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Chip. Aperto de mão vem substituir dinheiro e cartões

Chip. Aperto de mão vem substituir dinheiro e cartões

30/05/2013 00:00:00
Uma fabricante de jóias britânica quer aproximar as pessoas com uma nova divisa monetária: high-fives, abraços e sapateado

A montra parece-lhe bem e decide entrar. É uma loja de roupa. Passeia um pouco, olha em redor e pára diante de uma camisola do seu agrado. Experimenta-a, vê que assenta bem e decide que é para comprar. Aproxima-se do balcão, dá um aperto de mão ao lojista, pega no saco de compra e pronto. Sem notas, moedas ou cartões de crédito envolvidos. Não é um roubo, mas antes um truque que está em dois chips - um colocado perto da sua mão, na manga da camisa, por exemplo, e outro na do vendedor. Tudo isto implica contacto físico e é isso que a criadora do Money No Object pretende, porque sente falta da "mais valiosa divisa física de todas: o toque humano".

E não só de apertos de mão se faz esta ideia. Além da tradicional forma de cumprimentar, o projecto prevê o abraço, o high-five e um breve sapateado como formas de concretizar uma transacção financeira. São quatros gestos físicos à escolha, com um objectivo tão claro como inusitado: "tornar as transacções divertidas, edificantes e com significado", explicou Heidi Hinder ao i. Uma diversão que preferiu classificar como "uma nova luz" dirigida às pessoas.

A missão que se propôs quer convencer as pessoas a deixarem o dinheiro físico em casa e a pagarem com apertos de mão, abraços ou um passo de dança qualquer coisa que comprem. "É um método de pagamento adicional, alternativo e mais enriquecedor", defende Heidi.

A missão mais fácil do projecto até estará no lado da tecnologia a usar. O método implica a utilização de chips, como se de etiquetas se tratasse. A técnica em causa denomina-se Identificação por Radiofrequência, ou RFID, na sua sigla inglesa. Os chips contêm dados que são identificados automaticamente por um outro chip, que serve de leitor - colocado do lado do vendedor/lojista - através da transmissão de sinais por via rádio. Ao detectar o chip, o leitor acciona a transacção depois de ter acesso aos dados da conta do utilizador. A autora do projecto sublinha que a fórmula "é muito segura" e apresenta um "enorme potencial".

Para o comum dos cidadãos, a tecnologia "seria bastante rentável" e custaria uma libra ou 1,16 euros. O preço a pagar por um chip "embebido num objecto usável". Aos vendedores caberia a fatia mais pesada do bolo, porque é ainda necessário "comprar a tecnologia para ler os dados". O método é semelhante ao já utilizado há algum tempo em muitas redes de transportes públicos, por exemplo em Portugal - um cartão de viagem electrónico assente no sistema pagar, carregar e utilizar.

A parte difícil A outra carta deste baralho, a inovadora, parece trazer consigo maiores dificuldades - a aceitação das pessoas. "Receio estar a ficar para trás perante todas estas inovações", foi a reacção desconfiada das pessoas a quem foi proposto apertar a mão ou abraçar pessoas para cada transacção financeira.

"Dá-me a impressão que o problema que se pretende levantar é um falso problema", defendeu Manuel Villaverde Cabral. "Ou melhor, é um problema diferente."

O investigador do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa aponta a "falta de calor humano" como a incubadora da ideia de Heidi Hinder, mas trata-se de uma carência que, para estes lados da Europa Meridional, de que fazem parte os portugueses, "não se sofre".

A questão Será possível, num futuro próximo, que essa tecnologia comece a fazer parte dos hábitos nacionais? O sociólogo não teve dúvidas: "Tem zero probabilidade de ir por diante", considera, lembrando a tendência actual das transacções financeiras, "cada vez mais afastadas de qualquer coisa de concreto, pessoal e humano".

E basta pensar em instrumentos do quotidiano para entender quão menos físico se está a tornar o dinheiro: há caixas multibanco, cartões de crédito ou pagamentos online que são, para o investigador, exemplos de processos que hoje remetem para "relações cada vez mais longínquas e desconhecidas" entre as pessoas. É contra esta tendência que o método de Heidi Hinder terá de marchar.

Investimento Além de ter de lutar contra hábitos e questões culturais, o rumo do projecto está ainda condicionado por transacções comerciais: "Estamos a discutir com várias empresas em Londres a possibilidade de conseguir um maior investimento no projecto", revelou a autora do conceito, na esperança de que, "no mínimo", o método seja "inicialmente introduzido em museus ou outras instituições culturais".

A ideia de Heidi Hinder será criar uma espécie de "microeconomia", em que cada um dos quatro gestos previstos pelo sistema de chips para compras "funcione como uma maneira de fazer um donativo". Se funcionar no Reino Unido, a tecnologia pode não demorar a saltar para outros países, incluindo Portugal. Mas para o sociólogo Manuel Villaverde Cabral é ainda no lado britânico que o projecto apresenta problemas, já que essa é "das culturas que evitam a todo o custo" o que, por cá, os portugueses usam "bastante": o tal toque humano que Hinder quer tornar mais comum.

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