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Ágata. "Noutra vida fui rainha do Antigo Egipto e cantora de ópera em Itália"

Ágata. "Noutra vida fui rainha do Antigo Egipto e cantora de ópera em Itália"

20/09/2013 00:00:00

Num hotel na Avenida da Liberdade, um placard enorme com a cara de Ágata na recepção avisa que estamos no sítio certo. A própria cantora, em carne e osso e um fato branco da cabeça aos pés, cumprimenta-nos antes de uma sessão de fotografia em que também vestiu um fato "mais tigresse". É o regresso aos flashes, às entrevistas, e pelo meio ainda tem de interromper a conversa para falar em directo para um programa de rádio. Com 53 anos e um concerto de comemoração de carreira daqui a duas semanas, conta que é uma boa altura para fazer um dueto com Tony Carreira, "cheio de sucesso como eu sempre tive e ainda vou ter". O que é certo é que já lá vão quase 20 anos de "Perfume de Mulher" ("Por isso sai, sai da minha vida") e a música ainda não nos saiu da cabeça.

Tem andado mais desaparecida nestes últimos tempos.

Às vezes é bom desaparecer e reaparecer, porque a saudade é aquilo que marca o desejo. Reaparecer nesta altura é muito bom porque deixa as pessoas com muito mais vontade de me ouvir novamente, principalmente porque já se passaram alguns anos em que me identificaram como a Ágata do "Perfume de Mulher" e são canções que marcaram uma época.

Os fãs têm-lhe pedido mais concertos?

Sim, "queremos a Ágata no Coliseu" é uma frase típica dos meus fãs.

Mas só vai cantar no Coliseu do Porto...

Precisava de uma sala para fazer o DVD ao vivo e reunir alguns fãs e, como sei que eles se situam na zona Norte, dedico o espectáculo a todo o público acima de Lisboa. E uma vez que viajei até Chaves para viver, vou começar pelo menos por essa zona habitacional e venho por aí abaixo até Lisboa.

A maior parte dos seus fãs é do Norte?

Vejo isso porque tenho uma lista de pessoas no Facebook que são do Norte. Além disso, os espectáculos que faço são 60% na zona Norte, 40% na zona Sul. Não tenho nada contra o Sul, adoro cantar no Alentejo, no Algarve e em Lisboa, mas preferi começar com o rio Douro à vista.

Que tipo de pessoas costumam ir aos seus concertos?

Há de tudo. Jovens, velhos e, principalmente, crianças. Há os trintões que vêm recordar a sua faceta de criança e os mais velhos que não descolam de mim, com aquele abraço sentido que eu consigo perceber.

Então tem mais fãs homens...

Tenho mais mulheres... Sempre foi assim. Sinto que são 60% de mulheres e 40% de homens.

Na verdade, o seu nome não é Ágata. Chama-se Maria Fernanda. Porque é que mudou de nome?

Não gostava do meu nome de baptismo. Achava que não encaixava na minha personagem, na minha pele, nunca gostei. Desde pequenina que perguntava à minha mãe o porquê de me chamar assim. E dizia-lhe que um dia ia mudar de nome, até que consegui. Pensei que estava na hora de caminhar sozinha e surgiu-me assim uma brilhante ideia de me chamar Ágata.

Ágata por alguma razão em especial?

Se há pessoas que acreditam em alguém que nos guie e na voz do subconsciente, e no poder do nosso anjo ou do nosso arcanjo enquanto aqui andamos, eu acredito no meu e essa voz disse-me que o meu nome era Ágata.

E mudou o nome no registo?

Não foi necessário, porque até os cheques assino com o meu nome artístico. Sinto-me bem desta forma, porque toda a gente me chama Ágata. Até o meu marido.

Na sua biografia diz que começou a cantar aos dois anos.

Aos dois anos e meio cantarolava à janela, em Benfica, e era acompanhada por um banjo de um senhor que gostava muito de música. Recordo-me de algumas facetas minhas, de ir à farmácia pedir uma chucha para a menina... Lembro-me de cantarolar sempre, sempre.

