Não foi o caso de “Paixão”, o filme que estreou esta semana. A actriz levou-nos ainda ao teatro e à música, ao som do Real Combo Lisbonense
As muletas aprisionaram-na em casa. Ossos de um pé mal pousado no chão que comprometeram o ofício. Em Março espera regressar aos palcos e dia 26, com ou sem coxeios, canta no Conservatório de Lisboa. “Quando estamos a trabalhar queremos ter tempo livre, agora já me parece tempo de mais”, diz a protagonista da claustrofóbica “Paixão” de Margarida Gil, que tem aproveitado a clausura para ler e ver a saga completa de “Os Sopranos”.
Ironia das ironias, em “Paixão” surge com uma perna engessada.
É verdade. O filme foi feito há dois anos. Nunca imaginei que agora, na estreia, estaria assim. Mas no filme a perna lesionada é a esquerda e a minha é a direita.
Já tinha acontecido alguma coincidência deste género?
Não foi num filme, mas numa peça de teatro, em que fazia de uma espécie de andróide e imaginei que ele via de um olho. No dia da estreia acordei com um problema na vista, exactamente naquela que eu fechava. Era algo relacionado com stresse. Agora foi esta, passado tanto tempo...
Como é que se lesionou?
Foi a seguir ao Natal, uma coisa muito simples. Dei um salto a correr e quando pousei o pé no chão o joelho fez crack. Fiz uma rotura do menisco e de ligamentos, o que os médicos chamam “bingo”, uma lesão muito à jogador de futebol. Fui operada em Janeiro. No início pareceu-me muito como no filme. Aquela clausura, o peso. É muito engraçado que quando fizemos o filme passámos quatro, cinco semanas, quase sempre no mesmo décor, e era um trabalho muito solitário para mim e para o Carloto. Aquela casa a desmoronar-se, com paredes velhas.
Era onde?
Perto de Carcavelos. Parecia um palacete, tinha um jardim enorme, mas tinha um lado muito triste. Passávamos ali aquelas horas todas, das sete da manhã até haver luz. Eu e o Carloto só nos juntamos a partir de certa altura. Há imensas cenas, muitos dias, em que contracenamos para a parede. Sentíamos essa claustrofobia.
Essa claustrofobia ajuda a perceber as motivações daquelas personagens?
Sim, aquelas duas personagens que depois têm a hipótese de ser livres, mas não conseguem, criaram uma dependência. A Margarida falou connosco sobre isso, sobre a síndrome de Estocolmo, quando o refém se apaixona pelo raptor. Acho graça que estes dois seres, no meio de uma situação tão limite, precisem um do outro. Às vezes sou romântica e maluca ao ponto de acreditar que um dia gostava que me acontecesse algo assim.
Raptar ou ser raptada?
As duas coisas [risos]. Experimentar os dois lados.
É uma estranha forma de amor, que provoca alguma inveja?
Sim, é claro que somos racionais e costumamos estar com os pés bem assentes na terra, mas é esse viver a cem por cento, levar ao limite alguma coisa. No estado actual do mundo é muito raro fazermos alguma coisa até ao fim. Ao mesmo tempo acho que o filme pode ter essa mensagem, um bocado pessimista. Será que a saída disto tudo é só a morte? Aí não estou de acordo. Quando nos apaixonamos temos aquela coisa “é para a vida”. Não é para a vida, é para agora, cem por cento para agora. Se ainda estivesse com o primeiro namoradinho, de certeza não estaria aqui.
Recorda algo que tenha marcado especialmente o seu trajecto e influenciado o seu trabalho?
A morte do meu pai, há quatro anos. Dois dias depois de ele ter morrido comecei a ensaiar a “Casa de Bonecas”. Não tive tempo para fazer o luto. Tinha de continuar a trabalhar, a viver. Na primeira leitura que fizemos, em que cada um lia uma deixa, calhou-me exactamente a deixa em que a Nora diz “o meu pai morreu”. Quando chegou a altura fiquei assim parada a olhar para o texto imenso tempo. Depois, decidi que não ia usar a morte do meu pai para fazer uma grande fita. Defendi- -me. Não queria que o que tivesse de mostrar fosse feito por esse caminho.
Era demasiado fácil?
Sim, era facílimo levar aquilo para um lado de cortar os pulsos. Era melhor ter alguma distância. Fiz “A Morte do Palhaço” com O Bando, passados três anos, e acho que foi a primeira vez depois da morte dele que me deixei ir. Aproveitei o choro, o grito, mas nunca vim para esta vida para curar os meus problemas.
Mas ajuda?
Há momentos em que é vital. Neste momento estar parada em casa deixa-me maluca. Ter tempo para pensar é muito mau, como diz a Luísa Costa Gomes. Actuar é o que preciso.
Como começou a actuar?
Ao 19 anos cantava, tinha uma banda, chamada Clã Oposto, mas aquilo não vingou. Trabalhava num escritório de engenharia, primeiro como paquete e depois como secretária. Uma amiga andava num grupo de teatro amador e um dia fui assistir. Era muito tímida, tinha muita vergonha de estar em público, mas no meio daquele grupo resolvi experimentar. Comecei a ir às sessões e cantava no Coro da Juventude Musical Portuguesa. Tive um namorado que soube de um curso no Instituto Franco-Português e inscreveu-me. Fui às audições.
Continuava a trabalhar?
