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Por Maria Ramos Silva
publicado em 30 Dez 2013 - 10:08
Actualizado há 2 meses 2 semanas
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José Luiz Passos. "Com a ficção a liberdade é maior, e com elao terror"
Entre sonhos e realidades brasileiras da década de 60, Maria Ramos Silva acordou para “O Sonâmbulo Amador”, segundo romance do vencedor da 11.ª edição do Prémio Portugal Telecom de Literatura em Língua Portuguesa

uma caixa de metal que aqui nos traz. Uma herança paterna de onde saiu a história de Jurandir, pequeno funcionário da indústria têxtil, e herói a contragosto, que viaja pelo tempo no segundo romance de José Luiz Passos. Nascido em Pernambuco, viveu em São Paulo, leccionou em Berkeley e hoje é na Universidade da Califórnia que espalha a palavra aos seus alunos sobre literatura luso-brasileira. Estreou-se na ficção em 2009, com "Nosso Grão Fino", depois de dois ensaios, sobre as viagens de Macunaíma e sua relação com Pero Vaz de Caminha e "Ulisses", de Joyce, e sobre a influência de Shakespeare nos personagens de Machado de Assis.

Imagine que é um sonâmbulo amador. Qual seria a reacção de Jurandir ao saber que recebeu o Prémio PT?

Jurandir é dono de um coração cheio de desconfianças. Aceitaria o prémio cordialmente, mas suspeitaria aí uma centelha de empulhação. Sua história é a de alguém que carece de um discurso sobre o eu, alguém que resiste ao enfrentamento dos seus traumas, mas que afinal de- senvolve para si um modo cheio de graça rumo ao entendimento de seus desencantos. Para quem perdeu o filho, a serenidade no amor conjugal, a fraternidade no trabalho e foi derrotado na política, penso que o prémio para Jurandir traria um consolo mínimo. E um consolo mínimo não deixa de ser algum consolo...

A ideia do romance nasceu de um baú que herdou do seu pai. Fale-nos sobre estas memórias e a forma como deram origem à obra.

Quatro anos após a morte do meu pai decidi abrir uma caixa de metal que ele havia deixado trancada. Lá encontrei pastas de arquivo com folhas dactilografadas. Elas continham o relato de seus sonhos e da sua rotina de internação numa clínica de auxílio psiquiátrico, fora do Brasil, no início da década de 1960. Eu já havia concluído "Nosso Grão mais Fino", em 2006, e estava a buscar editor enquanto trabalhava em outro romance. A história que tinha em mente era a de um funcionário que, prestes a se retirar, muda de lado e faz uma revisão a contragosto da vida vivida até ali, dos valores defendidos e das amizades cultivadas. O arquivo de meu pai me deu uma ideia para organizar a estrutura dessa vida: em cadernos, a partir de sonhos que funcionam como um gatilho para se revisitar memórias, eventos e figuras do passado. Mas a vida do narrador, Jurandir, não coincide com a de meu pai. Suas biografias são bem diferentes.

Costuma perguntar-se a um autor que há de realidade na sua ficção. Pensando no oposto, de que modo a ficção contagia a sua realidade, se assim acontece?

A criação literária pensa o real. A ficção é parte do real, não se opõe e ele, não é o oposto da verdade. A ficção literária é um modo de tornar visíveis relações constitutivas do real. Os livros que mais me impressionam (os que me fazem companhia) são aqueles que nos apresentam a vida de alguém, ou de um grupo, de uma tal maneira que a opacidade natural e característica de como vivemos as nossas próprias vidas é transformada em foco e tom singulares, e, dessa forma, entra no plano do visível, do memorável, da unidade da experiência humana. Essa unidade é algo que só existe por força da imaginação. Então, mais directamente, a ficção torna minha realidade inteligível para mim mesmo. Escrevo todos os dias, enquanto busco esclarecer, pela escrita, as subtilezas dos ciúmes, da perda do amor, do companheirismo, da maravilha da infância. Agora me pergunto: como entender questões como essas sem contar uma longa história? Ora nessa longa história (que imaginamos como resposta) algo familiar e íntimo, algo desavisado e natural, que antes pertencia ao reino do lugar- -comum, é transfigurado diante dos nossos olhos, no correr da leitura, e se transforma em prazer, empatia e entendimento. E isso, sim, é bem real.

Como se deu o seu encontro com a escrita?

Meus pais sempre gostaram de ler, porém nunca leram muito. Meus avós liam bastante, meu avô químico principalmente. Em casa sempre tivemos muitos livros. Dostoievski, Machado de Assis, Eça de Queirós, Jorge Amado, Carlos Drummond de Andrade e Fernando Pessoa: ainda uso, na preparação das minhas aulas, os exemplares das obras completas desses autores que vieram das estantes lá de casa, no Brasil, e que trouxe comigo para Los Angeles. Lembro de ganhar de uma tia, professora primária, a versão que Monteiro Lobato fez de Robinson Crusoé, traduzido de forma abreviada para crianças. Foi meu primeiro livro. Depois herdei a obra completa de Lobato, numa colecção que havia pertencido a meu pai. Guardo todos os livros que me dão. Já não tenho mais espaço em casa. Adoro livros, e ainda compro os que posso. Aliás, isso é hoje um dos meus problemas mais sérios... Para alguém que tanto admira a leitura e os livros, a escrita vem como decorrência natural de uma vontade plenamente justificada.