Por influência de quem?

Por influência de ninguém. Acho que nasci com este dom e foi assim uma dádiva à minha mãe, que desejava um dia ter sido cantora e, por razões mais fortes, por ter sido mãe muito jovem, não conseguiu abraçar uma carreira. Então pediu a Deus que lhe desse uma filha com estes predicados, pele branca, olho azul, e o que é certo é que isso aconteceu ao fim de três filhos. À terceira nasceu esta prenda dedicada a uma vida de cantigas.

A sua carreira começou na Emissora Nacional.

Fui lá prestar provas, na altura tinha uns 14, 15 anos, e o professor ficou encantado comigo. Mandou desligar as luzes do estúdio para me ouvir duas, três vezes, e acabei por ficar no centro a aprender solfejo e muito a arte de como entrar em palco, colocar as mãos. Tudo coisas que na altura se usavam e tinham muito apreço. Agora não, as pessoas são livres de fazer até o pino em palco.

Depois foi para as Cocktail, a primeira girls band portuguesa.

Fui convidada pelo António Fortuna e permaneci no grupo oito anos. "O Que Passou Passou", "S.O.S. Igual a Nós", "Aquele Fim de Verão"... Tivemos muito sucesso e participámos várias vezes no Festival da Canção, que na altura era muito importante. As pessoas iam a correr para casa para não perderem pitada.

Também foi ao Festival da Canção a solo, em 1982.

Com uma canção um tanto ou quanto mais fraca e com os nervos em franja. Nesse festival cruzei-me com as Doce, de que também acabei por fazer parte. Quando me preparava para a minha carreira a solo, tive um convite porque um dos elementos tinha engravidado e perdi mais dois anos da minha vida a solo.

Perdeu?

Acabou por não ser uma perda, mais uma aprendizagem que fez com que me adaptasse a todo o tipo de palco, de pessoas, de situações.

Nessa altura tinha um look mais punk. Era uma escolha sua?

Isso foi uma produção que fiz com o estilista José Carlos, com uma roupa de cabedal dele e uma maquilhagem que me assentava muito bem, assim muito para a frente. Ele queria que eu participasse num concurso de misses, mas os planos alteraram-se porque o grupo teve um convite e eu não podia estar nos dois lados.

Quando iniciou a carreira a solo mudou de nome e de imagem.

Pensei em arranjar uma imagem bem sensual e procurei os compositores que me tinham feito a canção para o festival, num estilo mais romântico, mais ligeiro, que tinha mais a ver comigo. Gravámos dois álbuns, com o Ricardo Landum em parceria com o Toy, que não tiveram muito sucesso.

O sucesso veio em 1995 com "Perfume de Mulher" ("Por isso sai, sai da minha vida?").

Sim, nessa altura vendi o meu casaco de peles e a minha aparelhagem e toca de ir ao estúdio para fazer um álbum completo onde pudesse fazer uma miscelânea de sons, mais românticos, mais populares. O "Perfume de Mulher" surge em 95, quando eu agarro no minidisc e corro todas as editoras, mas ninguém quer ficar com o meu trabalho.

Porquê?

Achavam que, como vinha de outros grupos, como já era conhecida, não tinha o mesmo impacto. Mas tive a sorte de ter um amigo muito bom, o José Malhoa, que disse a um dos donos da Espacial que havia uma rapariga com muito jeito, com um trabalho engraçado, que podia ser uma mais-valia para a editora. O Francisco Carvalho, hoje meu marido, ouviu o trabalho, gostou e veio a Lisboa para conversar comigo.

O disco bateu recordes.

Esteve 52 semanas em primeiro lugar no top. Isso é um ano e dois meses, é muito tempo, um fenómeno que em Portugal nunca mais aconteceu. Nessa altura, a contagem para um disco de platina era superior aos dias de hoje. O meu disco, hoje, fazia um quíntuplo de platina.

