Um tributo aos ancestrais a partir de um episódio insólito. O livro “Os Malaquias” valeu-lhe o Prémio José Saramago
Uma comovente história de família e um ainda mais ternurento regresso ao passado. O avô, que em miúdo perdeu os pais para um estranho raio, morreu há um mês. Não sem antes se rever nos capítulos que lhe foram lendo. Nico, semi-analfabeto, que seguiu a leitura com o chapéu encostado ao peito, não precisou de saber que a sua vida valeria o Prémio Saramago. O tributo da neta Andréa aos seus antepassados estava feito.
Chegou a Portugal meio incógnita?
Completamente. Soube há uns bons dias que estava na lista dos finalistas, mas disseram-me para não contar a ninguém.
Conseguiu guardar segredo?
Só contei ao meu marido. Ele aguentou. Aí chegou um email a dizer que tinha ganho, mas não acreditei logo. Pensei que era apenas um convite para ir a Lisboa participar na cerimónia como finalista, e aí sim iriam anunciar o vencedor. Até quando me apanharam no aeroporto fiquei um pouco desconfiada. É uma surpresa muito grande. Mesmo no Brasil não sou uma escritora conhecida.
Pertence a uma editora pequena.
É, publico desde 2003 em editoras pequenas. Em certos círculos conhecem-me, mas é uma coisa restrita. Na verdade são os próprios colegas escritores que se publicam e se lêem. Entre os meus colegas havia pelo menos uns 15 nomes brasileiros que seguramente estariam na frente das possibilidades de ganhar.
O que acha que fez a diferença?
Um ponto que talvez faça a diferença é não ter tido receio de voltar a um ambiente rural. Existe uma tendência na literatura brasileira de ser muito urbana e aqui tenho um certo ritmo arcaico, sigo uma certa sombra que está lá atrás. Falo da roça mas ainda assim com um realismo fantástico. É um género que a América Latina pretende que fique para trás.
A idade também terá pesado? “Os Malaquias” é publicado no limite.
É, na época eu tinha 35. Em boa hora apanhei o último vagão do trem, já a correr. Não teria mais chance nenhuma.
Há bom sangue novo brasileiro na escrita?
Sim, e há também muitas mulheres a escrever. Conversei com o José Luís Peixoto sobre isso e concordávamos que lá há muito mais escritoras que em Portugal. Posso dizer uns dez nomes de mulheres que produzem muito. As mulheres lá não param de escrever, mantêm-se, apesar das barreiras.
E como estão de leitores?
Falta muito ainda, mas há um fenómeno curioso. Apesar de não haver muitos leitores, há muitos escritores e muitos novos editores. Se é corajoso escrever um livro, que dizer de publicar um livro! Existe uma renovação e há um potencial enorme de leitores, com o tempo.
Já trabalhou numa série de áreas, da publicidade ao cinema. Chegou mesmo a responder a leitores numa coluna sobre dúvidas sexuais, verdade?
Foi a minha primeira publicação, apenas uma bobagem. Uma ideia de uma revista. Eu precisava de criar uma personagem que não a Andréa Fátima dos Santos.
É aí que surge o pseudónimo?
É, mas nessa época não podia sequer imaginar que publicaria um livro que fosse. Se tivesse pensado nisso não teria escolhido Andréa del Fuego. Tem algo de erótico. Vem de uma bailarina brasileira, Luz del Fuego, que também o usava como pseudónimo. Tirou o nome de um batom! Uma coisa assim suja, prosaica, de bolso de mulher. Não era para usar numa carreira de escritora.
Hoje que nome escolheria?
O meu, Andréa Fátima dos Santos. Admiro muito a bailarina mas mantive o nome mais pelo som. É poderoso. Del fuego! Acabou ficando.
Esse erotismo tem pouco a ver com “Os Malaquias”.
Completamente. No entanto, os meus primeiros contos eram eróticos, mas de qualquer forma eram contos fantásticos. Tinham por exemplo uma mulher devota de São Jorge que tinha sonhos eróticos com São Jorge. Era uma atracção pelo Santo. Gostava de ver os seus milagres materializados na sua vida. É sempre um mundo assim meio bagunçado.
Neste romance está muito em casa.
Sim, começa com um acidente natural e nas famílias fala-se pouco dos traumas; vive-se os acidentes e basta. Desde criança que me fascinava a ideia de como um raio podia matar alguém.