Disse uma vez em entrevista que publicar livros com ensaios e livros com romances "é a diferença entre narrar um gol e chutar a gol". O que prefere e como concilia ambos os géneros?

Prefiro escrever ficção. E prefiro ficção porque a liberdade é maior, e com ela o terror. A sensação de total abertura de possibilidades e também, com ela, a responsabilidade de fazer algo que caiba na língua, que honre a língua, que não falseie a experiência daqueles que busco retratar, daquelas situações que quero entender. Dá trabalho, e o resultado é sempre uma pancada mais forte, para o bem ou para o mal. Então hoje em dia não tento mais conciliar ambos, o ensaio e a ficção... Fujo de um e me refugio no outro. E quando a situação fica mais difícil misturo ambos.

Tanto neste último romance como em "Nosso Grão mais Fino" trata a questão da memória e o confronto com o passado. Que espaço ocupa este jogo com o tempo na sua obra?

Apesar das diferenças, há em Vicente (no primeiro romance) e em Jurandir (no mais recente) um acerto de contas com o passado, ou pelo menos uma revisão das percepções que têm de figuras e situações de antes. Nos capítulos pares de "Nosso Grão mais Fino", Vicente divide a narração com Ana, a sua tia e amante. Ambos relatam e ao mesmo tempo imaginam a rotina de seus encontros numa clara evocação dos mortos. Por sua vez, "O Sonâmbulo Amador" é de natureza mais coloquial. Quando Jurandir é internado na clínica, seu ponto de vista se expande até ele adquirir a capacidade de imaginar-se a partir da situação dos outros, como no caso da sua relação com os internos e das narrações que faz sobre um colega de infância e ex- -patrão. Ou seja, ambos os romance se voltam para um passado perante o qual os narradores buscam justificar-se. Na suspensão de sua rotina, Jurandir é levado a considerar uma vida nocturna, e tal exame traz consigo o fardo da memória. Entendo a memória em literatura não como um reflexo condicionado, ou um flashback que nos dá acesso ao passado do personagem: a memória é uma prática, um exercício na linguagem a partir do qual o sujeito organiza sua relação com os demais pela consciência de sua própria duração no tempo.

Como é a missão de leccionar Literatura Brasileira na UCLA?

A Literatura Brasileira é ensinada aqui em português e em inglês, no contexto dos programas de Letras Hispânicas, Línguas Neolatinas ou Literatura Comparada. É, portanto, uma das várias literaturas oferecidas na língua original, ou em tradução, para alunos de diversos programas e cursos. Nossas disciplinas são abertas a todos os estudantes do campus. Resulta que as turmas são bem heterogéneas. Desde que cheguei, noto um interesse cada vez maior no Brasil, porém não necessariamente na literatura brasileira. A noção mais difusa da "cultura" brasileira - e em particular da música, do cinema e de questões socioeconómicas - tem sido a ênfase dos estudos e dos diplomas dos alunos americanos.

Quais os nomes mais assíduos nas aulas?

Entre os autores mais canónicos, Machado de Assis e Clarice Lispector são os mais frequentes em sala de aula. O que mudou, a meu ver, foi a presença da ficção contemporânea. Hoje há mais cursos que incluem autores recentes nas diversas universidades americanas que conheço. Em Berkeley costumava ensinar, a cada três semestres, um curso sobre o Romance Contemporâneo, com textos publicados nos últimos quatro ou cinco anos. Trouxe o curso para a UCLA e ensinei-o, por exemplo, no ano passado. Mas não ensino apenas Literatura Brasileira. Nosso programa é de Literaturas e Culturas Luso-Afro-Brasileiras. O primeiro curso que ensinei aqui incluía Saramago, Pepetela, Teolinda Gersão, Manoel de Oliveira e alguns narradores brasileiros. As fronteiras são mais fluidas no campus norte-americano. Isso me agrada.

Como é a vida de um pernambucano em Los Angeles?

É a vida de um imigrante que vive fora de seu espaço de origem há 18 anos. Em parte, penso com carinho num Brasil que visito a cada ano. Por outro lado, tenho minha rotina profissional e familiar já bastante enraizada na Califórnia. Meus filhos são americanos. Falamos português em casa, sempre. Um pedaço de Pernambuco volta na memória de situações, pessoas, comidas e paisagens que ficaram para trás e também fazem parte de planos futuros. Porém, não fazem parte da nossa rotina. Essa mediação da distância, no plano do afecto e da logística profissional e familiar, é a consequência mais palpável de minha condição de imigrante. Ela tem consequências profundas para a minha escrita.

