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Mundo caminha para regimes ditatoriais apoiados nas tecnologias, defende académica portuguesa

Mundo caminha para regimes ditatoriais apoiados nas tecnologias, defende académica portuguesa

25/10/2013 00:00:00
"Estamos numa tremenda crise, que não sabemos muito bem onde vai dar"

A "tremenda crise" de segurança que se vive hoje em dia no mundo está a transformar as democracias em ditaduras, ao abrigo de exceções que estão a destruir os valores ocidentais, defendeu hoje a académica portuguesa Irene Pimentel.

Em declarações à agência Lusa no Tarrafal, norte da ilha cabo-verdiana de Santiago, onde participa na primeira conferência internacional sobre a Rota dos Presídios no Mundo Lusófono, a historiadora portuguesa alertou para os perigos de as excessivas medidas de exceção estarem a destruir a democracia.

"Estamos numa tremenda crise, que não sabemos muito bem onde vai dar. O grande problema é que as próprias democracias, que não podemos dizer que são ditaduras, têm exceções, estabeleceram regimes de exceção para determinadas categorias, como terroristas ou bombistas, criando administrativamente uma nova legitimidade e uma nova lei, completamente fora da lei da democracia", advertiu.

Salientando o "caso típico" de Guantanamo, a "prisão" norte-americana localizada em Cuba, Irene Pimentel criticou o facto de ainda existirem, nos dias de hoje, campos de concentração que estão a perverter a democracia e liberdade dos cidadãos.

A professora da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, que dissertou sobre "O Sistema Concentracionário na Europa e no Mundo", realçou que, em nome de "eufemismos" ligados, por exemplo, à Lei Patriótica ("Patriot Act") norte-americana, se possa prosseguir com a tortura.

"Há aquela frase célebre de (António Oliveira) Salazar: «Uns safanões a tempo para que os temíveis bombistas não provoquem perda de vidas humanas, de mulheres e crianças». Com esse argumento, atualmente, está a dar-se cabo da democracia. Quando estamos a fazer exceções em democracia, estamos a dar cabo dela", sublinhou.

Questionada pela Lusa sobre para onde então se caminha, Irene Pimentel respondeu que poderá estar-se a caminhar para "novas ditaduras", diferentes das que se conhecem, "porque não há referências e os contextos são diferentes", salvaguardando ainda que a tecnologia atualmente ao dispor ajuda "tremendamente" ao processo.

"Estamos em transformação, sem quase darmos por isso, de uma democracia para ditaduras. Por exemplo, hoje em dia, não é preciso na Europa, ou em Portugal, instaurar a censura tal como ela existia na ditadura. Basta controlar os «mass media», pôr os jornalistas a ganharem pouco, a estarem disponíveis para tudo, etc, e, de repente, temos um pensamento único, sob a capa da pluralidade", avisou.

Recuando no tempo, e comparando com os campos de concentração portugueses nas antigas colónias em África, Irene Pimentel sublinhou que a lógica atual não é de extermínio, como o que se passou na Alemanha nazi, mas de neutralização dos opositores, tal como o Estado Novo fez, primeiro, com os antifascistas, entre 1936 e 1954, e, depois, com os nacionalistas, em Angola, Cabo Verde, Guiné e Moçambique.

"Não creio que eram campos para matar, mas se as pessoas morressem não vinha grande mal ao mundo. Era sobretudo neutralizá-los, afastá-los, para que não houvesse mais interferências", disse, admitindo que o caso do campo da Machava, em Moçambique, foi mais longe na eliminação física dos opositores.

"Mas nada se pode comparar com os campos de concentração da Alemanha nazi, sobretudo depois de 1941, com Dachau, Buchenwald e Auschwitz", frisou, lembrando a "fase de extermínio", sobretudo de judeus.

*Este artigo foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico

 

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