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Lúcio Antunes. "Desde Março que trabalho sem contrato, sem salário.É amor a Cabo Verde"

Lúcio Antunes. "Desde Março que trabalho sem contrato, sem salário.É amor a Cabo Verde"

04/10/2013 00:00:00
O técnico e controlador aéreo levou os Tubarões Azuis à primeira CAN e esteve perto de chegar ao Mundial do Brasil. E agora, Cabo Verde?

Depois dos quartos-de-final na Taça das Nações Africanas (CAN), a selecção cabo-verdiana continuou a surpreender e esteve perto do playoff de acesso ao Mundial-2014. Porém, a FIFA excluiu os africanos devido à utilização irregular de um jogador contra a Tunísia. Cabo Verde não se conforma e vai recorrer para o Tribunal Arbitral do Desporto. Enquanto não há uma decisão definitiva, o i falou com Lúcio Antunes para fazer um balanço dos três anos à frente dos Tubarões Azuis (num projecto iniciado pelo actual técnico do Gil Vicente, João de Deus). O treinador de 47 anos, que ficou conhecido como o "Special One crioulo", já regressou ao seu trabalho de controlador aéreo enquanto espera que a FIFA o deixe sonhar com uma presença no Mundial do Brasil.

Como foi recebida a decisão da FIFA em excluir Cabo Verde do apuramento?

O processo está em curso e ainda temos esperanças portanto não gostaria de adiantar muito sobre isso. A tristeza é grande, foi doloroso para todos nós, federação, equipa técnica, jogadores e, claro, toda a nação. Mas ainda há um recurso, temos de aguardar o que o futuro nos reserva.

Foi um longo caminho, desde o início do projecto (2008) com João de Deus. Basta pensar que há alguns anos muitos cabo-verdianos torciam por outras selecções.

Antigamente os cabo-verdianos não estavam habituados a ver a sua selecção participar em grandes competições, a qualificar-se para o CAN, é claro que muitos andavam desligados. No fundo todos temos o bichinho do futebol e gostamos de Cabo Verde, mas infelizmente há alguns anos a selecção não tinha possibilidade de ir a grandes competições. Com a reestruturação e o trabalho que temos vindo a fazer - há o projecto "Cabo Verde 2008-2014", brilhantemente iniciado pelo João de Deus -, isso deu algum impulso para estarmos onde estamos.

Agora sente essa ligação mais forte com o povo, as pessoas falam consigo na rua?

Sinto uma grande ligação ao povo cabo-verdiano. Joguei em todas as ilhas de Cabo Verde, além de futebol fui internacional de ténis de mesa e basquetebol, portanto a minha empatia com o povo foi sempre grande. Com as conquistas da selecção, aumentou bastante mas não podemos perder a nossa humildade. Estou sempre a ser assediado na rua para um autógrafo, uma fotografia, mas estou sempre disponível para falar de futebol. Isso também ajuda a motivar a população.

Como iniciou a carreira de treinador?

Depois de terminar a carreira de futebolista comecei a trabalhar no Sal com equipas locais. Depois, em 2006, a federação convidou-me para ser o seleccionador sub-20/21, ficámos em 3º nos Jogos da Lusofonia em Macau, na primeira participação a nível internacional. Culminámos o processo com a conquista da medalha de ouro em Lisboa em 2009, nos Jogos da Lusofonia, e acumulava as funções com as de adjunto dos seniores.

Como surge na sua vida o trabalho de controlador de tráfego aéreo?

Comecei em 1990, fui fazer o curso a Portugal. Sou da Praia mas desde 90 que estou aqui no aeroporto do Sal como controlador de tráfego aéreo. Até 2010 acumulei as funções, mas a partir daí, com muitos jogos, estágios e treinos tive de pedir uma licença e fiquei praticamente 30 meses afastado da torre de controlo. Regressei em Abril deste ano após a CAN, fizemos um jogo em Março e a partir daí estou a acumular novamente os dois trabalhos.

Dizem que é uma profissão muito stressante. Ajuda-o a lidar com a pressão do futebol?