Qual dos países funciona mais como fonte de matéria-prima para as suas obras, Brasil ou EUA?

Grande parte da consecução de um romance permanece invisível, está naquela colecção de personagens e ambientes que ficaram de fora, mas fazem parte da imaginação desse universo apenas parcialmente descrito. É preciso pensar esse universo em detalhes. Por isso, a familiaridade com a matéria narrada é fundamental, ao menos no meu caso... Pessoalmente, teria dificuldade em escrever sobre um país distante, que eu tivesse visitado por apenas 15 dias, ou narrar a relação entre pessoas e grupos junto aos quais nunca estive. Embora viva fora do Brasil há 18 anos, ele tem para mim uma presença constante, e me serve como pano de fundo para dramas que me interessa descrever. Ao mesmo tempo, quero acreditar que minhas histórias poderiam se passar em outras regiões, dentro e fora do Brasil. Afinal o que elas descrevem de lá não se baseia em experiências propriamente pessoais: a acção de "Nosso Grão mais Fino" transcorre entre as décadas de 1920 e 1950 numa usina de açúcar. "O Sonâmbulo Amador", por sua vez, se passa entre o Interior e a capital do estado de Pernambuco, no final dos anos 60. Eu ainda não havia nascido. Ambos os romances retratam tipos sociais e ocupações distantes da minha situação. Então talvez o país invisível, que imagino daqui da Califórnia, seja justamente um modo de me atar a pessoas diferentes de mim e que, ao mesmo tempo, habitam algo que escolho lembrar.

Que livros ou autores o influenciaram como autor e como leitor?

Aqui abandono qualquer pretensão à originalidade. Entre os vivos, na língua, António Lobo Antunes é uma presença incontornável. Entro nos seus livros e não sei como sair. Gosto de ler os contemporâneos e me deixo influenciar por eles. Tenho grande admiração por Maria Gabriela Llansol, por exemplo. E passo por fases. Guimarães Rosa e Osman Lins, entre os brasileiros, foram fundamentais para o meu primeiro romance. Já para o segundo aproximei-me mais de Machado de Assis e Graciliano Ramos, cujas concisão de estilo e estruturação precisa me serviram de lição. Finalmente, entre os de língua inglesa, aqueles que mais leio e admiro ainda são Henry James e William Faulkner. Não vejo diferença entre o José Luiz autor e o José Luiz leitor.

O seu primeiro romance contou com uma série de versões prévias. Como determinar quando um livro está pronto?

A maturidade é saber quando parar, ou quando abandonar a escrita de um livro... Em cada um dos meus projectos, a relação entre criação e técnica tem um papel diferente. No caso de "Nosso Grão mais Fino", demorei até encontrar um modo de fazer com que os personagens pudessem falar a partir de diferentes momentos no tempo. A cada vez que faço uma mudança na estrutura, gravo e imprimo o texto. Por exemplo, no primeiro romance, o enredo apresenta diferenças radicais entre as várias versões; numa delas, o irmão de Vicente - Zelino - era um pássaro. Noutra, os diálogos eram destacados em itálicos, com direcções de cena no estilo do teatro. Noutra ainda a acção continuava após o capítulo final, rumo aos últimos dias de Vicente. Já em "O Sonâmbulo Amador", a revisão foi necessária para moderar a presença dos sonhos no plano consciente de Jurandir. A versão mais completa dos originais tinha 510 páginas. Entreguei à Alfaguara uma versão com 320 páginas, o que resultou nas 270 do livro. Os cortes incidiram na redução da quantidade de sonhos, de personagens secundários e no seu tempo de permanência na clínica. Mas também recompus a voz narrativa: originalmente, Jurandir escrevia cartas a Dr. Ênio, dirigindo-se a ele directamente, descrevendo as sessões de análise com grande minúcia. Então, quando a relação entre as partes se altera, a voz muda de tom e a interacção entre os personagens transforma o ritmo do enredo. Sempre que isso ocorre é necessário recompor o fio e cuidar da consistência de estilo e de perspectiva. Mesmo as ideias ou imagens mais geniais precisam existir como forma. Na busca dessa adequação, novas versões do texto vão brotando uma de dentro da outra.

O que anda a escrever?

Ainda é cedo para comentar o novo romance. Dediquei em média cinco anos a cada um dos dois anteriores. Em Março, a Alfaguara publicará meu livro "Romance com Pessoas: A imaginação em Machado de Assis", que interpreta a relação do romancista brasileiro com Shakespeare e Eça de Queirós. Estou neste momento ocupado em rever as provas. Aos poucos, trabalho numa história mais pessoal e contemporânea à minha própria experiência de imigração. O novo livro, ainda em curso, se chama "História Natural da Visita", e deve muito à literatura portuguesa, na qual encontro o porto, o mar e a nau como as três margens de um mesmo rio, que se reinventa e não quer parar.




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