O i esteve no Estoril, no lançamento da autobiografia de Cayetana, a mulher com mais títulos nobiliárquicos do mundo
Estamos no Estoril – onde em 1956, segundo reza a história, o rei Juan Carlos matou acidentalmente o seu irmão mais velho, Alfonso – e está na hora de apresentar o livro “Eu, Cayetana”. A duquesa de Alba, que mal consegue andar, é levada para a sala onde a maior parte dos convidados já estão sentados. Enquanto os funcionários da editora abrem caminho, uma espanhola bem arranjada pergunta-lhe o que achou de um restaurante. Ao que o i apurou, a castelhana excêntrica e habituée das revistas cor-de-rosa esteve no Aqui Há Peixe e disse ter gostado da comida.
Provavelmente dada a dificuldade de Cayetana em falar, a apresentação do livro é feita pela duquesa do Cadaval. No entanto, é-nos dito que a escolha se deve “às ligações que tem à casa de Alba” e por ser “uma pessoa da escrita e dos livros”. Perdoem-nos a honestidade, mas Diana parecia estar a ler uma recensão de um livro no liceu. Enquanto fala, Cayetana, que se está nas tintas para o que está a acontecer, tapa o rosto com uma folha. Perguntamo-nos se estará a proteger-se dos flashes ou se terá dificuldade em ver ao longe.
Terminada a apresentação chega o momento do beija-mão, das fotos das socialites para o Facebook e das exibições de proximidade com a realeza. Cayetana, ou a pessoa com mais títulos nobiliárquicos do mundo, é de novo levada para outro sofá e todos, principalmente as mulheres, fazem fila para chegar a ela. Sentada e um tanto alheada da histeria que a rodeia, reparamos que tem o seu quê de rock star, de quem sempre fez o que lhe deu na real gana. No meio da confusão e da estranheza que foi a apresentação do seu livro, foi essa a imagem que ficou.
Mas voltemos ao início do evento, e aqui nada como um bom aliado para sobreviver a cerimónias com a realeza. E tal como as circunstâncias variam também são diferentes as pessoas em quem nos devemos apoiar. Se aquando da visita do príncipe Carlos, devido à correria que foi, encontrámos nos senhores do catering os nossos melhores amigos, a visita da duquesa de Alba a Portugal exigiu uma escolha diferente.
À medida que os convidados para o lançamento do livro, cuja segunda edição já está esgotada em Espanha, iam chegando, fomos sendo confrontados com um problema que poderia ter inviabilizado a reportagem: “Quem são todas estas pessoas?” Felizmente apareceu-nos um anjo da guarda do jet set, Maria Dulce Varela, editora durante anos da extinta revista “Olá Semanário!” (uma versão mais pobre da espanhola “¡Hola!”).
Maria Dulce – que refila, e muito, com a organização do evento – vai-nos explicando, enquanto os convidados vão posando para os fotógrafos, quem são e quais os factores de peso nas suas árvores genealógicas.
Há casacos de peles com fartura e quem ganha o título nesta luta é uma senhora vestida com um manto de chita verdadeiro, quase até aos pés, e que traz, claro, um chapéu a fazer pendant. Pensamos que se a PETA ali entrasse a festa acabava e se surgissem as suas moças nuas lá se ia o protocolo. Verificamos que se há coisa que une os convidados é a preocupação excessiva com os detalhes – perdem tempo a fazer sorrisos ensaiados para as câmaras, a deixar transparecer um ar atento e interessado ou a estar sentados como mandam as regras de etiqueta.
“E esta, sabes quem é?”, pergunta Maria Dulce. “É a duquesa do Cadaval.” Vem acompanhada pelo marido, está grávida, e, pelo que ouvimos, o parto será em breve. Vem discreta, vestida de preto e com um casaco de veludo, meio marroquino meio à toureiro, com bordados vermelhos, algo que, dada a ostentação, é de louvar.
As pessoas vão entrando e o nosso anjo da guarda vai fazendo as respectivas identificações – “esta é a sobrinha-neta do Humberto Sabóia”, “aquela ali é a duquesa de Palmela”, “o outro, tenho o nome debaixo da língua, já te digo”. Entre os convidados estão também Maria Filomena Mónica, Bárbara Guimarães ou Maria Barros, do programa “Querido, Mudei a Casa”, que, dado o bronzeado, ou esteve no México ou passa demasiado tempo no solário.
A sala já está composta quando por fim aparecem Cayetana Fitz-James Stuart e o marido, Alfonso Díez – plebeu, 24 anos mais novo, um ar fresco que parece confirmar as muitas desconfianças no que toca às suas intenções com o recente matrimónio.
Ao contrário dos convidados, a duquesa vem vestida com roupas informais, embora carregue nos adereços. Traz um vestido preto com florinhas, meias de renda, uma pulseira no tornozelo esquerdo, que é uma das suas imagens de marca, e outra no pulso direito, avistada há tempos na Pull & Bear. No meio dos encontrões entre fotógrafos e jornalistas (que permitem que o gelo entre desconhecidos se quebre), ficamos a saber através de um correspondente da agência EFE que em Espanha não faltam fãs à duquesa de Alba: “As pessoas criticam-na, mas a verdade é que quando ela está na televisão ninguém muda de canal.”
Sentada no sofá, antes da apresentação da autobiografia, Cayetana, de 85 anos, é bombardeada com flashes e pede que não sejam utilizados. “Tenho os olhos muito sensíveis”, explicou mais tarde. Em portunhol, os jornalistas fazem-lhe perguntas, mas a duquesa mal consegue responder. Há quem diga que a dificuldade em comunicar se deve ao excesso de operações plásticas, outros apontam para a idade avançada. A única coisa que nos vem à cabeça é que a Madonna ou Lady Gaga, pelo andar da carruagem, poderão vir a tornar-se versões plebeias da duquesa.
Ainda com os jornalistas de armas apontadas, o telemóvel de Alfonso Díez toca. As atenções voltam-se para o senhor que, depois de ter sido funcionário no ministério espanhol do Trabalho, vai agora abrir com a irmã uma loja de antiguidades em Madrid. Perguntam-lhe como é estar casado com Cayetana. “Não é fácil viver com uma pessoa tão especial”, respondeu. “Já se disseram tantas coisas sobre o assunto! Algumas – poucas – são verdadeiras; outras – muitas – são falsas; em muitos casos são simples disparates”, escreveu no primeiro parágrafo do seu livro, Cayetana, a duquesa mais cool que já vimos.



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