Sim, ajuda, porque trabalho sempre sob pressão e constantemente em equipa, nada se faz sozinho e isso transporta-se para o futebol. Só podemos conseguir vitórias se trabalharmos em grupo, organizados, sob pressão, portanto tem-me ajudado como treinador.

A estratégia para controlar os aviões dá-lhe ideias para as tácticas?

Tens de fazer uma boa planificação, organizar bem os aviões, tens de tomar a decisão na hora certa, é isso que é controlo e é isso que é o futebol. Estou constantemente a tirar ilações no trabalho, às vezes acontecem situações de conflito de tráfego e com a ajuda dos meus colegas conseguimos resolver. Isso dá-nos humildade para aceitar opiniões contrárias quando estamos no futebol.

Esteve uma semana em Madrid a estagiar com José Mourinho. Olhando para trás, qual foi a lição mais forte que trouxe?

Tudo deve ser feito em equipa e quando estás num projecto tens de trabalhar de sol a sol, sem pensares nas contrapartidas, para o crescimento dos jogadores e da organização que representas.

Encontrou algum paralelismo entre a realidade do Real Madrid e a selecção de Cabo Verde?

A diferença não é muita em relação à organização do treino. Agora, as condições médicas são diferentes, o staff é grande, todos estão empenhados e isso simplifica o trabalho do treinador. Em África os treinadores encontram muitas. dificuldades que na Europa não existem.

Continuam a existir muitas dificuldades no futebol cabo-verdiano?

Eu cresci nisto. Sempre encontrei muitas dificuldades no meu trabalho desde que comecei como jogador, Cabo Verde sempre teve dificuldades. Claro que tem havido uma melhoria e isso facilita-nos. Qualquer melhoria é sempre bem-vinda, mas tanto jogadores como técnicos estamos sempre conscientes que com melhores condições poderemos chegar muito mais longe.

É difícil formar jovens jogadores com parcos recursos.

Não temos nenhum relvado natural. Há ilhas que só têm um sintético, por acaso no Sal existem dois. Há ilhas que não têm escolas de formação, o campeonato tem poucas equipas e é pouco competitivo, o ritmo de treino é muito baixo porque os treinadores não têm formação, os jogadores não são profissionais, o material é escasso. É muita dificuldade! Por isso digo sempre que os jogadores de Cabo Verde não são inferiores aos de África ou da Europa porque se nós tivéssemos as condições que outros têm, se calhar estávamos sempre a disputar grandes competições internacionais.

João de Deus disse que, apesar das dificuldades, o que mais o impressionou foi a dedicação das pessoas. Isso é uma das chaves do sucesso da selecção?

Sim, e principalmente porque as pessoas trabalham sem ficar à espera de nenhuma compensação financeira. Uma pessoa que trabalha contigo do nascer ao pôr-do-sol sem pedir nada, apenas por amor à terra, atitudes como essas têm-nos ajudado a superar várias barreiras.

A qualificação para a CAN, em Yaoundé, foi um marco na história do país. Que memórias guarda desse dia?

Epá, foi um dia inesquecível. Começámos a construir a vitória em Cabo Verde (triunfo por 2-0), contra uma equipa com muita história. Fomos confiantes, sabíamos que a qualificação seria uma realidade.

O que lhe disseram os jogadores?

Sabiam que era a hora de Cabo Verde. Quando chegámos à CAN, no seio do grupo estávamos confiantes que podíamos atingir pelo menos as meias-finais. No meu íntimo senti que tínhamos possibilidades de vencer na nossa primeira participação. Faltou-nos alguma experiência contra o Gana, num jogo em que o árbitro não esteve bem. Fizemos uma boa primeira fase contra grandes equipas, África do Sul, Angola e Marrocos, que estiveram meses a treinar e com orçamentos se calhar 10 ou 20 vezes superiores. Mas chegámos e impusemos o nosso futebol e passeámos a nossa classe. Os jogadores mostraram ao mundo que Cabo Verde tem uma equipa fortíssima e foi pena não termos ido mais além. Merecíamos pelo menos as meias-finais.

