Denis Avey
D.RDenis Avey trocou de lugar com um judeu de Auschwitz e testemunhou o Holocausto na primeira fila. Com 92 anos, conta a sua história
Quando ouvimos a história de um prisioneiro de guerra que troca de lugar com um judeu de Auschwitz achamos que das duas uma:ou o senhor era suicida ou sofria de perturbações mentais.Nenhuma das duas é verdade. Osoldado britânico Denis Avey era prisioneiro de guerra nas redondezas de Auschwitz e trabalhava numa fábrica alemã com os judeus. Testemunhou as atrocidades dos nazis e quis ver o que se passava no campo de concentração. Passou lá uma noite e conseguiu regressar. Enquanto prisioneiro, fez tudo o que pôde para ajudar os judeus. Quando a guerra acabou não quis voltar a falar do que viu porque ninguém lhe ligava. Com 92 anos contou a sua história ao jornalista Rob Broomby e juntos publicaram "A Última Testemunha de Auschwitz". Denis Avey falou com o i por email.
Porque só escreveu as suas memórias agora, passados mais de 65 anos?
Já me tinham sugerido antes, mas achava que não tinha nada de diferente para contar. Era apenas mais um prisioneiro de guerra. Mudei de ideias quando o jornalista da BBC Rob Broomby conseguiu descobrir algo novo – o homem que ajudei, um judeu chamado Ernst Lobethal, que sempre pensei que tinha morrido, afinal tinha sobrevivido ao Holocausto. OErnst, com quem troquei de lugar, deixou a Europa, foi viver para os Estados Unidos, e nunca se esqueceu de mim. O jornalista depois descobriu a irmã do Ernst, a Susanne, e teve acesso a um vídeo da Fundação Shoah com o testemunho do Ernst. Tudo isto deu nova dimensão à minha história.
Como conheceu Ernst?
Conheci-o enquanto trabalhava na fábrica IG Farben, que foi construída pelos escravos do campo de concentração Auschwitz III e que era guardado pelas SS. Depois de ter sido capturado fui para o campo de prisioneiros de guerra, que ficava perto dessa fábrica onde trabalhavam os judeus. Quando os vi pela primeira vez com os pijamas às riscas não percebi bem quem eram. Pareciam sombras, mas cedo entendi que não era um campo de trabalho normal. Depois transferiram-nos para mais perto de Auschwitz, para um campo chamado E715, que era na periferia da IG Farben e do campo Auschwitz III. Estávamos proibidos de falar com os judeus mas enquanto trabalhávamos lá íamos conversando.
Foi nessa altura que começou a falar com oErnst?
Sim, ele contou-me que a irmã dele, a Susanne, tinha escapado para Inglaterra antes da guerra. Como ainda podíamos escrever aos nossos familiares, já que éramos prisioneiros de guerra, escrevi uma carta à minha mãe e pedi-lhe que contactar a irmã do Ernst. Ela explicou à Susanne que a única moeda de troca em Auschwitz eram os cigarros e pediu-lhe que lhe desse o maior número possível e que os faria chegar até mim pela Cruz Vermelha e depois seriam entregues ao irmão. Durante meses ele teve cigarros que podia trocar por algo mais importante, como por exemplo sapatos. Foram os sapatos que lhe salvaram a vida quando os campos foram abandonados no Inverno de 45 e os judeus fugiram de lá.
Mas quando chegou ao campo sabia o que se passava lá?
No início não, mas depressa percebemos que eles eram gaseados e reduzidos a cinzas. Lembro-me que um dia perguntei pelo Franz, que nunca mais tinha aparecido, e os judeus responderam-me "foi pela chaminé". Era assim que eles falavam. Apesar de o nosso campo estar longe, sentíamos o cheiro do crematório 24 horas por dia. Além disso, todos os dias batiam nos prisioneiros à nossa frente.
Como conseguiu trocar de lugarcom oErnst?
