Recuperámos a entrevista que deu ao i em Abril de 2010 e revisitámos a diva (que morreu no sábado) entre cigarros e tragos de grogue.
À conversa num hotel de Lisboa, no ano passado, dizem-lhe que o timbre se encolhe. Que a voz que povoa o último álbum, "Nha Sentimento", editado em 2009, encorpa as coladeras de outra maneira. "Deve ser de fumar tanto", justifica numa cumplicidade de longa data com o implacável SG Gigante. Perguntam-lhe quantos maços esvazia por dia, no crioulo que enceta e fecha o diálogo, por vontade da própria. "Não te quero dizer porque a Julieta [assistente de Cesária] está aqui. Depois digo-te ao ouvido, quando estivermos só nós os dois, mas não escreves."
Cize, alcunha escrita entre amigos nas ruas do Mindelo, onde o seu blues começa a ganhar cor, gosta de coisas simples. Na mesma entrevista, dispensa coroas quando se fala de um lugar no trono conquistado à revelia de privilégios sucessórios. Rejeita comparações com outras gargantas talhadas num virtuoso céu de desventuras, como a de Billie Holiday. "Não sou nenhuma rainha da música de Cabo Verde. Sou uma das cantoras de Cabo Verde. Mais nada. Digo consciente. Somos muitas".
Sobram os anéis, as pulseiras, os fios, os penteados que desafiam a paciência das mãos ao longo de três horas de enfeites dignos de um palco. E a simplicidade de quem tranca o choro a sete chaves sobre um crescimento sinuoso, aleijado nas lições da escola, servido em bandeja de papel pardo. "Não fiz a terceira quanto mais a quarta classe!" Tristeza jamais pagaria a dívida de todas as plateias com uma voz que nunca precisou de aulas, mesmo quando andou dez anos escondida de todos, quando o azul desse blues escureceu por completo. Que se apoia em plantas nuas numa singularidade com resistência de crosta. "Não me mexo em palco? Tenho os pés cheios de calos! Só se dançar com as mãos".
O PRIMEIRO EMBALO DAS MORNAS
Não há como descansar o corpo, como selar os ouvidos, como travar a verbo cantado. A música oferece um abraço inescapável a partir do Lombo, bairro de pergaminhos duvidosos. Cesária nasce a 27 de Agosto de 1941 no Mindelo, ilha de São Vicente, palco das praças onde ao ar livre enxota tristezas com a voz; voz pura que aos 16 anos contagia o público dos bares e hotéis da ilha. Mal completa vinte anos já desfia amores em cacos e o isolamento daquele bocado de terra, registos de melancolia reeditados em finais de 2008, com o título "Rádio Mindelo".
O pai, Justiniano da Cruz Évora, toca cavaquinho, violão e violino; o irmão, Lela, saxofone, e entre as influências conta-se o mais emblemático compositor cabo-verdiano, B. Leza, tornado padrinho de afectos quando aos sete anos a morte do patriarca Évora cala a parafernália de instrumentos e deixa cinco irmãos órfãos. A mãe, dona Joana, cozinha fama entre os tachos. Os petiscos servem o orfanato onde garante um lugar a Cize, que aguenta apenas três anos naquele lar emprestado. "Não existe ninguém no mundo, não existe ninguém igual à minha mãe".
Chega a viver com a avó, que fora educada por freiras, mas nem a "católica convicta" se maravilha com as desmesuras da moral. A doutrina das tascas do Mindelo e os cálices de grogue esperam sedentos por ela. O néctar ardente de cana-de-açúcar, predilecção de uma carreira, há-de provocar estragos, até ao desmame, que se adiantou ao vencimento de cláusulas de contractos. "Deixei de beber em 1994. Há quem não acredite? Se não acreditam é problema deles […] Está escrito que tenho de ter conhaque no camarim. Tenho lá as garrafas. Ora abro, ora ofereço aos amigos".
Do Monte Sossego para a Belavista, da Belavista para a Ribeirinha. Os arredores do Mindelo não escapam ao destino sem destino especial. Em 2010, a insónia cansa-se menos que as solas dos pés traquejados. A idade continua a girar quilómetros sob um cobertor de estrelas. "Sou de andar em noitadas. Tenho um condutor e só lhe digo: vamos embora. Ando aquilo tudo".
QUEDA E ASCENSÃO
A vida entre 75 e 84 não é uma cama de nuvens para Cesária. Em 75, os revolucionários do PAIGC preferem a identidade do funaná ao fatalismo do compasso das mornas. "Vi que na minha terra nada caía do céu". A independência da nação coincide com o período negro que se atravessa no caminho, encerado pelo gosto do álcool, tragado em perigosos excessos. "Saturei-me e disse: já não canto mais, não vou a lado nenhum. Ficaram preocupados. Deram--me por doente, até morta."
