Que futuro está reservado para o vinho português no ano que agora começa? Alguns indicadores são preocupantes, como a descida do consumo interno, a dificuldade que alguns produtores têm em receber o pagamento do vinho que colocam no mercado e o nível de estrangulamento financeiro que se vive em alguns sectores que fizeram apostas demasiado altas, a crédito, quando o dinheiro estava barato e nas relações com os bancos tudo eram facilidades.
A verdade é que nunca os vitivinicultores portugueses produziram tanto vinho de tão boa qualidade como agora. Mesmo nas gamas mais baixas a qualidade supera quase sempre o preço, sendo possível comprar muitos vinhos abaixo dos 4 euros de uma qualidade que em França ou Itália não se conseguiriam por menos de 8 ou 10. E porquê? Porque muitos produtores têm necessidade de receitas de tesouraria e fazem parcerias com as grandes superfícies que lhes esgotam a produção mas à custa de lucros unitários quase miseráveis. É assim a vida...
Para alguns a salvação vem das exportações que têm vindo a aumentar para mercados como os Estados Unidos, o Brasil ou, mais recentemente, a China. Mas apenas uma pequena parte pode beneficiar dessas vendas no estrangeiro. Estão bem as grandes empresas e outras de média dimensão que leram o futuro e se lançaram nesse caminho já há anos. Tem os seus clientes já garantidos e podem encarar o futuro com mais alguma confiança. E há muito ainda a fazer nos vários mercados para onde a exportação é possível e onde a diferença pode valer em confronto com alguns vinhos do Novo Mundo, onde as produções das vinhas são incomparavelmente maiores e os custos de fabrico muito mais baixas, como o dos produtores da América do Sul.
É essa diferença, nas nossas castas e nos nossos solos e clima que acabam por resultar em vinhos com uma identidade muito própria que pode levar os produtores portugueses a fazer frente a vinhos bem feitos, mas todos iguais, que se podem encontrar em qualquer lado.
O ano que agora começa vai ser duro e complicado, ninguém tenha dúvidas, mas o caminho certo poderá estar numa maior divulgação dos nossos vinhos, num trabalho exaustivo para que Portugal seja mais conhecido e reconhecido junto dos consumidores estrangeiros de gama média, que salvo raríssimas e honrosas excepções nem sabem que produzimos vinhos de excelente qualidade.
Como é que esse trabalho se poderá fazer? Não sabemos, mas é certo que alguns caminhos já ensaiados não conduziram a grandes resultados. Tirem-se daí as devidas conclusões. Para quem viaja é muito triste não encontrar com facilidade vinhos portugueses nas prateleiras das lojas, para além do Mateus Rosé e de alguns Porto de qualidade discutível. Isto generalizando, obviamente, coisa que é sempre perigosa. Mas se alguns dos melhores restaurantes do mundo têm nas suas cartas alguns dos nossos melhores vinhos, será impossível fazê-los chegar também aos melhores do patamar logo a seguir?
Com trabalho, imaginação e competência chegaremos lá. Espero eu.



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