Protagonista e realizador de “Os Descendentes” à conversa sobre os dilemas do filme que hoje estreia e as interrogações de cada um
O que é acontece quando se junta Alexander Payne, realizador, e George Clooney, actor, numa sala? Elogios, carinhosos “filho da mãe” e algumas revelações inesperadas. George Clooney não gostou de fazer de Batman e Payne não gosta do filme “O Indomável Rebelde”, com Clint Eastwood. Há muitos anos que o realizador queria trabalhar com Clooney e desta vez conseguiu. “Os Descendentes” estreia hoje e Clooney ficou com o papel principal com uma condição imposta por Payne: “Não te quero com esse [bom] aspecto.”
Quando é que vocês se conheceram?
Alexander Payne: Em 2003.
George Clooney: Com “Sideways”.
AP: Tu chegaste na tua moto...
GC: Almoçámos bem e falámos, falámos. Depois levantámo-nos da mesa e tu disseste “Não tenho a menor ideia do que estou a fazer”. Depois levantei-me e disse “Não tenho a menor ideia do que ele está a fazer”. E ele foi-se embora. Depois fiz uma boneca e espetei-lhe uns alfinetes. Foi resultando durante uns seis ou sete anos. Há uns dois anos, estava em Toronto a fazer dois filmes, e encontrámo-nos num restaurante italiano simpático, jantámos lindamente e ele disse-me que me ia mandar um argumento para ver o que eu achava. Quase respondi que sim mesmo antes de ler.
Nesse primeiro encontro explicou logo a história, Alexander?
AP: Sim, contei-lhe a história e perguntei--lhe se estava livre na Primavera. Foi mais para ele saber que eu ia querer que ele trabalhasse comigo. Isto foi em Setembro. Em Novembro mandei-lhe o argumento e em Março já estávamos a rodar.
GC: Eu devia estar a fazer “O Americano”. Quando nos encontrámos estava na melhor forma em que algum dia estive e ele disse-me logo “Olha que quando fizermos o filme não te quero com esse aspecto…”
AP: Foi só engordar um ou dois quilos e deixar crescer o cabelo.
O que é que havia no George que o tornava adequado para o papel?
GC: Além do cabelo...
AP: Apesar de não termos trabalhado juntos em “Sideways”, há muito tempo que queria trabalhar com ele. Palpitava-me que nos íamos entender. Toda a gente que trabalha com ele o acha encantador.
Quando leu a parte do Matt pensou “Estou a reconhecer este tipo, acho que consigo fazer este papel”?
GC: Quando leio os argumentos penso mais coisas do tipo “Acho que posso tentar fazer isto”. Quando fiz o “Solaris” com o Steven Soderbergh decidi escrever-lhe e disse-lhe: “Não sei se sou capaz de fazer o papel, gostava de tentar, mas só se achares que sou capaz.” Ele respondeu-me que sim, mas acho que as pessoas precisam desta distância, não se pode ter estas conversas cara a cara. Desta vez foi mais ou menos assim. Tive oportunidade de ler o argumento, a correr, e de digerir a história. E percebi que era uma coisa que nunca tinha feito. Com as descrições dos seus papéis aparecem muitas vezes coisas do tipo “numa personagem que se afasta dos seus habituais papéis de galã”, mas na realidade raramente o vimos fazer de galã. O que mais fez foram homens em crise de meia-idade…
GC: O mais engraçado é as pessoas dizerem: “É estranho, mas ele até não está mal neste filme…” Quando é que diabo vão parar de ficar espantados? Acho que há preconceitos contra mim por causa de algumas escolhas menos boas que em tempos fiz na minha carreira. Vou sempre continuar a ter aqueles esqueletos no armário. Depois há os que dizem que faço sempre de mim próprio.
AP: Alguma vez foste mau num filme?