A sua imagem a correr o relvado com a bandeira (após o jogo com Angola), a festejar a passagem aos quartos-de-final, correu mundo.

Aquela imagem era para ser em Yaoundé mas não deu porque a bandeirola de canto dos Camarões não entrou na bainha da minha bandeira. Então eu disse que se não aconteceu nos Camarões, vai acontecer de certeza na África do Sul. Mostrámos ao mundo as cores da nossa bandeira.

Depois, na conferência de imprensa, cantou a morna "Biografia de um Crioulo". Foi espontâneo ou já tinha pensado no momento?

Antes dos jogos, para motivar os jogadores, normalmente recorremos a imagens de Cabo Verde, da nossa realidade, dos pescadores, das crianças. No dia do jogo as imagens que passámos vinham com essa música de fundo, que é um hino à música cabo-verdiana. Depois do jogo os jogadores invadiram a sala de imprensa, e no espaço que mediou a saída deles, passou-me a imagem da última prelecção em que tínhamos ouvido essa música e resolvi cantar para dedicar a todos os cabo-verdianos.

Essa paixão pelo país, pelo povo, ajuda a equipa a ombrear com as melhores?

Ajuda e de que maneira. Nos estágios ouvimos sempre música de Cabo Verde, nos treinos levamos sempre música, ao lado do relvado temos sempre uma coluna com música de Cabo Verde, no balneário estamos sempre acompanhados pela música, pelas anedotas e pelas figuras de Cabo Verde. Tem-nos motivado muito e não vamos deixar isso para trás porque o melhor que temos é o nosso povo, a nossa gente, tudo o que fazemos é para homenageá-los.

Quando pegou na equipa, estava no 108º lugar no ranking FIFA. Agora está em 44º. Isso deixa-o orgulhoso?

Sim, um dos objectivos do projecto era colocar Cabo Verde entre as 50 melhores do mundo. Chegámos ao 36º e com a vitória na Tunísia a equipa chegava ao 30º, portanto são mais de 70 lugares em três anos. Em África éramos a 26ª, agora estamos em 6º e podíamos ter ficado em 3º, atrás só da Costa do Marfim e do Gana. É um motivo de orgulho para todos. Agora podemos jogar de igual para igual com qualquer equipa, dentro ou fora do país.

O projecto "Cabo Verde 2008-2014" aproxima-se do fim. Que planos tem para o futuro?

Não gosto de projectar o meu futuro por outras coisas que não sejam o controlo de tráfego aéreo. Essa é a minha profissão, o futebol é um hóbi. Tive de ser profissional durante 30 meses mas regressei ao controlo, o meu contrato com a federação terminou. Sinceramente não tenho vontade de treinar na Europa, mas se fosse controlar ia de certeza.

O seu contrato já terminou?

Sim, em Março. Desde então estou a trabalhar sem contrato, sem salário, sem nada. É amor a Cabo Verde, pura e simplesmente. A motivação foi essa, e se não continuar estarei contente porque dei o meu contributo para o engrandecimento deste país.

Acompanha a liga portuguesa. O que acha dos nossos treinadores?

O melhor do mundo é português! Gosto do Jorge Jesus, da maneira como trabalha e como as equipas dele jogam, gosto de ver o João de Deus a treinar na Liga, sei que ele tem qualidade, é um homem com carácter, trabalha muito e gostaria de ver o Gil Vicente a ganhar mais vezes porque tem três jogadores cabo-verdianos. Gostei de conhecer o Leonardo Jardim, é uma pessoa simples, humilde.

O que sentiria se Cabo Verde conseguisse estar no Mundial, ainda para mais num país de língua portuguesa?

Nós trabalhamos para isso. No início a meta não era chegar ao Brasil, sabíamos que havia equipas muito fortes. Chegando até onde chegámos agora, tenho convicção que podíamos de facto estar no Brasil, e ainda tenho esperança que o recurso venha a nosso favor.

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