Estava à espera disso?

Tinha uma tal certeza de que ia ter sucesso e que a minha vez tinha chegado que, no tempo em que gravei o CD, levei para o estúdio um prego, um martelo e um passe-partout com fotografias do nosso percurso de gravação, e disse que ali estava o meu primeiro disco de platina.

Porque acha que "Perfume de Mulher" teve tanto êxito?

A música retrata uma traição e isso é o prato do dia. E hoje, muito mais. Hoje, os jovens trocam de namorada como quem troca de camisola. Na altura, se calhar isso não era muito retratado e havia rádios que censuravam. Palavras começadas por um A, tipo amante, eram cortadas.

"Comunhão de Bens" ("Podes ficar com as jóias, o carro e a casa"), mais tarde, também fez sucesso. É uma música autobiográfica?

Não, mas também é autobiográfica porque nunca largaria mão do meu filho. É a luta de qualquer mãe. Porque isso é que as pessoas gostam em mim, porque eu as visto, as interpreto e consigo incorporar toda essa história e espírito e dar essa alma cá para fora.

Noutro registo, também gravou o tema da "Abelha Maia" com o Tozé Brito.

Vesti a pele de uma abelha lindíssima que enriqueceu e saciou o coração das crianças. Na altura, os bonecos tinham uma moral e não havia luta, pistolas, espadas e propriamente robôs, como hoje. Eram bonecos como o Marco e a Heidi que ainda hoje se renovam com outras vozes.

Na televisão, também era figura assídua do Big Show Sic. Deve ter muitas histórias para contar...

Não tenho muitas histórias para contar. Sou uma pessoa muito pontual e sempre cheguei a horas para a maquilhagem, sempre me vesti, cantei e vim embora. Não costumo fazer sala nos programas para dar azo a que possam acontecer histórias. A pontualidade é um bem que me acompanha desde os primeiros tempos (risos).

Ah, espere. Afinal tenho uma história. Um dia quis pregar uma partida ao João Baião e, em directo, desmaiei. Vieram logo os seguranças pegar em mim, foi um show off, tudo por demais. O meu filho estava nos Açores e foram logo ligar-lhe. A única pessoa que avisei foi a minha mãe, para não lhe dar um treco, e foi uma audiência do arco-da-velha. Foi ideia minha, desmaiei ali, e só o Ediberto [Lima, o produtor] sabia. Reanimei-me do nada, perante o público. Um dia, ele vingou-se. Foi a minha casa na Ericeira, onde tenho a minha piscina, e atirou-me lá para dentro. Foi uma risota.

Também teve uma espécie de reality show na SIC chamado "O Meu Nome É Ágata"...

Sim, mas foi um reality show feito à maneira deles, porque na verdade o meu dia-a-dia não era aquele. Teria muito mais gosto que fossem, de facto, partes do meu dia-a-dia, que são muito mais valiosas do que as situações que me propunham, que não tinham nada a ver comigo.

Por exemplo?

Idas a clínicas de estética, tratamentos e situações dessas que estavam no programa.

No programa vai a um adivinho. Isso faz parte do seu dia-a-dia?

Acha?

Não sei.

Não. O Carlos [o tal adivinho do programa] é uma excelente pessoa. Não sei se tem dom ou se deixa de ter, mas o certo é que as pessoas o procuram. Uma vez que estava naquela cidade e que ele tinha muita fama, procurámos o Carlos para mostrar às pessoas o que existe na realidade numa cidade pequena mas com vários pontos de interesse, não só monumentos, mas figuras típicas como ele.

Essa cidade de que fala é Chaves?

Sim. Fui viver para Chaves e é isso que há em Chaves, um espírita, que não é bruxo. Está a ver como se enganou? As pessoas até confundem o facto de eu ser reikiana.

Faz reiki?

