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Vai subir? Este elevador só pára na Lua, ou mais além

Vai subir? Este elevador só pára na Lua, ou mais além

22/08/2013 00:00:00

O desafio já não é teórico. Neste momento temos tecnologia e materiais que permitem construir um elevador na Lua. Para o fazermos na Terra, falta-nos um supermaterial para construir um cabo que chegue ao espaço. De hoje a domingo, em Seattle, algumas das mentes mais brilhantes do planeta juntam-se na conferência anual para discutir o habitual: como é que chegamos lá?

"Cinquenta anos depois de pararmos de rir, o elevador espacial será construído." Arthur C. Clarke, o homem que nos anos 80 nos servia o seu misterioso mundo em formato televisivo, é o responsável pela frase. E foi um dos seus romances de ficção científica que popularizou o conceito, fazendo o comum dos mortais acreditar que um dia carregar num botão bastará para chegarmos ao espaço.

Mas será suficiente? David Horn, presidente da conferência anual que todos os anos junta os principais estudiosos da área, acredita que os elevadores espaciais são "inevitáveis". "Precisamos de uma forma mais barata de chegar ao espaço a partir da superfície da Terra", diz ao i . Essa solução passa pela construção destas estruturas. Quanto à mecânica do funcionamento, o problema não é o que acontece quando carregamos no botão. É como descobrirmos um material que aguente todo o processo. Mas fiquemos, por agora, na questão da engenharia.

O engenheiro Vannevar, o homem que construiu uma ponte sobre o estreito de Gibraltar, tem a solução. A partir de um satélite em órbita geoestacionária (órbita circular, sobre o equador, que acompanha a rotação da Terra), desce-se um cabo que ficará preso no solo terrestre. Em seguida, um ascensor eleva-se através dele. Simples, não? Só é pena é que Vannevar seja o protagonista do romance "Fountains of Paradise", de Sir Clarke, e tudo não passe de ficção, escrita no final dos anos 70.

Mas a vida, já sabemos, tem tendência para imitar a arte. Quando o ano passado uma empresa japonesa garantiu que até 2050 teria o elevador do espaço pronto para subir e descer, o esquema apresentado não era assim tão diferente. Por muito que se pense e repense, todas as teorias acabam por ter uma estação-base, um cabo, ascensores e um contrapeso.

Carlos Fiolhais, professor de Física da Universidade de Coimbra, desconfia do projecto: "Acho que ninguém consegue razoavelmente prever nada para 2050. Sei que há várias empresas na Terra a oferecer a Lua, ou quase, mas isso faz parte da sua estratégia de promoção."

Marketing ou não, no caso da Obayashi Corporation a ideia vendida era colocar uma estação em órbita, a 36 mil quilómetros de altitude (a distância à tal órbita geoestacionária), ligada à Terra por cabos de nanotubos de carbono. O ascensor, que subiria pelo cabo, teria capacidade para 30 pessoas e viajaria a 200 km/h. Desde o momento em que carregássemos no botão até chegar ao espaço passariam apenas sete dias.

Na terra ou no mar? E regressamos a 1979, quando o romance de capa lilás desaparece das livrarias e entra em casa dos fãs de Sir Clarke, que, em conversas de café, discutiam se a base do elevador devia ser construída em terra firme ou no mar.

Michio Kaku, o físico teórico que se tornou numa espécie de rockstar da Física depois de tanto aparecer em documentários, defende a segunda hipótese numa das suas aparições televisivas. "Porque não fazer descer o cabo da Estação Espacial Internacional e ancorá-lo numa barca no oceano? Isso daria flexibilidade ao cabo, para não ser tão rígido."

A solução parece ser por aí. De facto, a proposta mais comum é um cabo que vai da superfície da Terra à sua órbita geossíncrona (ou seja, a sua rotação acompanha exactamente a da Terra). Graças à força centrífuga que resulta da rotação do planeta, o cabo mantém-se em posição. Haveria então ascensores a subir e descer por ele, sem recorrer a motores. A base seria móvel (no oceano) ou estacionária (no topo de locais a elevadas altitudes). O cabo teria de aguentar um grande peso sem se partir e ser capaz de suportar o seu peso e o dos ascensores. Para estes, o desafio seria como alimentá-los. O contrapeso seria uma espécie de estação espacial de onde sairia o cabo.