Planeei tudo durante semanas. Na verdade, eu conhecia Ernst como Hans, porque ali ninguém tinha o nome verdadeiro.Eu era o "Ginger", por causa do meu cabelo ruivo. Tornámo-nos amigos e começámos a planear trocar de lugar durante uma noite.Queria ver o que se passava emAuschwitz e ele dormiria no campo dos prisioneiros ingleses. Tínhamos a mesma estatura, isso ajudava, e eu aprendi a andar como eles, a falar como eles. A troca era simples: minutos antes de sairmos da fábrica, mudávamos de roupa e íamos para a parada. Consegui subornar um dos guardas, que os judeus consideravam menos violento, para não me criar problemas. No lado britânico, dois amigos meus esconderam-no e deram-lhe comida.
Toda a gente já lhe deve ter perguntadoporque fez uma coisa tão perigosa.
Sabia que chegaria o dia em que alguém teria de responder por aquelas atrocidades. Os judeus diziam-nos:"Por favor, se conseguirem chegar a casa, contem o que se passou aqui." Mas isso não era suficiente para mim. Sentia que era meu dever tentar ver mais e testemunhar pessoalmente. Naquele tempo não sabíamos quanto tempo a guerra demoraria, nem o que se estava a passar. Como era prisioneiro, sabia que a minha revolta tinha de ser canalizada para alguma coisa.
Sempre foi aventureiro?
Vamos pôr as coisas assim:sou ruivo e tenho um temperamento a condizer. Sempre fui um boxeur e fervia em pouca água. Mas não há nada de corajoso no meu tempo em Auschwitz. Aquilo era uma obscenidade do início ao fim. Era o inferno.
Que memórias guarda desses tempos?
Acho que nunca me esquecerei da vez em que perdi a cabeça e gritei com um guarda. Ele estava a bater num miúdo judeu e a obrigá-lo a estar de pé. De repente bateu-lhe na cabeça e o sangue começou a jorrar sem parar da cabeça do miúdo. Mesmo assim, o guarda continuava a bater-lhe e a obrigá-lo a ficar de pé. Não aguentei e insultei o guarda. O resultado disso foi que ele me bateu num olho. Depois do fim da guerra, acabei por perder esse olho. Mas não consegui ficar calado. Até hoje não me esqueço da cara desse miúdo.
Isso foi o mais difícil de esquecer?
Sim, isso e a vez em que vi um bebé ser morto por um oficial das SS. Estava à distância, mas não tenho dúvidas do que aconteceu. Tinha acabado de chegar um grupo de judeus ao campo e uma das mulheres tinha um bebé ao colo que não parava de chorar. O guarda das SS bateu--lhe até ele se calar. Coisas destas nunca se esquecem.
Quando regressou foi difícil falar sobre o que aconteceu?
Quando os soldados abandonaram o campo começaram as marchas da morte. Caminhávamos por cima de cadáveres, com frio. Consegui atravessar a Europa Central e cheguei perto de Nuremberga, onde encontrei as tropas americanas. No início ninguém sabia nada dos campos de concentração, e pouco depois nem queriam ouvir os prisioneiros traumatizados por trabalharem nos campos alemães. E pior, muitos diziam que tínhamos ajudado o inimigo, o que era um insulto. Ninguém acreditava no que tinha visto em Auschwitz, por isso deixei de falar disso. Tive stresse pós--traumático, tuberculose sistémica e fiquei internado 18 meses. A seguir à guerra as pessoas queriam heróis simples, não traumatizados.
É importante continuar a falar do Holocausto?
Fico desesperado ao pensar que as pessoas podem esquecer o que aconteceu. É uma das razões pelas quais aceito sempre ir a escolas falar. Ainda existem pessoas que duvidam que o Holocausto tenha acontecido e até minimizam o que se passou. Eu vi os prisioneiros judeus com os meus próprios olhos. Vi a brutalidade e nunca a vou esquecer. Muitas vezes achei que o Grande Arquitecto nos tinha virado as costas. Aquilo era o inferno na terra.
Voltou a Auschwitz?
Não. Nunca conseguiria lá voltar. Muitas televisões já me convidaram para lá ir, mas com 92 anos é muito tarde. Tenho um enfisema pulmonar, o que faz com que seja impossível voar, e batalho com uma colostomia, e com esta idade tenho muitas dores nas costas. Como digo, não há futuro na velhice.
Como tem sido recebido o livro?
Muito bem. O livro tocou muito as pessoas. Quero que não esqueçam o que aconteceu. Apesar de dizerem que isto não vai acontecer outra vez, eu não tenho a certeza.



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