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Por Diogo Pombo
publicado em 2 Nov 2013 - 05:00
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Catadores de lixo. O proveito que vem do desperdício dos outros
Seja ferro, sejam malas, electrodomésticos ou roupa, nas ruas de Lisboa há quem partilhe uma profissão: aproveitar o que os outros não querem e esperar que esses restos acabem no lixo. O i andou atrás de três casos

Os homens não choram. João Paulo Rita já perdeu a conta às vezes que ouviu esta frase, mas sabe de cor as alturas em que ela lhe brota na cabeça - quando se vê sozinho no canto que há dois anos é o seu nas ruas de Lisboa. É à noite que a sua mente fica órfã de distracções e começa a trabalhar sem companhia. "Às vezes vêm-me as lágrimas aos olhos", confessa, sobre os momentos em que a solidão nocturna traz consigo "as saudades de tudo" e o faz lembrar da tal frase. Aqui o choro não é a pior reacção, se a com- parar com as alturas em que chega a ponderar "desistir", pôr "uma corda à volta do pescoço" e "acabar com tudo".

É "muito complicado" ser catador de lixo. Não há dia em que Paulo Rita não acorde às 7h, abra o saco-cama, se levante do chão e "vá à sucata". A sua especialidade é ferro, alumínio, cobre, metal ou fios eléctricos. Tudo serve e qualquer grama conta quando a divisa é calculada ao quilo. Um dia proveitoso é sinónimo de encher o bolso com "oito ou dez euros", a retribuição que consegue se entregar no ferro-velho um carrinho de mão cheio de sucata para vender. Mas "há dias maus", em que "anda, anda e anda" e "não [apanha] nada", lamenta. Só aqui a sua voz começa a murchar.

Afinal nem sempre o desperdício dos outros acaba na rua, embora "as injustiças" vindas de quem "trabalha, tem um ordenado, uma casa e refeições" apareçam sempre. A garantia é de Paulo Rita e o exemplo também. Um dia, enquanto carregava "às costas" um ar condicionado avariado, oferecido por um restaurante em Alfama, um funcionário da Câmara Municipal de Lisboa, ao avistá-lo, foi rápido a disparar a pergunta: "Onde é que foste roubar isso?" As pessoas, condena o sem-abrigo, "esquecem-se, ou não sabem, que a vida dá muitas voltas" e que também ele "já esteve bem". Não recebe pensões, subsídios ou rendimentos, mas João Paulo vê no seu dia-a-dia "um trabalho igual a qualquer outro", com uma área de jurisdição a cobrir as zonas da Graça, Santa Apolónia, Sapadores e São Vicente de Fora.




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