É por tudo isto que Michio Kaku diz que construir um elevador espacial "é um problema prático, já que na teoria os principais desafios foram resolvidos". David Horn concorda: "Quando tivermos os materiais certos, numa década temos um elevador a funcionar." Trata-se quase de um consenso na comunidade científica. Na teoria funciona, o que falta são os materiais, como explica o astrónomo Ricardo Reis. "Já existe tecnologia para o fazer. Já é possível produzir nanotubos ou fitas de grafeno, essenciais para o elevador espacial. No entanto, não quer dizer que seja fácil, ou mesmo viável fazê-lo."

E voltamos ao início deste texto, como acontece nas discussões circulares. O problema - já o dissemos - não é o que acontece quando carregamos no botão. O problema é descobrirmos um material que aguente todo o processo.

O supermaterial Artur C. Clarke morreu em 2008 e não conseguiu ver o seu elevador tornar-se realidade. Assistiu, isso sim, em 1991, à descoberta dos tais nanotubos de carbono, o material que pode transformar o elevador em realidade.

"Os nanotubos de carbono, que consistem em folhas de grafite enroladas, são extremamente resistentes à tracção, bastante mais que o aço. E o cabo do elevador espacial tem de ser extremamente resistente para suportar o seu próprio peso. Mas, mesmo dispondo de nanotubos, não é fácil, nem barato, fazer o tal elevador", argumenta Carlos Fiolhais.

Hoje, defender a construção de um elevador espacial já não é motivo de vergonha, como explica Kaku num dos seus documentários: "Durante um século achámos que esta ideia era ridícula. Agora as regras mudaram. Carbono. Nanotubos de carbono. E grafeno. O grafeno é uma camada de carbono. Conduz a electricidade, é a substância mais forte conhecida pela ciência e vai aguentar o peso de um elevador sem se partir. Para sermos honestos, o recorde humano de produção de nanotubos é de poucos centímetros, por isso ainda temos um longo caminho a percorrer."

O caminho é sinuoso? É. Mas vamos percorrê-lo? Ricardo Reis acredita que sim. "Tenho esperança que seja algo que ainda vou ver no meu tempo de vida. Basta que um multimilionário excêntrico decida fazer com o elevador espacial o que Richard Branson fez com as viagens espaciais de turismo ao criar a Virgin Galactic. Se dinheiro não for obstáculo, não há razão para não se fazer."

O dinheiro, acredita David Horn, não é o impedimento, apesar de a construção estar orçada em 10 a 50 mil milhões de dólares (7 a 37 mil milhões de euros). "O retorno do investimento aconteceria em poucos anos." Por outro lado, diz ao i, baixaria cerca de 100 vezes os custos de uma ida ao espaço, até para um bilhete de turista. "Sairia à volta dos 100 dólares por quilo, mais ou menos o preço de um bilhete em primeira classe para um voo intercontinental."

Kaku concorda. "O principal problema com as viagens espaciais é o custo. Pôr- -te em órbita custa 10 mil dólares/500 g. Se os primeiros 160 mil quilómetros é que são o problema, porque não fazer um elevador espacial em que carregamos no botão e ascendemos através de um cabo ao espaço sideral?"

Carlos Fiolhais tem uma proposta para o cartaz publicitário do voo inaugural: "Clarke colocou o elevador na ilha da Taprobana, nome que os portugueses deram ao Sri Lanka. Se Camões disse que os navegadores chegaram "ainda além da Taprobana", Clarke queria que os novos exploradores fossem "acima da Taprobana"! Talvez fosse melhor colocar o elevador em S. Tomé e Príncipe, que tem um ilhéu por onde passa o equador. Proponho já um slogan: "Venha ao elevador espacial de S. Tomé: ver para crer!""

De hoje a domingo, algumas das mentes mais brilhantes do planeta vão estar em Seattle a debater o futuro do elevador espacial, a trocar notas e a discutir os últimos avanços tecnológicos, enquanto alguns cépticos continuarão a achar que eles não passam de um bando de lunáticos. Um exemplo recente de que os crentes estão a aumentar é a história da Liftport, que conseguiu angariar mais de 100 mil dólares (74 mil euros) no Kickstarter para iniciar a sua pesquisa com ascensores.

Se começarmos a contar desde a data em que Sir Arthur C. Clarke escreveu sobre o elevador espacial, os 50 anos completam-se em 2029. Aqui à minha volta já não há ninguém a rir. E aí?

Com João Paulo Rego

[*VEJA-TAMBEM*]

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