Foi assim que o seu avô perdeu os pais. Fazia-lhe perguntas?
Quando lhe falavam nisso ele emocionava-se de tal forma que eu me sentia culpada por mexer no assunto; nunca mais falei. O acesso que tinha a esta história já se foi embora. Ele morreu há um mês e aí acabou mesmo a história.
Ele chegou a ler o livro?
O meu avô era semianalfabeto, mas a minha tia leu-lhe alguns capítulos. Ele ia ouvindo a história com o chapéu no peito. Ter escrito o livro já me bastaria, por sentir que tinha cumprido uma necessidade de tributo aos meus ancestrais, esse sentimento de origem.
Que marcam sempre quem fica?
Marcam muito. Eu tenho um olho de cada cor e acho que isso ainda tem a ver com o raio! Deve ter passado por aqui uma fagulha. É um raio comprido.
Há mais casos insólitos na família?
Mais ou menos. Na verdade, lá em Minas, a região é um vale cercado. As pessoas ficam presas, represadas é a palavra. No livro surgem muito essas águas represadas, como a água da hidroeléctrica, adestrada para dar luz em certa medida. As pessoas são muito contidas. O mundo pode estar a desabar e elas ficam mudas e quedas. Mas internamente…
Estão em convulsão?
Exactamente. Não ter nascido lá mas tendo sido criada por mineiros fez-me muito assim e reconheço isso neles.
Regressa muito a Minas Gerais?
Não vou há algum tempo. Depois do livro, os parentes que entram como personagens foram morrendo e tornou-se um pouco difícil. Aliás, um dos personagens faleceu enquanto estava a escrever e tive que reescrever a obra. Pensei “porque é que estou a fazer isto a mim própria?”.
Quem morreu?
O meu tio-avô, que era anão. Não era um abestalhado, um bobo. Ele foi o parteiro da minha avó. Imagine a minha mãe nascer nas mãos de um anão velhinho? Como não vou escrever isto?
Pensou desistir do livro?
Óbvio, desisti do livro muitas vezes. É muito duro. E com que direito posso fazer isto? Parecia-me quase como violar um túmulo, exibir os ossos. Achava que era uma coisa amadora falar disto, com este envolvimento emocional, que era coisa de mulherzinha sensível.
E ainda não estava grávida.
Não, e nem pensava em gravidez. Essa é outra surpresa. Aliás, tinha o projecto de não ter filho e engravidei depois do livro pronto. Aí é engraçado porque a gravidez não deixa de ter água nesta história toda. Inchamos e agora também estou em fase de represa. Devia ficar descansadinha e acontece-me este prémio.
Fez uma longa viagem para recebê-lo.
E se foi difícil, porque eu morro de medo de viajar. O meu marido veio comigo a segurar a barriga. Agora sim, sou a perfeita mulherzinha.
Tem escrito? O seu blogue tem estado parado.
Sim, há uns três, quatro meses. Trabalhei bastante neste tempo. Estava envolvida num romance que acabei agora e exige ainda muito trabalho. No Brasil dou muitos cursos de escrita literária. Muita coisa começa ali, há uns primeiros registos mas é preciso muita coragem para tirar a rolha da garrafa, fazê-la derramar.
Sempre escreveu desde miúda?
Adoro essa expressão, “miúda”. Sempre escrevi, mas ninguém escreve nada interessante aos 11 anos e eu não vinha de uma família de leitores, tão-pouco de escritores. Nem tinha ideia do que seria uma vida de escrita. Gostava de ficar quieta num canto. A escrita proporcionava-me uma solidão. E felizmente sou casada há vinte anos com um marido que o compreende perfeitamente.
Vinte anos?
É, desde pequenininha. Não casei, mas com 16 anos peguei numa mala e fui para casa dele, fui atrás do fotógrafo! Conheci-o num bar, na noite, e “pensei onde é que isso aqui vai dar?”. Ele era dez anos mais velho mas também era um jovem. O facto de ser fotógrafo ajuda. São duas solidões que coincidem, que fazem companhia uma à outra. Adoro.
O que achou do do prémio o resto da família?
Só estão a saber agora porque ninguém fazia mesmo ideia de que viajaria. Ontem falei com a minha mãe. “Como ganha uma coisa assim e não me diz nada?! Não confia em mim?”. Ela estava brava porque eu não a avisei.



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