma fábrica, o engenheiro Oliveira Domingos.
É verdade que a iam ver à loja?
Nessa altura já tinha nome e as pessoas conheciam-me. Quando lá iam ficavam sem palavras porque estava a servir ao balcão. Mas queria experimentar uma coisa diferente. Estive mais tempo na fábrica. Na loja não chegou a um ano.
Nessa altura não via teatro?
Não. Afastei-me mesmo. Tinha os meus colegas da fábrica. Fez-me bem porque conheci elementos de uma sociedade que não conhecia. Abriu-me os horizontes.
Representa desde os cinco anos. Quais são as primeiras memórias de teatro?
Tenho uma memória muito viva do teatro desmontável dos meus pais e da minha avó. Ela era excelente. Fazia tão bem o género cómico, o papel de travesti, como o drama. Vê-la deixava-me chorosa. Ficou--me a ideia de uma actriz extraordinária, que nunca veio a Lisboa porque para o meu avô era uma cidade de perdição.
Foi ela que a ensinou?
Não. Eu só a observava. Ela achava-me graça porque eu era muito petulante. Criticava-os e eles mandavam-me ver a peça para dizer o que pensava. Dizia-lhes o que não gostava e que deviam fazer assim ou assado.
Com que idade?
Com sete anos. Eles achavam graça, mas não me levavam nada a sério.
Nessa altura queria ser actriz?
Não. Nunca tive muito interesse em ser actriz. Porque a vida de quem fazia teatro nessa altura era de grande sacrifício e isso não me agradava.
Era dura de que forma?
O dinheiro era pouco. Nada era confortável num teatro desmontável. Havia sempre frio. Quando chovia muito não havia espectáculo. Era uma vida dura. As companhias itinerantes dessa época foram sempre maltratadas. Levavam o sonho às pequenas terras e nunca foram bem tratadas. Onde estivemos mais tempo foi no Alentejo. O meu avô comprou mesmo uma casa na Amareleja. Gosto muito do Alentejo, lá sinto-me descontraída.
Entrou para o Teatro Nacional com 13 anos. Lembra-se da primeira vez que viu Amélia Rey Colaço?
Sim, aquela senhora lindíssima, profundamente educada, uma bela actriz. Tenho saudades dela. Tratou-me sempre bem.
Recorda-se da primeira vez que ela lhe disse que tinha talento?
Ela não me ia dizer directamente. Comentava com amigos e isso ia parar aos ouvidos dos meus pais. Na noite de estreia teve um momento de ternura. Eu usava sempre dois laços e risco ao meio, mas a minha mãe tirou-os porque no primeiro acto estávamos todas deitadas em camas. Aquela querida senhora disse: “Então, a Eunice não tem os laços? Ela que fique com os laços.” Aí percebi que ela gostava de mim.
Como conseguiu entrar na peça?
Foi um tenor que os meus pais contrataram para os espectáculos que faziam nos arredores de Lisboa, o Sales Ribeiro, que sabia que precisavam de uma miúda no Nacional. Nessa altura eu cantava, não representava propriamente, e ele pressentiu que tinha jeito. Ela [Amélia Rey Colaço] chamou-me e ficaram comigo.
O que é que queria ser nessa altura?
Médica. Tinha a paixão da medicina. Quando ia visitar alguém adorava andar nos corredores, os cheiros.
Então foi o teatro que a foi buscar?
Sim. Continuei, fui para o Conservatório, fiz várias peças no D. Maria II, cinema.
Era muito diferente, o cinema?
Sim, não tinha a técnica de cinema, como ainda não tenho. Fiz 11 filmes, mas nunca me considerei uma grande actriz. O cinema fica como qualquer coisa que já fiz, mas os realizadores da actualidade não devem encontrar em mim um interesse tão grande porque não me convidam.
Na televisão sente-se mais à vontade?
Sim. As novelas são boas desde que tenhamos a sorte de ter um papel interessante.
O que prefere?
O teatro, a seguir novela.
Não tinha interesse pela vida de actriz. Quando é que se apaixonou pelo teatro?
A partir dos 27 anos com a “Joana d’Arc”. Foi o primeiro papel depois da minha ausência. Fui muito feliz e entre mim e a personagem havia uma junção. A partir daí o sucesso foi tão grande que me deram sempre papéis interessantes.
Quando começou os actores eram ainda mal vistos?
Eram olhados com uma certa distância, mas nunca me senti discriminada. Também fiz uma vida muito à parte. Gosto dos meus colegas, tenho uma boa ligação, mas sou a vara da minha vida, dos meus hábitos, da minha necessidade de solidão. Vivo só e sinto-me muito feliz. Talvez porque sei que tenho os meus filhos.
Nunca teve interesse pelo lado boémio?
Tive o meu lado quando era mais nova, mas não era boémio. Tinha sempre comigo uma grande família. Houve períodos mais à vontade, de jantar fora, de dançar.
Para onde?
Íamos a uma discoteca chamada Caruncho, no Lumiar. Estava na Companhia Portuguesa de Comediantes, no Villaret, o nosso empresário era o Raul Solnado. Trabalhávamos imenso, talvez por isso preci- sássemos de espairecer.
Muitas actrizes desistiam quando se casavam. Nunca pensou nisso?
Tive uma sorte enorme. Os meus quatro filhos são do segundo casamento e o meu marido era um homem que adorava o teatro, era o meu admirador número um. Por exemplo, tive uma peça muito difícil, “O Milagre de Anna Sullivan”, e foi ele que me ajudou. Houve um mal-estar entre o empresário, Vasco Morgado, e a minha colega e de repente ele ficou sem protagonista. Foi desesperado ter comigo para que o salvasse. Falei com o meu marido e ele respondeu: “A única coisa que podes fazer é meteres-te num hotel e não pensares noutra coisa.” Ele ficou com o pessoal que tínhamos em casa, a vigiar as crianças, e durante duas semanas estudei aquilo. Foi um êxito enorme.
O que ainda lhe falta fazer?
Realmente já fiz tudo. Mas ainda fico fascinada com os grandes textos.
Como vê os cortes da cultura? O que vai acontecer?
Sou uma mulher de esperança e já vivi coisas bem piores. A minha geração lutou com o pior dos demónios, a censura. Talvez esse facto faça com que não fiquemos assim tão aterrados. Preocupa-me sim a quantidade de jovens actores que saem das escolas, porque não têm lugar. A cultura vive com muito pouco, precisava de viver com mais. Mas tenho a certeza que o secretário de Estado da Cultura, aliás qualquer deles, gostaria de dar a mão a muita gente mas é uma questão de impossibilidade.



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