Tenho o terceiro nível de reiki, que tem uma energia brutal, e as pessoas confundem tudo com cartomancia e com todas essas artes que não têm nada a ver com uma pessoa que nasce com um dom e que o entrega e utiliza para ajudar os outros.

Nesse programa, acreditava na reencarnação.

Acreditava e acredito. Já fui, através de regressões, até à Itália, até ao Egipto... As histórias que transcrevi eram muito reais; se não aconteceram, digo-lhe que sou uma mulher muito criativa.

Noutras vidas, quem é que foi?

Por aquilo que me foi mostrado em estado subconsciente muito profundo, fui até rainha do Egipto antigo e também cantora de ópera em Itália. Foram duas regressões muito intensas que me fazem crer que, quando eu me for desta vida, hei-de vir cá assistir ao levantamento da cápsula que está afundada no rio Douro para reaver o meu disco "Ainda Te Amo".

Cápsula do tempo?

Sim, tenho até um certificado. O disco foi depositado, na cápsula do tempo, no rio e vai ser retirado no ano de 2112. Espero nessa altura renascer num corpo muito mais elevado, com muito mais luz, para continuar este percurso sempre rumo à perfeição. Acredito que temos várias vidas para aperfeiçoarmos e limparmos o karma de vida para vida.

Foi das poucas figuras públicas que não processaram o cartoonista José Vilhena pelos cartoons na revista "O Moralista", em 1996. Disse que tinha ficado beneficiada.

Lembrou-se de uma coisa que já tinha esquecido, mas ainda tenho lá essa boneca algures nas minhas coisinhas. Mas está a ver como estou a limpar o meu karma? Agora veja lá, se disser mal de mim não vou ficar zangada.

Não se preocupa com o que as pessoas dizem?

Eu não. Não é por causa delas que eu vou deixar de andar. Eu vou ter de trabalhar e crescer por mim. Temos de ser uns para os outros, precisamos de toda a gente. Eu tenho uma casa enorme, se não fosse a minha empregada eu não conseguia geri-la porque tenho de estar aqui e ali.

Essa casa é em Chaves?

Sim, moro lá há 12 anos. O amor falou mais alto. O meu marido tinha toda uma estrutura de vida profissional naquela cidade e tive de me deslocar para lá. Mas tenho várias casas: uma aqui em Lisboa, na Expo, e também na Ericeira, onde adoro apanhar aquela maresia, andar a pé, comer o meu peixinho... Gostava muito de ser vegetariana, mas por enquanto não. Embora já caminhe mais para os lados do peixe.

Que tipo de música costuma ouvir?

Oiço muito Angélico, Paula Fernandes e outros artistas brasileiros duma novela que a SIC passou agora à tarde. Depois oiço o que o meu filho ouve: Justin Bieber, Santa Maria, ouvimos quase sempre a mesma coisa.

O seu filho [Francisco, 16 anos] também quer seguir uma carreira na música?

Vamos esperar para ver, aí é que está a surpresa. O público tem de esperar para ver, até eu me surpreendi!

Está a falar de uma surpresa neste concerto?

Não, isso não.

O concerto é no dia 5 de Outubro. Foi de propósito?

Foi por acaso, mas sabe, tenho de ficar sempre na história de qualquer maneira. Gostava que fosse dia 8, mas a força da natureza leva-me sempre para datas mais marcantes.

Numa entrevista diz que gostava de cantar com a Simone de Oliveira. Vai ser agora?

Adoraria cantar com a Simone, é uma mulher muito íntegra, muito profissional, um ícone, e que está cá para relembrar os meus tempos de menina. Gostaria imenso de a ter comigo, mas ela provavelmente não ia aceitar.

Porquê?

Não sei, também não lhe fiz o convite.

Com quem é que gostava de fazer um dueto agora?

Neste momento, com o Tony Carreira. Acho que ele tem uma vertente que se iguala à minha, é romântico como eu, e está cheio de sucesso, como eu sempre tive e ainda vou ter.

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