GC: Sim, já fui mau nalguns filmes. Fui mau em “Batman & Robin”. Não era um bom filme, mas eu fui mau. Também não fui especialmente bom no “Pacificador”. Falhei, não percebi algumas coisas. Ainda não tinha feito muitos filmes.
AP: Mas já lá vai muito tempo. Há muito tempo que ninguém atira “O Indomável Rebelde” à cara do Clint Eastwood...
GC: Adoro esse filme! Vi-o há pouco tempo. Com a actriz de “Ensina-me a Viver”...
AP: Ruth Gordon. Ela entra nesse filme? Vou deixar de gozar com ele...
O que é que aconteceu no início da sua carreira? Fez o que achava que devia fazer em vez do que queria fazer?
GC: Fui um actor tarefeiro durante 12 ou 13 anos. Fiz dezenas de pilotos e de séries de televisão. Depois, de um dia para o outro, deram-me a oportunidade de fazer o primeiro filme da Dreamworks ou de ser Batman. Aprendi que se fizesse filmes como aquele teria de me responsabilizar não só pelos meus papéis mas também pelo próprio filme. Decidi parar de trabalhar um ano. Não fiz filmes nem fiz o “Serviço de Urgência”. Só li argumentos. Depois apareceu o “Romance Perigoso”. Nessa altura pensei: “De hoje em diante só tenho em conta o argumento e o realizador.” Antes nunca tinha feito isso.
AP: Percebeste que a tua carreira só ia durar se fizesses bons filmes.
GC: É impossível ser mau num bom filme. Por insignificante que seja o papel. Quando somos tarefeiros não queremos saber da qualidade do filme, só nos interessa ter trabalho. Mas temos de pensar de outra maneira. O meu primeiro filme a sério foi “Aberto até de Madrugada”, que foi giro. Era o Quentin Tarantino, que tinha acabado de fazer o “Pulp Fiction”, o Robert Rodriguez... Depois tomei algumas decisões erradas. Mas o “Batman & Robin” fez 250 milhões de dólares. Tive de fazer uma digressão promocional pelo mundo. Era um mau filme e aprendi a falar de um filme mau dando a volta à coisa. Aprendi a levar uns murros no queixo. Mas nunca teria feito o “Syriana” se não tivesse feito o “Batman & Robin”.
Lêem as críticas nos jornais?
AP: Algumas. É difícil evitar.
GC: Algumas.
AP: Agora há tanta coisa online. Toda a gente publica o que lhe dá na bolha. Quem é que quer saber daquela trampa? Mas interessa-me saber o que dizem os bons jornalistas, os bons críticos. Na “New Yorker”, há uns tempos, li uma peça sobre a Pauline Kael. No princípio da carreira dela, um dia, numa festa que tinha sido organizada pelo Sidney Lumet, alguém lhe perguntou qual era o trabalho do crítico de cinema. Ela apontou para o Lumet e respondeu “É assegurar que ele continua honesto, que não sai dos carris”. Foi uma coisa assim. Pode ser raro isto acontecer, mas a verdade é que aqui e ali aproveito ideias dos críticos.
Quer enquanto actor quer enquanto realizador, continuam a sentir o mesmo nervosismo e o mesmo receio que quando eram mais novos?
AP: Sempre fui um tipo relativamente confiante, mas com nervosismo. Todos os dias quando vou para o local de filmagem tenho de passar por aqueles tipos musculados, de barbas, com walkie talkies [Risos.]
GC: Estou para ver onde é que queres ir com isso...
AP: Antes de começar penso: “Será que me vou aguentar? Que vou conseguir a cobertura de que preciso? Os actores serão capazes?” Mas já aprendi a dominar-me.
GC: É uma forma de arte interessante porque… Bom, suponho que o mesmo aconteça com a arquitectura… São precisas centenas de pessoas e milhões de dólares para fazer um filme. Mesmo assim acho indiscutível que seja arte porque é matéria de opinião. Por isso tenho a impressão que para os realizadores as críticas são mais dolorosas. Um actor trabalha três, quatro, seis meses e depois salta para outro filme. Já um realizador investe meia dúzia de anos de vida que podem ser atirados para o lixo por dois ou três críticos.
