A arquitectura hitchcockiana – como a de “Janela Indiscreta”, de 1954 – congrega multidões à volta do cinema
epaNão há só uma forma de fazer cinema, uma arquitectura única para assinar um filme. Mas há uma, sem margem para dúvidas, que leva os espectadores às salas
A arquitectura hitchcockiana – como a de “Janela Indiscreta”, de 1954 – congrega multidões à volta do cinema
epa
Se pusermos um homem a correr por entre a multidão na cidade e depois uma mulher que à porta de um comboio olha ao longe por cima do movimento da gare da estação e aguarda, já não é mau porque estabelecemos uma relação entre dois pólos fisicamente distantes. Esta justaposição de situações distintas e relacionadas desperta-nos o interesse porque exige um desfecho que desconhecemos; e aguardamos, com alguma inquietação, o que se segue, enquanto estabelecemos inter-relações com o conhecimento que temos da vida e dos filmes. E buscamos nas expressões histriónica e corporal do homem e da mulher a leitura do seu estado de espírito, de forma a descartarmos hipóteses para justificar o que vemos e elegermos outras.
Mas se além disso fizermos acontecer o apito do comboio na estação, que o homem a correr por entre a multidão ouve ao longe e mais o faz correr, aumentamos a urgência e subimos de imediato o nível de envolvimento emocional do espectador que tenderá a empenhar-se em que o homem chegue a tempo ao comboio. Se ainda, e para além disso, voltarmos à estação de comboios no momento em que se ouve um novo apito, mostrarmos um pré-arranque do comboio e a mulher à porta, que atenua a ansiedade e mais fixamente olha para as portas de entrada ao fundo, sobre o movimento da gare, provocamos o desespero no espectador. Este começa a antever a impossibilidade do homem chegar a tempo à estação, sentimento que reforçamos ao mostrar novamente o homem a correr desesperadamente com os olhos fixos no edifício da estação ainda ao longe: os pés que mal tocam as pedras da calçada; uma delas que sobressai mal encaixada; os pés que se aproximam velozmente e acabam por tropeçar; o homem entra em desequilíbrio e começa a cair em câmara lenta; os braços pelo ar e as mãos que tentam agarrar-se a nada, sempre em câmara lenta. Vê-se perfeitamente a expressão que progride da surpresa para o desespero, logo seguido pela raiva, num longo berro, até embater no chão com violência. Do bolso salta uma pistola que rodopia e ressalta pela calçada, os transeuntes viram-se surpresos para o homem, insinuam um gesto de ajuda, logo interrompido pela visão da pistola no chão, os olhos do homem no chão fixos na estação ao longe destilam ódio, a mão lançada para a pistola que não alcança, um último apito do comboio no ar, na porta do comboio que sai da estação. A expressão da mulher desanuvia-se, larga um longo suspiro, o prenúncio de um sorriso nos olhos mais do que nos lábios, na face uma lágrima desliza, a mulher vira-se e entra no comboio, a porta fecha-se, a composição afasta-se na estação, o movimento de passageiros para um novo comboio reanima-se na gare.
Nesta narrativa cinematográfica, o espectador sentiu, e depois percebeu, o desiderato primeiro da cena: afinal nem tudo é o que parece. E sentiu-o da mais violenta e indelével forma, porque experimentou emocionalmente a dimensão do erro de acreditar nas aparências, quando subitamente percebeu que lutara “ao lado” das personagens por uma paixão que não existia e que se tinha identificado com o homem que, afinal, tinha o objectivo de eliminar a sublimação do mais primário anseio do ser humano: o amor. Para se chegar aqui, partiu-se do que se queria dizer, o significado, e manipulou-se o significante de forma a estabelecer uma estrutura – a que prefiro chamar de arquitectura do filme – que ganhou profundidade pela manipulação dos elementos de gestão de inter-relação entre os dois pólos – o homem e a mulher – num espaço/tempo psicológico estabelecido pelo apito do comboio e fisicamente descoberto quando a câmara mostra a distância a que está a estação.
Esta arquitectura, a que me permito chamar hitchcockiana (Alfred Hitchcock, 1899-1980), não é a única forma de fazer cinema. Mas é, sem que haja espaço para dúvidas, a que leva os espectadores a encherem as cadeiras que se estendem à frente dos ecrãs. Realizador


Comente este artigo