Sim, menti no emprego. Disse que tinha uma consulta e fui fazer a audição. Não sabia se me tinha corrido bem ou mal. Tinha ido ao teatro uma vez na vida. Foi engraçado porque passado uma semana ligaram-me outra vez a dizer que tinha de fazer uma nova audição. Já não sabia o que inventar no trabalho. Disse que ia entregar uma coisa a outro escritório e lá fui à audição. Disse à minha mestre que tinha pressa e ela disse-me que para ser actriz tinha de saber esperar. Fui-me embora mas passei o dia todo triste. Quando cheguei a casa à hora do jantar a minha mãe disse que se tinham fartado de telefonar a dizer que tinha ficado. A audição era só para dizer isso.
Aí abandonou tudo?
O primeiro ano do curso era completamente virgem. Não sabia colocar a voz, nada. Parecia uma beata do teatro a querer ver tudo. Cheguei aos meus patrões, contei tudo e eles disseram-me: “Ana, até que enfim.”
Porquê “até que enfim”?
Eu não era a secretária normal. Não me vestia de uma maneira muito discreta, atendia os telefones de uma maneira… não me enquadrava. Sabiam que actuava no coro. Ficaram contentes e a despedida foi tranquila.
Mas na música tinha formação?
Nada, desde miúda que cantava. A minha mãe é de Paredes de Coura e também cantava num coro, mas não era profissional. Durante o curso tive um professor que puxou imenso por mim e foi aí que descobri que a minha voz tinha alguma potencialidade. Quando entrei para O Bando, onde trabalhei cinco anos, no elenco fixo, as peças tinham sempre algo muito musical e desenvolvi muito, apesar de não saber ler uma nota de música. No meio disto tudo conheço algumas pessoas chave. No 20.o aniversário do Bando entrava a Filipa Pais e fizemos uma perninha. Ela apresentou-me ao Sérgio Godinho para fazer coros, o baterista do Sérgio Godinho disse que o Carlos Bica andava à procura de uma voz e fui fazer uma audição.
Como é que correu?
Foi um dos momentos engraçados da minha vida. A audição foi em casa da avó dele, em Oeiras, numa salinha pequenina cheia de livros, com o contrabaixo e o piano. O Bica muito tímido, eu superenvergonhada. Pedi para me sentar e cantar de olhos fechados. Ele disse que sim, e que também nunca tinha feito audições.
Ainda não se conheciam?
Não, e na altura, em 96, ainda só tinha feito umas duas peças. Quando acabei de cantar perguntou se me podia dar um abraço. Depois ele foi para a Alemanha e durante um ano trocámos correspondência. Ainda tenho um saco cheio de cartas do Bica. Uma vez mandou-me uma a dizer o que podia ouvir e aquilo que eu não podia ouvir. Ouvia Madredeus, Ricky Lee Jones, a Maria João, mas não vou dizer o que não podia ouvir [risos].
Que mais a mandou ouvir?
Frank Zappa, Elis Regina. Quando ele cá vinha íamos ver concertos do que eu não podia ouvir. Andámos assim um ano neste namoro. Depois fizemos um disco e durante dez anos foi uma aventura. Viajámos muito, pela Alemanha, pela Áustria. Foi uma época muito boa. Ao mesmo tempo tinha o teatro, que é aquilo que me alimenta. Às vezes também a televisão. A música sempre foi para ser feliz.
Agora está ligada a outro projecto.
Estou com o Real Combo Lisbonense e com o pianista João Paulo Esteves da Silva. No cinema tenho feito algumas curtas, mas nunca tinha tido este peso de ser protagonista. Acho que a primeira coisa que fiz foi com o Joaquim Sapinho, no “Corte de Cabelo”, e depois a minha cena foi cortada. Trabalhei com a Raquel Freire e com o João César Monteiro.
Como foi essa experiência?
Maravilhosa. Até acho que este filme é uma belíssima homenagem ao João. A personagem do Carloto tem tiradas e uma ironia em que imagino o César Monteiro. Era uma figura, um génio imprevisível. Havia um certo medo entre as pessoas que trabalhavam à volta dele. Fiz a voz na “Branca de Neve”, a rainha, e depois entrei no último filme dele, o “Vai e Vem”.
Era difícil contrariá-lo?
Na “Branca de Neve” comecei a decorar o papel, depois dizia que já não queria. Passado imenso tempo recebo um telefonema para ir ter ao Jardim Botânico para fazer a voz. Lá estava ele agarrado a um cigarro, eu a ler o papel, e o João andava com um pauzinho como se fosse um maestro. Já na fase do “Vai e Vem”, convidou- -me para um papel. Entretanto recebeu um telefonema, ficou muito irritado, e dizia que ia fazer este filme todo amarelo. Admirava-o imenso.
Foi fácil trabalhar os textos da Margarida Gil e da Margarida Velho da Costa?
Trabalhámos muito os textos. Eram bastante literários, mas seguimo-los à risca. Quando estava a fazer o filme sentia-me numa camisa-de-forças, queria gesticular mais e a Margarida dizia-me que não. Certos dias vinha para casa e achava que não me deixavam mostrar o que sentia, mas agora que vi o filme agradeço-lhe. Confiei nela, apesar de uma certa resistência, e ainda bem que confiei.
Costuma resistir ou confiar mais?
Tenho uma personalidade de conseguir quase sempre fazer o que quero. Há imensas coisas que já fiz em que não tive respeito nenhum pelo tipo que me estava a dirigir. Isto em teatro. Faço as coisas, mas arranjo ali um esquema em que sinto que dou a volta, como se fosse uma menina mimada. Mas quando há químicas entre as pessoas é muito bom confiar nos outros.



Comente este artigo