Em 1985 sai pela primeira vez de Cabo Verde. Vem a Portugal gravar um disco da Organização das Mulheres de Cabo Verde e encanta madrugada dentro ao sabor de cachupa na extinta Tilina, casa em São Bento. Antes, o compositor Frank Cavaquinho leva gravações suas para a Holanda, onde saem os primeiros singles. Segue-se uma gravação do segundo disco para o comerciante João Mimoso, sem que a vista estrábica da diva enxergue recompensa em escudos. Em 1987, quando canta para Bana no seu restaurante, aparece Djô, ou José da Silva, o produtor que se torna seu manager numa aliança de mais de vinte anos, com o convite para a levar para França. O talento que passava despercebido das grandes luzes desponta entre as comunidades cabo-verdianas e segue ligeiro para o mundo inteiro. "O meu sucesso começou em França. Não me lembro bem qual foi o primeiro pé que pus em França. Mas parece-me que foi o primeiro [risos]". Em 1988 grava "La diva aux pied nus", álbum aclamado pela crítica.
Depois da sua explosão na cena francesa a partir dos anos 90, Cesária conduz um trajecto exemplar, testemunhado pelo escaparates da world music. A fama internacional chega pelos seus 47 anos, depois de editar "Miss Perfumado", em 92, na sequência de "Mar Azul", uma montra do som da viola e do cavaquinho decorada pelo génio da música cabo-verdiana Paulino Vieira. A bandeira mais vibrante de Cabo Verde, aplaudida definitivamente como "Diva dos Pés Descalços", acaba por fixar residência em França. Canta com Caetano Veloso e Marisa Monte, trabalha com Emir Kusturica e Linda Rondstadt. 2003 traz-lhe um Grammy da América e um prémio Victoire de França pelo álbum "Voz d’Amor".
Em 2008, durante uma actuação em Melbourne, na Austrália, uma cãibra na mão esquerda manifesta a sentença de um AVC. No final, segue para o hospital. "Não me assustei. Encarei com normalidade. Quase não senti. Dou a Deus graças para não voltar a sentir o mesmo, porque se agora voltar leva-me de vez". O ritmo dos espectáculos abranda. No ano seguinte, é condecorada pelo presidente Nicolas Sarkozy com a medalha da Legião de Honra. Para a História ficam lotações esgotadas no Olympia, Carnegie Hall, Hollywood Bowl ou Canecão.
AOS SEUS AMORES
O espírito de combate não desbarata lágrimas por homens. "Se me morrer alguma pessoa, principalmente de família. Ou o desaparecimento de uma pessoa muito amiga. De resto, não trago tristeza comigo". Deixa um coração com Sôdade disfarçada; um coração em pára-arranca imune a queixumes. Deixa filhos, netos e bisnetos das voltas e curvas que a vida desenhou.
Engravida aos 17 anos de um maquinista de um barco chamado Santo Antão, que viera de Lisboa, e que acompanha em passeios e serenatas ainda movidos a gasosa. Eduardo, o primeiro de três irmãos, uma delas falecida, vivera até hoje com a mãe. Cize recorda o pai da filha mais nova, Fernanda; os encontros e desencontros com Biduca, antigo jogador de futebol no Caldas da Rainha, com quem se cruzou pela última vez em 85. "Não tenho namorado. Às vezes vão aparecendo umas coisas, mas ainda não há nada claro. Tudo debaixo de capa enxuta". A bola rola com euforia em tons de azul. Da torcida do Derby de Cabo Verde para o português Futebol Clube do Porto, gémeo nas camisolas, que este sábado homenageou o estrondo imortal de Évora com um minuto de silêncio.
O coração tem muitos quartos. Cize e Djô têm em Cabo Verde uma associação que auxilia crianças com talento para tocar ou cantar. É ainda embaixadora do Programa de Alimentação Mundial. Há sempre um prato de comida para quem a visita por bem. "Há gente que me pede dinheiro emprestado e nunca mais me paga. Não me chateio […] Tenho uma casa para morar e está bom."
Em Setembro de 2011, depois de cancelar um conjunto de concertos por se encontrar muito debilitada, a sua editora, Lusafrica, anuncia que a cantora põe um ponto final na sua longa carreira. Morreu sábado, aos 70 anos, de insuficiência cardiorrespiratória aguda e tensão cardíaca elevada, no Hospital Baptista de Sousa, na sua ilha. O funeral está marcado para amanhã à tarde no Mindelo. Como quer ser recordada?, dúvida carregada de certezas em jeito de remate da entrevista. "Como Cesária Évora. Mais nada. É esse o meu nome".



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