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Ethel Fangio. "Quando o Senna morreu, deixou de ver a F1 na televisão"

Ethel Fangio. "Quando o Senna morreu, deixou de ver a F1 na televisão"

28/10/2011 02:00

Diego Maradona, cinco Mundiais, um título. Lionel Messi, dois Mundiais, nenhum título. Juan Manuel Fangio, oito Mundiais, cinco títulos, o primeiro deles há precisamente 60 anos no GP Espanha de Fórmula 1. Mas há dúvidas sobre quem foi o melhor desportista argentino de todos os tempos? Fangio, verdad?
O penta de Fangio, batido pelo alemão Michael Schumacher em 2003, é mais incrível ainda porque o argentino ganha os títulos por quatro marcas (Alfa Romeo-1951, Mercedes-1954, Mercedes-1955, Ferrari-1956 e Maserati-1957), um feito inigualável e só alcance de um fora de série. O i está em Buenos Aires e quer visitar o museu do piloto em Balcarce, onde Fangio nasce em 1911. Primeiro entra em contacto com Ethel Ruth Fangio, a sobrinha de Juan Manuel e conselheira honorária da Fundação Fangio. Prepare-se porque o telefonema é longo e emocionante e percorre gerações numa história especial.
“Sou a filha de José Fangio, o irmão mais velho dos Fangio. Comigo Juan tinha uma relação especial, porque a relação dele com o meu pai era muito, muito, muito especial. Os dois davam-se muito e cuidavam dos pais com um amor e uma ternura fascinantes. Quando o pai morreu, Juan recebeu o golpe mais duro da sua vida e foi ficando doente, ao ponto de ter tido o primeiro enfarte.”
Ethel não pára, é incansável. A voz não lhe falha uma única vez mas os níveis sobem e descem consoante a situação de que nos fala. “Juan viveu comigo e com o meu marido, Gustavo González Nogueira, durante 44 anos, numa casa na Avenida Caseros, em Palermo, Buenos Aires, onde a família ainda vive. Éramos todos muito unidos, mas Juan gostava especialmente de mim. Um dia Juan diz-me “tenho umas malas no hotel mas aquilo não me dá confiança, posso trazê-las?’.’ Disse-lhe que sim e que até podia viver connosco. Ele declinou amigavelmente, que seria só por umas noites, até encontrar uma casa. Quando chegou a casa já lhe tinha preparado um quarto como fosse o dele há anos e anos. Abri-lhe a cama e havia pijama e chinelos. Ele quando viu verteu uma lágrima. Foi o início. Estávamos em 1961. Daí até à sua morte vivemos sempre juntos. Nunca tive filhos, mas cuidei do Juan como se fosse uma criança.”
Paragem para Ethel ir buscar ar não sei onde e retomamos o ritmo. “Ele acordava sempre às sete da manhã e eu levava-lhe uns mates [bebida tradicional da Argentina] além de lhe contar as novidades do bairro, da Argentina e do mundo. Às 9h30 lá ia ele para o trabalho na Mercedes-Benz. Era ele quem conduzia, uma situação curiosa porque nós tínhamos um motorista, Don Gimeno, de seu nome. Ora bem, Gimeno ia sempre ao lado dele mas não tocava no volante [risos]. Ao almoço estava de volta a casa porque gostava da minha comida: frango, tortilha, fatias de porco e um copo de vinho tinto. Sempre um copo.”
Pausa e lá vamos nós outra vez. Ethel tem o dom da palavra. “Juan nunca, mas nunca mesmo, perdeu uma corrida de Fórmula 1. Via-as todas pela televisão. Inventava três asados por semana, com amigos daqui e dali, mas o domingo era sagrado para ele. Sempre à frente da televisão. Viu o acidente do Senna em directo, mas a caminho da casa de banho ouviu que ele tinha morrido. Estava inquieto mas nós acalmámo-lo, dissemos que não, que tinha ouvido mal, como a atrasar o inevitável. Aquilo doeu-lhe tanto que nunca mais viu a Fórmula 1. Foi um golpe duríssimo. Porque ele e Senna eram confidentes. Quando Senna teve aquele problema com o presidente [da FIA, o francês Jean-Marie Balestre], ligou ao Juan para lhe pedir uma opinião. E Juan disse-lhe que ficasse em silêncio, não dissesse nada...”
O ano de 1994 não ficaria só marcado pela tristeza da morte de Senna. “O reencontro com [Stirling] Moss foi muito emocionante. Moss chegou ao meio-dia e ficaram a falar sem parar até às 16h. Foi uma delícia vê-los. No ano seguinte [1995], em 1995, a Fórmula 1 passou pela Argentina e a Mercedes-Benz pediu aos seus pilotos que visitassem Fangio. Ele não gostou muito da ideia porque não queria receber ninguém mas abriu uma excepção. Quando Mika Hakkinen e Mark Blundell entram na sala ajoelham-se perante ele e cada um lhe pegou numa mão. Juan soltou uma lágrima. Não pronunciaram qualquer palavra, limitaram--se a olhar uns para os outros.”
Ethel pára um pouco e não recomeça como é hábito. Que pasa? A história aproxima-se do fim. “Isso foi no ano em que ele morreu. No seu último aniversário [24 de Junho], ele não queria sair do quarto mas convidei todos os seus amigos e insisti para que ele descesse à sala. Disse-lhe que tomasse uma pastilha [aspirina] e fosse à sala falar com as pessoas. Só isso. Ele fez e quando os viu a todos ficou bem-disposto e sussurrou-me ‘olha lá, se eu tivesse falhado este evento, que vergonha, obrigado por teres insistido’. Dias depois [17 de Julho] já quase não conseguia respirar e estava a perder muito sangue. Olhou para mim fixamente, e que força tinham aqueles olhos azuis!, e aí percebi que ele queria deixar-se ir. Ele que nunca quis morrer... mas ali compreendi e deixei-o ir nos meus braços.”
O telefonema acaba e percebemos que temos de ir ao museu de Fangio. Afinal 400 quilómetros de Buenos Aires a Balcarce não são nada comparados com a história gloriosa do maior desportista argentino de todos os tempos.

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