Como vê o Matt, tanto enquanto personagem como na história em geral?
GC: É uma história de crescimento, de formação, só que o tipo que está a crescer por acaso tem 50 anos. É um tipo que de repente percebe todas as traições que o rodeiam – da mulher aos filhos, na questão das terras –, percebe que é tão responsável como qualquer outra pessoa por estar ali. Depois tem de se perdoar a ele mesmo.
O filme também fala de luto. Lembra-se de quando teve de enfrentar pela primeira vez a ideia da morte?
GC: Tive uma educação católica no Kentucky. Aí a morte é um caixão aberto. É uma coisa muito real, muito concreta. Na realidade todo aquele ritual me parece um pouco bárbaro, mas percebo a teoria, a necessidade de os vermos mortos. Não me agrada que seja assim porque a última imagem que tenho dos meus avós é a dos caixões abertos, o que não se assemelha nada ao que eles foram. Lembro-me do meu tio George, de quem era muito próximo, de estar de mão dada com ele quando morreu. Foi uma coisa que me mudou. Ele só dizia “Que pena, que pena…” Mas tinha vivido. Em jovem tinha sido uma estrela do basquetebol, foi piloto de bombardeiros e foi manager da minha tia Rosemary. Andou com a Miss America. Lembro-me de ter pensado “Até chegar aos 68 ou aos 70 anos vai ser acelerador a fundo. Pelo menos se for atropelado amanhã já posso dizer que aproveitei estes 50...”
E no seu caso, Alexander?
AP: A ideia de morte pela primeira vez? Quando o meu gato morreu e depois quando morreu o meu avô. Uma coisa que tive de aceitar em relação a mim é que nenhuma pessoa me vai fazer chorar tanto como um gato. [Risos.] Andei anos e anos a sentir-me culpado com isto… Mas agora já sei que há outras pessoas assim.
Foi difícil trabalhar com crianças em papéis tão complicados? Como é que os pôs à vontade? E como é que conseguiu que eles fizessem o que queria deles?
AP: Eles apareceram todos para aí duas semanas antes de começarmos as filmagens, pudemos conviver um pouco. Levei--os aos locais onde íamos filmar para eles ficarem mais à vontade.
GC: A Shailene foi extraordinária. Conseguiu dominar completamente a mais pequena [Amara Miller]. Foi ela que criou isto. Para mim foi fácil, foi chegar e andar.
Há uma cena fabulosa com o Matt, quando ele diz realmente à mulher o que pensa. Como consegue invocar uma emoção tão poderosa?
GC: É difícil. Sentia muito a presença de Pattie [Hastie], a actriz que faz a minha mulher, que está em coma. Estava muito consciente de que tinha de ter cuidado para não gritar. Temos de ter consciência das distâncias. Os actores tentam chorar, as pessoas tentam não chorar. Os actores tentam ficar furiosos, as pessoas tentam manter a calma. Sempre que estamos em posição de ter de fazer uma coisa, o melhor para os actores é tentarem não a fazer.
Como é que se vêem um ao outro?
GC: Mais ou menos com a mesma idade...
AP: Uns quatro meses a menos...
GC: Eu diria que, pondo de parte o que ele representa no mundo do cinema, que não é pouco, considero-o um bom amigo.
AP: Há anos que me diziam que era óptimo trabalhar com o George, o que agora posso confirmar. Por outro lado, ele faz tudo irritantemente bem. Faz filmes, interpreta filmes, faz trabalho humanitário, é um bom amigo, um bom atleta, sabe gerir a carreira dele. Considero-o um dos seres humanos mais completos que já viveram.
GC: Caramba, isso é um elogio!
AP: E é sincero. Filho da mãe...
GC: Ele só está a dizer isso porque veio a um jogo de softball e fiz quatro home runs.
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